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terça-feira, 9 de setembro de 2025

Trincheira Popular: o novo programa da TV Comunitária de Brasília


O foco editorial de Trincheira Popular busca divulgar matérias para segmentos populares, assalariados, desempregados, sempre com a análise dos fatos. O programa será mensal, sendo exibido sempre na primeira sexta-feira de cada mês.

 

Por Chico Sant'Anna

O Canal Cidade Livre, a TV Comunitária de Brasília, tem nova atração. Estreou, dia 5/9, o programa Trincheira Popular. A meta é colocar questões e dilemas, exigindo ações e respostas. Com apresentação dos jornalistas Dorgil Silva e Camila Piacesi, o primeiro programa trouxe um resumo das principais notícias do Brasil e do Mundo, incluindo comentários, opiniões, história, cultura. É uma realização da TV Comunitária de Brasília com a parceria entre o Laboratório de Dados Brasil e a Topi Editora. A transmissão será mensal, sempre na primeira sexta-feira de cada mês, às 13h de Brasília.

Com uma agenda variada, que incluiu temas como Gaza, Ucrânia e América Latina, o primeiro programa de estreia recebeu o jornalista Hélio Doyle para analisar o julgamento de Bolsonaro e mais sete golpistas na a Ação Penal (AP) 2668: Alexandre Ramagem (ex-diretor geral da Abin), Almir Garnier Santos (ex-comandante da Marinha), Anderson Torres (ex-ministro da Justiça), Augusto Heleno (ex-ministro do Gabinete de Segurança Institucional), Mauro Cid (delator e ex-ajudante de ordens de Bolsonaro), Paulo Sérgio Nogueira (ex-ministro da Defesa) e Walter Braga Netto (ex-ministro da Casa Civil). O programa tratou também da repercussão do Tarifaço de Trump e as retaliações ao Poder Judiciário dos EUA e do Brasil.

O foco editorial de Trincheira Popular busca divulgar matérias para segmentos populares, assalariados, desempregados. Nas palavras de Dorgil Silva “a produção é dirigida aos que trabalham pela obtenção de dignidade, decorrente da própria luta, pessoal, e consequentemente coletiva, por uma vivência com valor, afastando todo tipo de violação.” O programa de estreia pode ser visto no youtube, basta clicar aqui.

Produtores

O LabDadosBrasil pesquisa informações em mídias de todos os continentes, especialmente as que revelem situações opressivas aos direitos humanos e dos povos, buscando visões críticas e projetos que grandes meios de comunicação não publiquem.

A Topi Editora destaca conceitos e ações que incentivem a comunhão, a distribuição adequada do trabalho e da riqueza, realça os valores teóricos, organizativos, políticos e ideológicos que promovam o respeito e a solidariedade entre as pessoas e os países.

TV Comunitária de Brasília

O Canal Cidade Livre - a TV Comunitária de Brasília – está no ar desde 13 de agosto de 1997. Ela transmite 24 horas por dia, com uma programação diferenciada em relação aos canais comerciais. O sinal está disponível no canal 12 da Net/Claro, no Youtube e também na página do facebook

segunda-feira, 9 de janeiro de 2023

Que jornalismo é esse?

Os canais all news, como a Globo News, BandNews e CNN Brasil, suspenderam suas programações rotineiras de domingo e passaram a transmitir em tempo real, com reportagens e análises, o que ocorria na Capital Federal. Este não foi, contudo, o comportamento dos canais abertos, que por serem gratuitos, possuem uma audiência muito maior. 


Por Chico Sant’Anna*

Nos ensinam os bons manuais de Jornalismo, que notícia boa é aquela que traz um fato inusitado, de grande interesse na sociedade e que chega rápido aos cidadãos consumidores de informação – preferencialmente em tempo real. Também é sabido que o que potencializa os meios de comunicação é a amplitude da audiência. Quanto maior, melhor, pois isso gera prestigio e retorno publicitário. Entretanto, a maioria dos canais de televisão aberta do país ignorou o que acontecia na tarde de 8 de janeiro de 2023, quando uma turba de terrorista decidiu ocupar e depredar as sedes dos Três Poderes na Capital da República.

Jornais, revistas, agências de notícias nacionais e estrangeiras, portais informativos, prontamente enviaram seus profissionais para o front da notícia. Vários deles, em especial foto e cine jornalistas, foram alvo de agressões físicas perpetradas pelos terroristas. Os canais all news, como a Globo News, BandNews e CNN Brasil, suspenderam suas programações rotineiras de domingo e passaram a transmitir em tempo real, com reportagens e análises, o que ocorria na Capital Federal. 

Este não foi, contudo, o comportamento dos canais abertos, que por serem gratuitos, possuem uma audiência muito maior. Deixar de noticiar em tempo real sobre esse delicado tema é uma ação de desinformação. Milhões de brasileiros que não possuiam tv paga ficaram sem saber o que se passava em Brasília.

Portanto, levar a informação sobre aquele fato inusitado, de interesse de todos os cidadãos brasileiros, mais do que cumprir com a missão social do Jornalismo, era fazer jus às concessões que tais grupos econômicos receberam da sociedade.

Importantes emissoras privadas de canal aberto ignoraram em suas programações o ato terrorista que se desenrolava na Praça dos 3 Poderes. 

Canais abertos

Às 17 horas, quando o quebra-quebra terrorista já se desenrolava há pelo menos umas duas horas. As redes sociais estavam plenas de vídeos de autoria dos próprios terroristas e também das forças de segurança. Esse material foi usado por alguns meios de comunicação como forma de superar a impossibilidade de ter equipes no palco dos acontecimentos. Na telinha, a TV Bandeirantes exibia Mastechef, no SBT, o programa no ar era o da Eliana; e a Record difundia Hora do Faro. Mesmo a TV Globo, em seu canal aberto, demorou a priorizar esse conteúdo. Somente às 17h19 a emissora deixou de veicular o Domingão do Luciano Huck e decidiu transmitir simultaneamente o conteúdo de sua coirmã Globo News. Buscamos saber os motivos de tal comportamento editorial com os responsáveis sobre o comando dos departamentos de Jornalismo de cada uma dessas emissoras. Indagamos se foi uma opção editorial, compromissos publicitários ou dificuldades técnico-operacionais, mas reinou o silêncio como resposta.

Emissoras do Senado e da Justiça não alteraram suas programações de fim de semana. TV Brasil manteve a programação, mas inseriu boletins informativos.

Canais públicos

As três casas de Poder invadida por terroristas são detentoras de canais próprios de rádio e TV: TV Brasil, TVs Senado e Câmara, TV Justiça. Não tivemos a oportunidade de avaliar a programação da TV Câmara, mas no Senado e na Justiça é como se nada estivesse acontecendo lá fora. Numa Irônica coincidência, a TV Senado exibia o programa Que Brasil é esse? Na tela, não era nenhuma reportagem ou análise dos fatos que se desenrolavam. No lugar de comentários dos parlamentares, ação que poderia ser enviada por celulares, era exibida uma entrevista com Fafá de Belém. A ironia involuntária também se fez presente na programação da TV Justiça: estava no ar uma entrevista com o Procurador Geral da República, Augusto Aras, no programa "Interesse Público".

Apenas a TV Brasil, canal público da Empresa Brasileira de Comunicação – EBC, alterou o conteúdo pré-programado para o fim de semana. As alterações se deram por meio da inserção de flashes (boletins informativos). Não houve uma interrupção total, como o ocorrido na TV Globo. Entre 16 e 18 horas, a TV Brasil veiculava o filme Insônia. Mais uma ironia do destino.

Os canais públicos foram igualmente procurados. O departamento de Jornalismo da TV Brasil informou que está elaborando um relatório completo sobre a programação veiculada. Não explicou ainda a opção editorial adotada. A secretaria de Comunicação do Supremo Tribunal Federal não retornou nossos questionamentos sobre o comportamento editorial da TV Justiça. Já a diretora da secretaria de Comunicação do Senado, Érica Ceolin, informou que chegou a mobilizar equipes de jornalistas para cobrirem em tempo real o que ocorria no Senado Federal, mas que ao chegarem na sede do Senado, a polícia legislativa da Casa, por questões de segurança, não autorizou que os profissionais entrassem para pegar os equipamentos. Até mesmo o supervisor técnico de plantão teve que se retirar. O Senado possui um amplo sistema de câmeras, algumas robôs, instaladas nas salas de Comissões, e outras de segurança, internas e externas – inclusive uma no topo do Anexo 1 – que poderiam ser operadas à distância e ter suas imagens transmitidas. Entretanto, segundo Erica Ceolin, não foi possível, sequer adentrar as instalações da emissora que fica no subsolo do Anexo 2 e a opção foi informar a sociedade pelo site da Agência Senado de Notícias.

Questionamentos

Os canais de televisão são concessões públicas. O concessionário privado tem a obrigação de bem informar a sociedade. A não transmissão em tempo real dos acontecimentos terroristas na Esplanada dos Ministérios, obriga-nos ao questionamento semelhante ao que é feito sobre a ação das forças de segurança do governo do Distrito Federal. Houve incompetência ou foi conivência? Por que as emissoras detentoras de tecnologia de ponta, helicópteros, drones, antenas de micro-ondas, câmeras instaladas em motos, ignoraram o ocorrido, talvez o fato mais importante do país desde a redemocratização? A pandemia da Covid mostrou que até mesmo com celulares é possível prover uma cobertura dos fatos.

Para a coordenadora do sindicato dos Jornalistas Profissionais do DF, Juliana Nunes, os episódios desse domingo evidenciaram a importância de se fortalecer a comunicação pública e governamental, bem como legislativa e judiciária. “Tudo para que a população seja devidamente informada e o patrimônio público, protegido. A sociedade brasileira precisa ter a correta dimensão dos crimes cometidos neste domingo” – complementa.

A história nos mostra que em vários momentos politicamente importantes do Brasil, as emissoras de televisão em transmissão aberta pecaram. Maior exemplo foi a campanha das Diretas Já e a reedição dos debates presidenciais entre Collor de Melo e Luís Inácio Lula da Silva. Algumas emissoras fizeram o mea culpa. Esperamos que o comportamento editorial adotado por diversos canais no fim de semana de 8 de janeiro não seja uma retomada do mau jornalismo. 

*Jornalista, documentarista, Doutor em Ciências da Informação e Comunicação, pela Universidade de Rennes 1, na França. Pesquisador associado ao Núcleo de Mídia e Política – Nemp, da Universidade de Brasília.

terça-feira, 7 de junho de 2022

TCU teme apagão televisivo em regiões remotas do Brasil

Com o fim das transmissões de TV pelo sistema analógico, famílias de baixa renda poderão ficar sem acesso à TV digital e desconectadas do que acontece no Brasil. O Tribunal de Contas da União estima que 1.300 municípios - praticamente, 1/4 das cidades brasileiras - podem ficar sem qualquer conexão com o Brasil, pois não terão mais sinal de TV. 

Texto e foto por Chico Sant'Anna

Muitas famílias de baixa renda, beneficiárias do Programa Bolsa Família correm o risco de ficar sem acesso à televisão aberta digital. Tudo em decorrência da implantação da Internet 5G no Brasil, que vai usar frequências hoje utilizadas pelas transmissões analógicas de televisão. Essas localidades perderão a transmissão analógica e ainda não contam com a digital. O Tribunal de Contas da União estima que 1.300 municípios - praticamente, 1/4 das cidades brasileiras - podem ficar sem qualquer conexão com o Brasil, pois não terão mais sinal de TV. São Municípios de pequeno e médio porte, desprovidos de meios de comunicação próprios e dependentes das transmissões satelitais de rádio e tv.

Isso é que os técnicos denominam apartheid tecnológico. O sinal analógico é de fácil captação pelas antigas antenas parabólicas. Muitas cidades não possuem canal local. Outras, as prefeituras criaram canais repetidores para redifundir o sinal captado nos satélites. Mas com o sinal digital, também as prefeituras teriam que comprar novos equipamentos para se adequarem às mudanças tecnológicas.

Há ainda problemas geográficos. Localidades em que o relevo ou a vegetação, como na Amazônia, não favorecem a transmissão do sinal digital. Na França, quando da implantação da TV digital, cerca de 500 lares ficaram sem acesso a TV. O governo criou uma espécie de bolsa televisão, concedendo a essas famílias um abono que permitissem que elas assinasse serviços pagos de televisão.

Nos Estados Unidos, também houve esse fenômeno. Em 2009, 2,8 milhões de lares no país não conseguiram se adaptar para receber os sinais de transmissão digital. O Impacto também afetou 21 pequenas e médias emissoras locais, que sem dinheiro para se adaptar à nova tecnologia, tiveram que encerrar suas transmissões.

Para evitar que isso aconteça, o TCU recomendou ao ministério das Comunicações, que crie um planejamento para o desligamento do sinal analógico dos municípios que ainda não possuem a transmissão de TV digital, viabilizando às populações que contam atualmente com a transmissão analógica da televisão aberta a continuidade de acesso, no mínimo, aos mesmos canais em tecnologia digital.

Para mais detalhes sobre a migração para o canal digital, leia também:

TV digital: 500 mil lares sem televisão, na França

TV Digital: Governo francês teme apartheid tecnológico

TV Digital: Término da transmissão em sistema analógico deixa milhões de lares sem sinal de TV nos EUA

TV Digital: Emissoras pedem adiamento do fim do sinal analógico

TV Digital: fim da TV analígica pode ser prorrogado

Japão completa transição do sistema de TV analógica para digital

Para o TCU se o cenário atual permanecer da forma que está, após ocorrer a migração da transmissão analógica para digital prevista para o final de 2023, cerca de 1.300 municípios ficarão sem qualquer sinal de TV, deixando seus moradores sem acesso à TV aberta.

quinta-feira, 17 de fevereiro de 2022

TV em (ou será a) cores faz 50 anos no Brasil

Em 1972, ocorria a primeira transmissão em cores na TV aberta brasileira, no evento histórico da Festa da Uva, em Caxias do Sul Por que vemos a imagem da TV colorida e quais tecnologias evoluíram com o tempo?


Por Larissa Leão


Habituados com uma tecnologia tão moderna e presente no nosso dia a dia, para os mais jovens chega a ser curioso imaginar que há apenas 50 anos ocorria a primeira transmissão em cores da TV aberta no Brasil. Foi uma jornada até esse dia, com estudos e testes, para que a TV analógica, antes preto e branco, ganhasse cores em 19 de fevereiro de 1972, conquistando seu marco na história da comunicação e da televisão brasileira. O evento da Festa da Uva, realizado em Caxias do Sul (RS), ficou popularmente conhecido como o início de uma nova era para a TV, com uma programação sendo transmitida em cores em circuito fechado. 

Segundo Elmo Francfort, diretor do Museu da TV, Rádio e Cinema, a Festa da Uva foi o pontapé inicial, mas apenas em 31 de março de 1972 aconteceu a estreia oficial da TV em cores no Brasil.

Mas, afinal, por que e como conseguimos enxergar as cores nos televisores?

O coordenador do Módulo Técnico do Fórum do Sistema Brasileiro de TV Digital Terrestre (Fórum SBTVD), Luiz Fausto, explica que “o olho humano possui três tipos de receptores de cores diferentes que nos permitem distingui-las: um que absorve mais o vermelho, outro que absorve mais o verde e outro que absorve mais o azul. Assim, as telas coloridas combinam para cada ponto da imagem (chamado "pixel"), esses três componentes de cor (vermelho, verde e azul – ou RGB, do inglês red, green, blue)”. Além disso, Fausto ressalta que para que as telas possam exibir imagens coloridas, as câmeras também precisam ser capazes de separar esses três componentes de cor (RGB).

Evolução da tecnologia em cores

Ao longo do tempo, a tecnologia das telas e das câmeras evoluiu muito, permitindo uma maior precisão na representação das cores, como também, o uso de um espaço de cores maior.

O coordenador explica que na televisão colorida analógica (TV 1.5) o espaço de cores suportado compreendia cerca de 32% das cores visíveis. “Já na TV Digital, a resolução do vídeo melhorou muito (de 480 linhas para 1080 linhas). O espaço de cores também obteve uma melhora, compreendendo cerca de 35% das cores visíveis”, ressalta. Com o suporte opcional a HDR (High Dynamic Range) introduzido na TV 2.5, é possível um aumento do contraste suportado (de 1.000:1 para 200.000:1). Embora o espaço de cor ainda seja o mesmo, o volume de cores aumenta devido a uma faixa maior de ajuste de brilho.

A chegada da TV Digital no país apresentou novas possibilidades, com cores mais próximas da realidade, e, para quem se pergunta se terão novas tecnologias aprimorando o que conhecemos hoje, Luiz Fausto confirma que sim.

“A TV 3.0, além de suportar resoluções de vídeo maiores (incluindo 4K e 8K), vai suportar um espaço de cores ampliado (WCG, Wide Color Gamut), compreendendo cerca de 76% das cores visíveis. Combinando isso com HDR você terá um volume de cor tão grande como se a sua TV fosse uma janela para o mundo real (ou para o mundo das obras de ficção)”, explica.

Além disso, Fausto conta que aumentando o número de bits por componente de cor de 8 para 10, haverá ainda mais precisão na reprodução de cada tonalidade. Por fim, aumentando a taxa de quadros de 29,97 quadros por segundo para até 120 quadros por segundo (HFR – High Frame Rate), cenas com movimentos rápidos como esportes e filmes de ação vão ficar ainda mais nítidas.

Aos novos e mais velhos, definitivamente a maneira com que acompanhamos os conteúdos na televisão, promete ser ainda mais emocionante com as novas transformações.

sábado, 13 de março de 2021

A regionalização da produção pelas mãos do Cade

 

Programa Carrosel, na TV Brasília, marcou época na
transmissão local de conteúdos na Capital Federal

Avaliando as chamadas “condutas anticompetitivas” nos segmentos de TV aberta e por assinatura, o Cade aponta que a estruturação em redes, para efeitos de concentração, "é negativa, pois limita a variedade de conteúdo, sendo transmitida menos programação do que existiria, se cada geradora fosse diretamente responsável pelos produtos audiovisuais transmitidos".


Por Chico Sant’Anna*
Publicado originalmente no Observatório da Imprensa

 

 A Constituição Federal definiu, após mobilização da Fenaj, Fitert e Fitel, que a produção educativa, cultural e jornalística no rádio e na televisão deve ser regionalizada. O artigo 221, porém, nunca vigorou devido à falta de regulamentação. Não por falta de iniciativas. A pressão de grandes redes midiáticas e a chamada bancada da mídia nunca permitiram que isso acontecesse. Agora, estudo do Conselho Administrativo de Defesa Econômica – Cade, órgão do ministério da Justiça com poder de avaliar a existência de cartéis e monopólios na economia brasileira, pode fazer com que a regionalização venha acontecer.

Desde 1988, a concentração da produção midiática se exacerbou, chegando ao rádio. Pela lei, não existe emissora repetidora de rádio. Todas são geradoras e, como tal, obrigadas a produzir localmente seus conteúdos. O modelo da TV, contudo, migrou pro rádio. Emissoras regionais passaram a ser simples retransmissoras da produção do Centro-Sul, notadamente, do Rio de Janeiro e São Paulo.

Avaliando as chamadas “condutas anticompetitivas” nos segmentos de TV aberta e por assinatura, o Cade aponta que a estruturação em redes, para efeitos de concentração, "é negativa, pois limita a variedade de conteúdo, sendo transmitida menos programação do que existiria, se cada geradora fosse diretamente responsável pelos produtos audiovisuais transmitidos".

Para o Cade, a concorrência pela audiência das programações só ocorre entre as cabeças de rede de abrangência nacional. "Historicamente, a última entrada significativa no mercado de cabeças de rede nacionais se deu em 1999, com a entrada da Rede TV. Portanto, tal mercado não é dinâmico. O mercado é também altamente verticalizado, uma vez que para se tornar uma cabeça de rede nacional, a empresa deve atuar simultaneamente nas etapas de transmissão de conteúdo, programação e produção de conteúdo", aponta o órgão.

Embora o Cade não mencione, há o inciso II, do artigo 221, até hoje desrespeitado, que prevê a produção independente que objetive a divulgação da cultura nacional e regional.

A bandeira da regionalização, levantada na década de 80 pelos trabalhadores do setor, tinha como pano de fundo preservar as diferentes culturas regionais, dar espaço a valores locais, evitar a pasteurização da informação, e fomentar maior geração de emprego e renda.

Gerações que nasceram após o advento das transmissões via satélite não vivenciaram os telejornais locais, que tratavam de temas locais, nacionais e internacionais. Tão pouco os programas musicais e humorísticos das diversas cidades. Aqui mesmo no DF, a TV Brasília embalou gerações com programas do tipo Carrossel, Quem Sabe Viaja. Nomes como Carranquinha e Titio Darlan encantaram milhares de crianças. Hoje, não teriam espaço na grade de programação.

Na música, valores locais como Ney Matogrosso, Cassia Eller, Paralamas do Sucesso, dentre tantos outros, só conseguiram vingar depois que migraram para o Rio e São Paulo e lá obter a visibilidade midiática que só as cabeças-de-rede propiciam. Até no Jornalismo, do Planalto Central, muita gente foi buscar espaço no Rio e São Paulo. Vide os casos recentes de Poliana Abrita e Tadeu Schmidt, mas no passado teve também Amália Rocha, Mauro Naves, Ana Paula Padrão, Leilane Neubarth, dentre vários e várias outras.

Para as empresas é mais barato produzir e mais fácil gerir uma só grade de programação, difundida nacionalmente. Se reduz custos, este modelo diminui a oferta de trabalho, a diversificação cultural e informativa e fortalece uma agenda temática formulada a partir de uma única perspectiva. Com as grandes redes, o caboclo da Amazônia sabe mais das enchentes do Tietê do que as dos igarapés amazônicos.

O Cade aponta ainda como condutas anticompetitivas os contratos de direito de transmissão de eventos esportivos. "Principalmente com relação ao abuso de poder econômico, abuso de posição dominante e acordo de exclusividade". Nos anos 70, em Brasília, podia se ver o futebol do Rio, na Globo, o paulista, na Bandeirantes, e o do Rio Grande do Sul, na TV Nacional – hoje TV Brasil – já que os generais de plantão apreciavam o futebol gaúcho. Hoje, na maioria dos casos, o jogo é um só para todo o Brasil. O espectador é obrigado a torcer ou secar times que não lhe dizem nada culturalmente.

Não se sabe até onde o Cade pretende levar suas conclusões. Pautaria o governo a disciplinar a regionalização da produção de rádio e TV? O momento atual, em que o Palácio do Planalto tem se bicado com a maioria dos grandes conglomerados midiáticos, pode ser um elemento motivador para que o Executivo proponha um novo modelo.

Pensar num país com as dimensões do Brasil com um só cardápio de conteúdos midiáticos é ruim e joga contra a criatividade regional. Entretanto, mudar de supetão as regras da produção teleradiofônica, principalmente depois dos efeitos econômicos da Covid, pode ser nocivo à maioria dos meios de comunicação e levar alguns à sucumbência.

Regulamentar o artigo 221 por “canetada”, seja medida provisória ou norma do Cade, não seria de bom alvitre. O Congresso Nacional é que deveria tomar à frente a responsabilidade. Junto com a regionalização, a exemplo do que ocorre em países como a França, deveria pensar também na regulamentação da distribuição de verbas publicitárias, públicas e privadas, para que mídias locais, regionais e nacionais sobrevivam. Lá, canais nacionais de TV, por exemplo, não veiculam propaganda do varejo. Essa publicidade cabe às mídias locais, impressas, radiofônicas ou televisivas. 

Mas esse é um debate mais profundo, que fica para outro artigo.

 

 

*Chico Sant’Anna é jornalista, documentarista e pesquisador em Comunicação, com Doutorado pela Universidade de Rennes 1 – França. Durante a Constituinte, era vice-presidente Regional da Federação Nacional dos Jornalistas – Fenaj, tendo atuado diretamente nas gestões para a redação do Capítulo da Comunicação Social, na Constituição de 1988.

sexta-feira, 4 de setembro de 2020

Demanda por conteúdos LGBTQIA+ impulsiona a diversidade nas obras audiovisuais

A multiartista Alice Marcone (à esquerda) na produção Born to Fashion


"Essa situação evidencia uma desigualdade do mercado da dramaturgia, do teatro e do audiovisual. Por mais que tenhamos cada vez mais artistas trans qualificados, ainda vemos as poucas oportunidades de trabalho que essas pessoas teriam repassadas às pessoas cis por conta do transfake" - explica a multiartista, consultora e roteirista Alice Marcone, que também é trans.


Por Mariana Toledo, do TelaViva news

Aos poucos, a diversidade vem se tornando mais presente nas produções audiovisuais. E trata-se de uma demanda do próprio público: uma recente pesquisa da Parrot Analytics, empresa global de análise de conteúdo, identificou a diversidade como um assunto cada vez mais em pauta – e mostrou especialmente que a forma como ela é representada nas produções audiovisuais faz diferença. Analisando programas de maior demanda com estreias em 2020 na América Latina, mais de dois terços têm representatividade na comunidade LGBTQIA+. Além disso, produções que trazem essa temática concentram três quartos da demanda, superando em 48% os programas sem essa representatividade. A autenticidade também é importante e geralmente é um reflexo de quem está por trás da tela: quando o diretor também faz parte da comunidade LGBTQIA+, por exemplo, a demanda cresce 14%.

Nesse sentido, uma das estreias recentes que se destacou não só por trazer a diversidade à tona, mas também explorar um tema inédito e contar com representantes LGBTQIA+ na frente e atrás das câmeras, foi "Born To Fashion", do E!Entertainment. A produção original do canal é o primeiro reality show do Brasil só com candidatas transgênero, que chega para transgredir a moda brasileira e revelar o novo rosto fashion do país. O programa foi ao ar pela primeira vez em 13 de agosto e obteve resultados relevantes: a exibição do episódio de número um registrou quase quatro vezes mais audiência do que a média do canal no horário nobre.

Um dos principais nomes por trás da produção é a multiartista, consultora e roteirista Alice Marcone, que também é trans. "As pessoas trans são excluídas dos espaços tradicionais de trabalho porque enfrentam dificuldades estruturais na sociedade desde muito cedo na vida – não é um problema só do audiovisual", diz Marcone em entrevista exclusiva para TELA VIVA. "Mas falando especificamente desse mercado, acredito que devemos pautar a discussão tão bem elaborada por Renata Carvalho e a organização Monarte em relação ao Transfake (o ato de um ator cis interpretar uma personagem trans). Essa situação evidencia uma desigualdade do mercado da dramaturgia, do teatro e do audiovisual. Por mais que tenhamos cada vez mais artistas trans qualificados, ainda vemos as poucas oportunidades de trabalho que essas pessoas teriam repassadas às pessoas cis por conta do transfake", explica. "Produções que abordam diretamente a temática trans – como 'Born to Fashion' – são bons exemplos de como uma produtora pode incluir profissionais transgênero em sua equipe e produzir um programa de qualidade para todos os públicos. Mas esse é só o primeiro passo", completa. Marcone ainda reforça como é essencial que a diversidade (de gênero, sexual, étnica e racial) seja uma exigência na produção de qualquer obra – e não só naquelas que pautam diretamente essas questões. "A presença de pessoas LGBTQIA+ precisa ser normalizada no mercado de trabalho, e não limitada em função da construção apenas das narrativas que lhes concernem", pontua.

Gustavo Baldoni, produtor executivo da Delicatessen Filmes, que assina a produção de "Born To Fashion", também conversou com TELA VIVA sobre o assunto. "Nós da Delicatessen Filmes acreditamos que produções como 'Born To Fashion' são mais do que importantes, são necessárias e fundamentais, especialmente num país como o Brasil, que ostenta o primeiro lugar no ranking mundial de assassinatos de pessoas trans; a expectativa de vida de uma pessoa trans no Brasil é de apenas 30 anos, enquanto a da população média gira em torno de 75 anos. Existe um abismo, que precisa que ser enfrentado com coragem e disposição para a mudança. É fundamental reconhecermos a importância da inclusão de todes para a promoção do desenvolvimento sustentável em todo o mundo. E o entretenimento pode e deve assumir a sua responsabilidade nesse jogo", declara. Baldoni ressalta que, apesar de ter um casting composto só por mulheres trans, o reality não fala exatamente sobre a questão transgênero, e sim sobre a busca pelo sucesso na carreira de modelo e pela conquista de seu espaço – o que, claro, está intrínseco a essas mulheres, que tanto precisam batalhar para isso – mas por isso o tema aparece organicamente na série. "Nós produzimos 'Born To Fashion' para gerar reconhecimento das histórias dessas personagens, seus sonhos, suas possibilidades e potências. Não tem pretensão educacional. Para isso, há muita informação de qualidade disponível pra quem ainda não entendeu a necessidade de interromper a invisibilidade trans na nossa sociedade", esclarece.

Para além de "Born To Fashion", o canal E! traz uma preocupação social em diversas de suas produções, inclusive em sua campanha institucional, "Vozes do E!". Para Marcello Coltro, sênior VP do canal, a questão social "representa o norte da proposta de nossa marca e plataforma". O executivo diz que trata-se de ter responsabilidade com a audiência, composta em sua maioria por mulheres que lutam pela igualdade e contra o preconceito e discriminação. "O E!, por meio de uma linguagem de entretenimento e formatos acessíveis, inclui mensagens positivas que objetivam provocar essa discussão de desigualdade social, questões de aceitação e mudança de percepção da sociedade em relação a estigmas de forma física, gênero e idade", define. Entre os nomes que representam a marca, estão Fluvia Lacerda, Mayara Russi, Nahuanne Drummond e Denise Gimenez, que representam o "direito de construir uma carreira no mundo da moda mostrando que a beleza e direito de sentir-se bem consigo mesma não têm medidas"; Penelopy Jean, Ikaro Kadoshi e Rita Von Hunty, pelo "direito de transformação e a magia de assumir a alma feminina apoiando a força interior e a aceitação da Diva' que existe em cada mulher"; e Lais Ribeiro, com o "direito de lutar pelo certo, de enfrentar e vencer barreiras raciais, abrindo caminhos para futuras modelos independente de raça ou identidade de gênero", entre outras.

Série "Todxs Nós", da HBO, criada e dirigida por Vera Egito 

Outra obra recente que se destacou pelo pioneirismo dentro dessa temática foi "Todxs Nós", que estreou em março na HBO. Criada por Vera Egito, Heitor Dhalia e Daniel Ribeiro, com direção geral de Vera Egito, a comédia dramática aborda temas ligados ao universo LGBTQIA+ como compreensão, inclusão, aceitação e uso da linguagem neutra. Na trama, a atriz Clara Gallo vive Rafa, jovem de 18 anos, pansexual e não-binárie que decide deixar a família no interior de São Paulo e mudar-se para a casa de seu primo, Vini (Kelner Macêdo), na capital. Vini, que já divide o espaço com Maia (Julianna Gerais), fica surpreso ao descobrir que Rafa se identifica com o pronome neutro e não com o gênero feminino ou masculino. Já na chegada, explica, por exemplo, que é prime – e não prima – de Vini.

Os roteiros da série contam com a colaboração de Thays Berbe e Alice Marcone – que também está na equipe de "Born to Fashion", do E!. Em entrevista para TELA VIVA, Vera Egito reconhece que o audiovisual ainda é pouco aberto à diversidade: "São pouquíssimos projetos de ficção nos streamings e nas TVs abertas com protagonismo LGBTQIA+. Há uma resistência histórica sobre essas existências na mídia e muita transfobia e muita homofobia na nossa sociedade. Mas sinto que estamos mudando. O fato de uma plataforma do tamanho e da importância da HBO produzir uma série como 'Todxs Nós' é prova disso". Egito destaca que a série traz o debate sobre o uso da linguagem inclusiva e que é urgente que comecemos a repensar nossos conceitos de masculino e feminino, uma vez que essa norma "nos aprisiona e gera violência e exclusão". Mas a produção é uma comédia dramática e, por isso, esse tema – e vários outros – estão na trama de maneira leve, irônica e divertida. "Acho essa uma característica essencial do projeto. A série dá visibilidade para muitas questões mas, antes de mais nada, apresenta personagens para que você se conecte, se entretenha, ame ou odeie. Há momentos de militância, momentos de deboche, momentos de emoção. E aí, envolvendo-se com essas histórias, muito do preconceito e da intolerância são vencidos. Porque a pessoa não-binária, a travesti e o gay deixam de ser 'o outro' para serem pessoas próximas, humanas. Pessoas com quem você se importa. E esse é o maior poder da dramaturgia na minha opinião: trazer mundos que parecem distantes para bem perto", declara. A diretora ainda adianta que já está com outras produções engatilhadas – seu próximo longa se passa em 1968 e tem inclusive, como protagonista, uma jovem lésbica.

Como vice-presidente corporativo de produções originais da HBO Latin America, Roberto Rios reitera a importância de canais de TV abrirem esses espaços: "A identidade de gênero e a sexualidade são elementos humanos universais muito importantes e que devem ser retratados de forma genuína nas mais diversas obras. Ao dar visibilidade a personagens da comunidade LGBTQIA+ em nossas produções, apresentamos essas questões para todo o público, inclusive para pessoas que não têm familiaridade com esse universo". Falando especificamente sobre "Todxs Nós", Rios diz que a série tem todos os atributos que marcam as produções da HBO: é autêntica, genuína e original. E tem a personagem Rafa, que é não-binárie: "Isso implicou uma série de novidades para nós, desde a maneira como trataríamos a questão do gênero não-binário até o uso da linguagem inclusiva. Além de Rafa, a série tem outros personagens bem estruturados que fazem parte da comunidade LGBTQIA+, o que nos deu a possibilidade de desenvolver bem, com uma sala de roteiro também diversa. Temos a consciência de que fizemos algo inovador e ficamos orgulhosos por isso mas, mais ainda, por poder dar voz a pessoas reais, que vivem neste mundo e não são sempre reconhecidas na produção audiovisual". O VP lembrou ainda que, com o apoio da consultoria especializada em diversidade Diversity Bbox, a HBO lançou o "Guia Todxs Nós de Linguagem Inclusiva", inspirado na linguagem da série. O objetivo do material é apresentar este assunto para mais pessoas e comunicadores em geral, além de promover uma reflexão sobre a comunicação como forma ativa de dar visibilidade a pessoas transgênero binárias ou não-binárias.

Cena de "Toda Forma de Amor", do Canal Brasil

O Canal Brasil, por sua vez, também se apresenta como uma marca constantemente preocupada em exibir produções diversas – o conteúdo LGBTQIA+ é uma abordagem frequente em sua programação. "Abrir espaço para essa temática, além de tantas outras, que por muito tempo praticamente não apareciam na TV brasileira, é um dos papéis fundamentais do Canal Brasil. Está em nosso DNA", garante André Saddy, diretor geral do canal. No último ano, por exemplo, a emissora exibiu a série "Toda Forma de Amor", com texto de Marcelo Pedreira e direção de Bruno Barreto, que conquistou bons resultados em termos de repercussão e audiência, com 38% acima da média do horário nobre do canal.

Em 2020, outras produções nesse sentido também ganharam espaço na grade: é o caso de "Favela Gay – Periferias LGBTQI+" e "Transgente", além do "Especial Orgulho LGBTQIA+", programação exibida em junho em comemoração ao Dia Internacional do Orgulho LGBTQI" (28 de junho) – neste ano, o Canal Brasil reforçou a importância do tema e trouxe filmes e séries sobre o assunto ao longo de todo o mês. A exibição principal dos filmes apresentou resultado 19% acima da média do canal no horário nobre e foi o segundo conteúdo com maior número de horas consumidas no Simulcast do Canal Brasil Play. Já o drama LGBT "Tatuagem", de Hilton Lacerda, é o filme mais visto no Canal Brasil Play. Outro conteúdo de sucesso ainda dentro da temática é "Transmissão", que estreou em 2019 e teve uma segunda temporada lançada em junho de 2020. Na atração, Linn da Quebrada e Jup do Bairro expõem suas rotinas e mostram como suas posturas nos palcos visam desconstruir estereótipos de gênero, raça e classe. O podcast do programa é o mais assistido do Canal Brasil. E para além da TV, o canal ainda assina diversas coproduções de filmes LGBTQIA+ que conquistaram diversos prêmios em festivais nacionais e internacionais, como "Bixa Travesty". "Para o Canal Brasil, produzir, incentivar, exibir e divulgar este conteúdo é uma questão urgente depois de tantos anos de exclusão e invisibilidade. Seguiremos apostando de forma exagerada neste caminho com a expectativa de cada vez mais ajudar a reequilibrar e incluir", afirma André Saddy.

Thereza (Mel Lisboa) na série "Coisa Mais Linda"

Além da TV fechada, produções LGBTQIA+ também conquistam seu espaço no streaming. Uma das mais bem-sucedidas produções originais nacionais da Netflix, "Coisa Mais Linda", da Prodigo Films, acerta ao trazer um casal lésbico para dentro de uma trama de época – infelizmente, ainda há quem acredite que a homossexualidade não existia no passado. Para Beto Gauss e Francesco Civita, sócios e produtores da série, é de extrema importância trazer essas questões e a realidade, independente da época: "Muitas vezes, é bom olhar para trás para compreender que as características e qualidades do ser humano atravessam o tempo. A sexualidade é pessoal e natural e não deveria ser julgada ou discriminada. Temos que lutar contra o preconceito de ontem e de hoje. É absolutamente normal para uma personagem como a Thereza ter uma relação com outra mulher. Ela é amada pela audiência por ser uma mulher livre, forte e amorosa. Thereza sente e vai; não interessa o julgamento dos demais. O importante pra ela é ser fiel a si mesma.".

Para a dupla, está cada vez mais comum tratar essa pluralidade com naturalidade, com canais de TV a cabo e plataformas de streaming dando mais liberdade no desenvolvimento dessas criações. "Os canais abertos também estão colocando em pauta essas questões – o que é vital, seja nas novelas e séries e até mesmo em programas de grade", observam os produtores. "Na Prodigo, celebramos a qualidade dos profissionais, independente de gênero e sexualidade. Mas é importante ficarmos atentos para inibirmos qualquer preconceito e criarmos as oportunidades, dentro e fora das produções, para que isso se torne cada vez mais equilibrado no nosso meio", concluem.

Recém-lançada no mercado, a plataforma de streaming 100% nacional InnSaei.TV anunciou há pouco tempo a série inédita "Três Quartos", do diretor Airo Munhoz. A mistura de sitcom e drama LGBT acompanha a história de três jovens que compartilham a vida e seus percalços e já está disponível gratuitamente na plataforma, que pode ser baixada na App Store ou Google Play para iOS e Android e acessada também em Smart TVs, tablets e computadores. A produção é da Substrato Filmes com distribuição da Lira Filmes e o elenco conta com Rodrigo Barros, João Mesquita e Caroline Varani. Para TELA VIVA, o diretor Airo Munhoz conta: "A série traz a diversidade sexual no cerne da questão, principalmente colocando um personagem tradicionalmente machista fazendo piadas e sendo confrontado dentro da própria casa. Isso é abordado de forma natural e leve, mas está presente em toda a obra. É necessário discutirmos a questão do machismo e da LGBTfobia, e fazemos isso trazendo personagens masculinos trabalhando conflitos, aprendendo a se relacionar, sair da zona de conforto. É necessário repensar a masculinidade e essa é a discussão dessa temporada". A ideia, segundo o ele, é vez ou outra trazer o assunto de fora quase didática, para pessoas que não têm contato com esse tipo de discussão – e normalmente buscam evitá-la – possam refletir.

Munhoz ainda aponta que a comunidade LGBT sempre esteve na TV, mas de forma caricata e problemática. "Com a democratização do debate trazido pela internet, as chamadas 'minorias' ganharam mais espaço e vêm conquistando aos poucos um lugar na grande mídia de forma realmente substancial, principalmente pensando no 'G' da sigla, ajudando a mostrar que somos seres humanos e temos, sim, problemas além da discussão de identidade ou orientação sexual. Estamos aos poucos saindo da lupa de análise laboratorial nas obras audiovisuais e andando nas ruas, sendo personagens complexas e com vários conflitos", observa.

Bia Ambrogi, sócia e fundadora da InnSaei.TV, afirma que a plataforma foi idealizada para ser um espaço de diversidade e representatividade. "A necessidade de ter uma janela de distribuição de qualidade de streaming vale para todo o mercado audiovisual brasileiro independente, porém, quando pensamos no conteúdo LGBT+ e cultura black, vemos que mais ainda precisam de telas que os representem", diz. Para ela, "Três Quartos" é uma série com formato leve e descontraído, com produção simples e despojada, que gera identificação do público jovem. "Queremos trazer mais obras como estas, conteúdos bem elaborados que dialoguem com o público atual e que estão aguardando uma janela que os receba e os valorize", adianta. A plataforma conta com lançamentos todas às quintas-feiras.

Apesar do número de produções audiovisuais com representatividade LGBTQIA+ em suas tramas, elencos e equipes estar crescendo, como ilustram os casos acima, ainda há um longo caminho a ser percorrido. Alice Marcone reflete: "A ausência histórica desse tipo de representatividade deixou um espaço aberto para novas narrativas e perspectivas. Acho muito importante pautar que essa demanda por novas representações e narrativas vem também como consequência desse movimento – ainda incipiente, mas real – de uma maior inserção das pessoas LGBTQIA+ no mercado. Quando essas pessoas trabalham, elas se transformam em público consumidor, com suas próprias exigências, e isso também gera mudanças nas demandas das produções audiovisuais. Por mais que tenhamos resistências, retrocessos e uma corrente reacionária bem forte no país, essa transformação nas demandas do consumidor é uma verdade cada vez mais geral do brasileiro. Essa mudança não só precisa acontecer, como está acontecendo e não será refreada".

 

terça-feira, 15 de janeiro de 2019

CNN-Brasil vem ai pra brigar com Globo News


A iniciativa é vista como uma estratégia de enfrentamento às Organizações Globo, em especial à Globo News, e teria as bênçãos do presidente Jair Bolsonaro. No meio publicitário, especula-se que serão volumosas as verbas publicitárias federais para manter o projeto em pleno funcionamento.



Por Chico Sant'Anna, com base em publicações do Infomoney, Blog Edgar Lisboa/Meio & Mensagem

  
A construtora MRV decidiu entrar no ramo das Comunicações. O presidente e fundador do grupo imobiliário mineiro, Rubens Menin, anunciou o lançamento da CNN Brasil, um canal 24 horas de notícias em português. A iniciativa é vista como uma estratégia de enfrentamento às Organizações Globo, em especial à Globo News, e teria as bênçãos do presidente Jair Bolsonaro. No meio publicitário, especula-se que serão volumosas as verbas publicitárias federais para manter o projeto em pleno funcionamento.
O canal brasileiro CNN, que vai operar como franquia e não estará sujeito à linha editorial da CNN Internacional, será liderado por Douglas Tavolaro, ex-vice-presidente de Jornalismo da TV Record, emissora que tem se mostrado, ao lado do SBT, bastante alinhada com o novo governo. O novo canal de notícias será distribuído na TV paga e via multiplataforma e é fruto de licenciamento da CNN International.
A redação principal, cabeça de rede como é chamado no jargão televisivo, será em São Paulo. A nova estrutura planeja contar com 400 jornalistas e 400 profissionais de outras áreas, distribuídos por Brasília, Rio de Janeiro e São Paulo. O canal deve estar disponível para os assinantes a partir do segundo semestre de 2019.
Franquia
Essa não é a primeira vez que a CNN tenta criar um canal no Brasil. Isso foi tentado antes, no ano 2000, mas não prosperou. Também a CBS já experimentou um projeto de produzir conteúdos em português especialmente para o Brasil. Em 1997, o CBS Telenoticias  foi lançado pela rede americana de televisão com transmissões a partir da Florida. O CBS Telenoticias tinha um telejornal homônimo CBS Telenotícias, veiculado pelo SBT e ancorado pelo casal Eliakim Araújo e a jornalista Leila Cordeiro. O projeto durou três anos.
A CNN já opera no Brasil com dois canais, o Internacional, com conteúdos em inglês, e o Espanhol, voltado à América Latina. Agora a iniciativa acontece não diretamente pela emissora dos EUA, mas sim, por meio de um acordo de licenciamento de marca, semelhante a esses que cadeias de lanchonetes realizam.
O acordo com a CNN International Commercial (CNNIC), permite o uso de conteúdo internacional produzido pela CNN. O novo licenciamento não tem a ver com as operações da CNN International e CNN em Español, que continuarão disponíveis no Brasil.
A notícia da nova operação da CNN foi divulgada à imprensa dia 14/1, poucos minutos depois de a Record anunciar a saída de Tavolaro do grupo, que será substituído na vice-presidência de jornalismo por Antonio Guerreiro.
A estrutura do canal, bem como a contratação de equipes de jornalismo e produção e a construção da identidade da marca serão realizadas nos próximos meses. A CNN Brasil terá abrangência em todo o território nacional e contará com agências de notícias em São Paulo, Rio de Janeiro, Brasília e correspondentes no exterior.
No novo negócio, Douglas Tavolaro ocupará a posição de CEO da CNN Brasil, enquanto Rubens Menin será presidente de administração do conselho de administração da CNN Brasil.

sábado, 6 de janeiro de 2018

Radiodifusão: Suspeita de irregularidades causa demissão no Ministério

Secretária de Radiodifusão, do antigo Ministério das Comunicações, hoje MCTIC, deixa o cargo após de ser acusada de favorecer empresas e fundações na concessão de repetidoras de canais de rádio e TV


Da redação do semanário Brasília Capital

Depois de questionamentos feitos por empresas de comunicação de São Paulo sobre a violação de exigências técnicas e jurídicas em dezenas de concessões de canais de rádio TV, a secretária de Serviços de Radiodifusão do Ministério de Ciências, Tecnologia, Inovações e Comunicações (MCTIC), Vanda Jugurtha Bonna Nogueira, foi exonerada do cargo no dia 2 de janeiro. Mas o ato publicado no Diário Oficial da União diz que a demissão foi “a pedido”.
O MCTIC respondeu, em nota enviada ao Brasília Capital, na quinta-feira (4), que o desligamento de Vanda deve-se apenas “a questões particulares e de trajetória profissional”. E elogiou o trabalho da ex-secretária. “Vanda exerceu com competência e lisura as tarefas à frente da Secretaria, como ações em favor da migração das emissoras de rádio de AM a FM, a desburocratização do setor e a progressiva implementação do sinal digital de televisão no país, entre diversas outras ações que contribuíram com o setor de radiodifusão e sua função social no Brasil”.
No dia 21 de dezembro, o portal Brasília Capital noticiou a situação da agora ex-secretária.  As irregularidades atribuídas a Vanda Jugurtha entre 2016 e 2017 foram apresentadas às comissões de Ciência, Tecnologia, Inovação, Comunicação e Informática (CCT) do Senado Federal, e de Ciência e Tecnologia, Comunicação e Informática (CCTCI) da Câmara dos Deputados.
De acordo com a denúncia protocolada nos três órgãos, as Autorizações de RTV assinadas pela secretária de Serviços de Radiodifusão violam exigências técnicas e jurídicas. De acordo com a denúncia, um grupo específico de empresas e fundações estaria sendo beneficiado. Entre elas, são citadas as entidades Fundação Educacional Comendador Avelar Pereira de Alencar, Fundação Guilherme Muller, Fundação de Fátima e Fundação Padre Luiz Bartholomeu, além das empresas Miller Propaganda e Marketing Ltda  e Emmanuel Telecomunicações Ltda-EPP.
Antes de assumir o cargo no MCTIC, Vanda Jugurtha advogou para vários grupos de comunicação no País. Notícia publicada pela Folha de S. Paulo em 2016 dá conta de que entre esses veículos estão afiliadas da Rede Globo, como a TV Diário, de Mogi das Cruzes (SP). Na Secretaria, Vanda Jugurtha tinha a competência de supervisionar a “regulamentação da outorga para exploração dos diversos serviços de radiodifusão” e “acompanhar a exploração dos serviços”.

Procurado pelo Brasília Capital, em dezembro o MCTIC respondeu que “recebeu as notificações” e esclareceu que “todos os assuntos pertinentes às denúncias serão auditados”. A secretária Vanda Jugurtha não atendeu o jornal nas várias tentativas de contato. A reportagem também não conseguiu contato com as entidades citadas na denúncia. O MCTIC não respondeu, quinta-feira (4), se os atos irregulares atribuídos a Vanda Jugurtha serão anulados após seu afastamento da função.

segunda-feira, 1 de janeiro de 2018

Inscrições abertas para curso técnico de Produção de Áudio e Vídeo

Estão abertas, até o dia 17 de janeiro, as inscrições via internet para o curso técnico de Produção de Áudio e Vídeo, a ser ministrado pelo Instituto Federal de Brasília, campus do Recanto das Emas.
São 240 vagas, sendo 160 integradas ao Ensino Médio e para quem já concluiu o Ensino Médio, estão sendo oferecidas 80 vagas.
Os cursos são totalmente presenciais e as aulas serão realizadas no Recanto das Emas (antigo IFB/Campus Taguatinga Centro), com início previsto para fevereiro de 2018. 
Para fazer a inscrição, clique aqui

Editais

É importante que os candidatos leiam o edital da seleção que tenha interesse, pois este é o documento oficial onde estão todas as informações a respeito do processo seletivo.
O Campus do Recanto das Emas fica na Avenida Monjolo, Chácara 22, Núcleo Rural Monjolo, próximo à quadra 300.

quinta-feira, 6 de julho de 2017

PressTV, TV iraniana em inglês, completa 10 anos de existência

Por Samaneh Kachui,da HispanTV


A rede de notícias iraniana, PressTV, que transmite via satélite para todo o mundo com programação em inglês, completa dez anos de existência. Embora o sinal seja gratuito, no Brasil, operadoras de TV Paga não oferecem o conteúdo aos seus assinantes. O canal segue o estilo "all news": informações  24 horas por dia.

Los medios de comunicación de la República Islámica de Irán transmiten la voz de los oprimidos. Con estas palabras del presidente de la Organización de la Radio y Televisión de Irán (IRIB, en inglés), Abdolali Ali Asgari, se ha celebrado el décimo aniversario del lanzamiento de la cadena de noticias PressTV.
A partir de la victoria de la Revolución Islámica de Irán en 1979 se lanzaron varias emisoras y canales televisivos con el fin de transmitir su mensaje; la lucha contra la opresión y por la justicia. Un esfuerzo para contrarrestar los intentos de los medios occidentales de difundir la iranofobia y la influencia cultural negativa en el país.
Lanzado en 2007, PressTV se ha convertido en un medio alternativo bajo el lema: “la noticia desde una nueva visión”. Hoy, tiene 50 corresponsales en diversas partes del mundo, y varios han caído mártires mientras cumplan su misión de ser “la voz de los sin voces del mundo”.

Leia também:


La cobertura de las noticias de la resistencia contra los ocupadores extranjeros en Oriente Medio, la revelación de las políticas dualistas de Gobiernos occidentales en apoyo a regímenes despóticos de la región, entre otros, han generado obstáculos para PressTV, no obstante, la audiencia de este estratégico canal iraní sigue aumentando.
Actualmente, en el servicio exterior de la IRIB, más de 40 emisoras y canales en casi todas las lenguas vivas están haciendo llegar al mundo la voz de la verdad, mostrando una cara de los eventos que mayormente es omitida por otros medios de comunicación internacionales.
Veja aqui o informe da HispanTV, outro canal público iraniano, este em espanhol.


domingo, 30 de outubro de 2016

TV russa alcança 4 bilhões de acessos no Youtube e supera canais como BBC e CNN

Os vídeos da cadeia russa de televisão RT tem duas vezes mais visitas do que os da norte-americana CNN, quase três vezes mais do que a Euronews e mais de sete vezes os dos canais de notícia da britânica BBC.

El número total de visitas de videos en el canal de YouTube de la cadena RT ha superado los 4.000 millones. De acuerdo con estos indicadores, RT retiene el liderazgo incondicional entre los canales de noticias internacionales, incluyendo a la CNN y la BBC.
Así RT es dos veces más visto que la CNN, casi tres veces más que Euronews y más de siete veces que los canales de noticias de la BBC.

O canal pode ser sintonizado no Brasil em sinal digital aberto através de antenas parabólicas apontadas para o satélite Intelsat 21 e/ou SES 6
"El futuro de los medios está ligado a Internet. Si llegas tarde a esta zona, no se pondrá al día. Desde el principio nos hemos centrado en el campo de las plataformas digitales, y es esta la clave de nuestro éxito", dijo la editora en jefe de RT Margarita Simonián.
En el 2007, RT fue uno de los primeros canales de televisión rusos en comenzar a publicar su material en YouTube. En el 2011, los videos de RT han sido reconocidos como los videos de noticias más vistos de YouTube. Al año siguiente, el centro de investigación estadounidense The Pew ResearchCenter admitió que RT es el principal proveedor de contenido de noticias en YouTube. En el 2013 se convirtió en el primer canal de noticias en el mundo en alcanzar el nivel de 1.000 millones de visitas en YouTube.
En septiembre del 2016 RT ganó siete premios digitales europeos LovieAwards. Y en abril ganó el 'Oscar de Internet' en la votación internacional de espectadores Webby Awards, superando a la BBC, ABC, NBC y 'The New York Times'.
Para comemorar o feito, a cadeia de TV russa fez um clip especial.
Confira abaixo

domingo, 17 de julho de 2016

Ratinho é condenado por trabalho análogo à escravidão em fazenda

Publicado originalmente no Diário de Pernambuco

O apresentador Carlos Alberto Massa, o Ratinho, do SBT, foi condenado pelo Tribunal Superior do Trabalho (TST) a pagar uma multa de R$ 200 mil por manter trabalhadores em condição semelhante à escravidão em uma fazenda localizada em Limeira do Oeste, em Minas Gerais. A indenização por danos morais coletivos se deve, segundo a decisão judicial, à falta de fornecimento de material de proteção adequado ao ofício exercido pelos empregados e de espaço propício às refeições. Os contratados se alimentavam nos banheiros e nas lavouras, de acordo com o tribunal.
O comunicador também é acusado de aliciar, sem respeito às normas legais, pessoas da Bahia e do Maranhão. Em nota enviada pela assessoria e reproduzida pelo site G1, Ratinho disse não ser mais proprietário da fazenda desde 2010, admitiu ser réu na ação e frisou o fato de ter sido “excluído da condenação em segunda instância”. Ele teria sido isentado da condenação por trabalho análogo à escravidão e enquadrado por descumprir a concessão de tempo intrajornada na íntegra e o não fornecimento de equipamentos de proteção individual.

Ratinho já foi condenado, anteriormente, a pagar multa de R$ 1 milhão por danos morais em ação pública movida pelo Ministério Público do Trabalho de Uberlândia. “Não restam dúvidas da conduta praticada pelo empregador, causando prejuízo a certo grupo de trabalhadores”, registrou a ministra relatora do TST, Dora Maria da Costa. Carlos Massa é fornecedor de cana de açúcar na região.