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terça-feira, 19 de julho de 2011

Opinião: O flagelo do jornalismo investigativo

Por Claudio Julio Tognolli, em Brasil 247


JÁ QUE INVESTIGAR SAI CARO, E SEU RETORNO TEM SIDO ÍNFIMO OU NULO, A OPÇÃO TEM SIDO PUBLICAR E DIVULGAR DOCUMENTOS FORNECIDOS POR AUTORIDADES

O jornalismo do século 21 vive num estado de contínua inflação: nunca se processaram tantos jornalistas, nunca encolheram tanto as vagas nas redações. Sujeito como nunca às fúrias da Justiça, e a surtos idem de imprecisões, o jornalismo investigativo é quem mais sofre esse flagelo: afinal de contas, tal prática nasceu da idéia que repórteres, eles mesmos, montariam cenários com precisão e acurácia. As razões da crise agora parecem claras: os jornalistas passaram a copiar, maciçamente e aos magotes, dados fornecidos por autoridades. O que seria ponto de partida, virou ponto de chegada: o documento fornecido pela autoridade já nasce como ponto final –justamente ele que, nos padrões éticos do jornalismo, sempre foi visto com apenas um ponta-pé inicial a ser rechecado.

Ora, há dados bem concretos para analisar a autêntica guerra púnica em que se meteram os jornalistas. Não só a predileção do leitor pelas mídias sociais tem contribuído para a dissipação monetária das redações. Primeiro: o Brasil bate o recorde mundial de processos contra jornalistas. Os últimos dados tornados públicos são de 2007, quando: eram 3.133 processos num universo de 3.237 profissionais. O valor médio das indenizações passou de R$ 20 mil, em 2003, para R$ 80 mil. Hoje estima-se que sejam mais de cinco mil processos, com ceitis, postulados em juízo, que somam mais de RS$ 50 milhões. A ONG britânica Artigo 19 sustenta que o Brasil é ainda o país que mais processa jornalistas.

Tal quadro fez do jornalismo investigativo um negócio caro. Não só pelo custo-benefício: mas pelos salários pagos a profissionais supostamente capacitados a exercer tal expertise. Vejamos o quadro nos EUA: as vagas de jornalistas eliminadas nos jornais dos EUA desde que o centro de monitoramento “Paper Cuts” começou a contagem, em 2007, são de 21.008 em quatro anos e meio. O recorde foi em 2008, com 15.992 cortes. O ano de 2011 traz, até junho, 1.133 cortes. O foco dos cortes, é óbvio, são os jornalistas investigativos.

Os porquês são muito claros, em todas as redações do planeta: já que jornalismo investigativo sai caro, e seu retorno tem sido ínfimo ou nulo, a opção tem sido publicar e divulgar documentos fornecidos por autoridades. As razões são claras: a denúncia de um procurador, ou a sentença de um juiz, ou um grampo policial legal, levam a lustrosa chancela da fonte autorizada. De posse de um material que deveria ser seu ponto de partida, o repórter faz dele, como já se disse, seu ponto de chegada. Face um documento oficial, os departamentos jurídicos dos jornais acabam autorizando a publicação do “furo”. O repórter passou a ser mal visto quando se converte no “agent provocateur” da história: o negócio agora é pegar documento oficial pronto e mandar pra frente

Mas uma questão se põe, solarmente, diante desse quadro. E quando as autoridades, geradoras desses documentos, cometem erros, seja por incúria, má-fé ou mesmo por pura desatenção? Simples: o jornalista comete obviamente comete o mesmo erro. Mas desta vez está a salvo por um anelo melindroso: ele, afinal, publicou apenas o que uma autoridade “ilibada” lhe repassou.

Assim vão-se com o tempo os furos: e ficam os processos. As práticas desse mau jornalismo (que apenas se compraz em publicar o que recebeu pronto) hoje nivelam casos distantes topograficamente –mas que constituem, sempre em igual medida, a assustadoramente nupcial relação do jornalista com tais fontes.

O jornalista Roberto Cabrini levou 3 anos para saber que o publicado pela imprensa contra ele, com acusações de narcotráfico, era apenas uma “plantação” urdida por maus policiais. O Grupo Opportunity levou um período um pouco maior, e dependeu da chegada do caso nas cortes superiores, para saber que a Operação Satiagraha foi patrocinada por interesses privados, em disputa de território pelo mercado da telefonia.

Lá fora as cousas são tocadas erraticamente, também: mas o prazo de reparação é sagitalmente menor. Em questão de meses desmancharam-se, como um jogo de armar, as peças urdidas contra Dominique Strauss-Khan. Na Inglaterra um jornal que comprava fitas ilegais de autoridades teve de cerrar as portas.

No Brasil, sem opções outras, aqueles dilapidados publicamente, pela divulgação de documentos viciados, têm de terçar batalhas armagedônicas contra a impenitente demora de nossos tribunais. Agora já sabemos porque o jornalismo investigativo, que no passado se orgulhava de andar com as próprias pernas, caminha, liberticida e, afinal, suicida, costeado pelo andador das “fitas divulgadas”.

Um comentário:

José Antonio Meira da Rocha disse...

Jabá:

"O Grupo Opportunity levou um período um pouco maior, e dependeu da chegada do caso nas cortes superiores, para saber que a Operação Satiagraha foi patrocinada por interesses privados, em disputa de território pelo mercado da telefonia."