Instituição focada no pequeno empreendedor lança prêmio jornalístico sem categoria específica para a mídia alternativa. Rádios e TVs comunitárias, jornais de bairros, sites e blogs são obrigados a concorrer, de igual para igual, com os jornalões, as redes nacionais de TV e Rádio e poderosos sites informativos empresariais.
Por Chico Sant’Anna[i]. Publicado simultaneamente no Observatório da Imprensa
O Serviço Brasileiro de Apoio às Micro
e Pequenas Empresas (Sebrae) é uma instituição de 54 anos de existência. Criada
em 1972, como um Centro vinculado ao então Banco Nacional de Desenvolvimento
Econômico (BNDE) - ainda não tinha o S de social – a instituição nasceu para
fomentar e assessorar os pequenos e médios empresários. Com o propósito de atender 35
milhões de iniciativas de menor porte em
todo o país, o Sebrae afirma ter por missão, segundo seu portal institucional,
a promoção da competitividade e o desenvolvimento sustentável de micro e
pequenas empresas, estimulando o empreendedorismo. Trata-se de uma instituição
cuja marca é bem captada e avaliada pela opinião pública. Ao longo da história,
o Sebrae sempre soube construir um conceito sobre a importância de se promover
os pequenos negócios, se valendo fortemente dos veículos de comunicação, em
especial da grande imprensa. No jargão jornalístico, sempre soube plantar a
pauta.
A
presença midiática do Sebrae foi potencializada, a partir de 2001, com a criação
da Agência Sebrae de Notícias (ASN), concebida pelos jornalistas Ari Cipola e
Abnor Gondim. Egressos da Folha de S. Paulo, os dois profissionais tinham a
missão de materializar o slogan “Os pequenos negócios em pauta”.
Este
ano, pela 13ª consecutiva, é promovido o Prêmio Sebrae de Jornalismo. A
iniciativa, que em 2026 chega à 13ª edição, “está posicionada como uma vitrine
fundamental para produções jornalísticas que dão visibilidade aos pequenos
negócios em todo o Brasil” – comenta release do Sebrae.
Em todo
o país, alcançou 3.759 inscrições. A participação dos profissionais abrange as
categorias de Texto, Áudio, Vídeo e Fotojornalismo, não há diferenciação por
tamanho do meio informativo. Apenas para o Jornalismo Universitário existe uma
categoria diferenciada. Paradoxalmente, o certame jornalístico do Sebrae,
que tem por objetivo promover os nano, micro e pequenos negócios, não possui
nenhuma categoria voltada à imprensa alternativa. Será que não existe interesse
em promover a “competitividade e o desenvolvimento sustentável de micro e
pequenas empresas” jornalísticas e midiáticas, de “estimular o
empreendedorismo” delas?
Em um
cenário em que a chamada grande mídia impressa vem reduzindo sucessivamente a
tiragem de seus títulos; que grandes veículos como Jornal do Brasil, Gazeta
Mercantil, Editora Abril, Revista Isto É, dentre outros, desapareceram ou foram
reduzidos apenas a versões digitais; que emissoras tradicionais
de rádios, como a Eldorado, já não operam mais ou não produzem jornalismo;
estimular o nascedouro de uma nova imprensa, ou consolidar e fazer crescer os
pequenos veículos, seria um bom propósito para o Sebrae, por meio do seu Prêmio
de Jornalismo.
Mas a foto é outra. Rádios e TVs comunitárias,
jornais de bairro, sites, blogs, todos estes tipos de meios de comunicação
alternativos se desejarem concorrer no prêmio Sebrae, terão que fazê-lo de
igual para igual com a chamada mainstream media, ou seja, os grandes
jornalões, as redes nacionais de rádio e televisão, os grandes portais. Não é necessário
gastar argumentos para demonstrar que é uma concorrência desleal. Haja visto os
recursos tecnológicos e humanos que cada tipo de mídia dispõe.
O paradoxal aqui é termos uma instituição, que tem
por meta fortalecer os nanos, micro e pequenos empreendimentos, ignorar a
pequena imprensa existente neste país. Só o universo de rádios comunitárias
legalizadas pelo Ministério das Comunicações ultrapassa a casa de quatro mil. O
que leva o Sebrae a desconsiderar a existência desta imprensa alternativa? O que
ela noticia não teria peso ou valor cognitivo suficiente para os anseios do
Prêmio Sebrae? A penetração de seus conteúdos não chega ao público alvo
pretendido pelo Sebrae?
Organizações internacionais possuem uma abordagem
diferenciada e inteligente junto à mídia alternativa. São cientes de que em
determinadas localidades, em determinados públicos, o que chega aos cidadãos
são os informes do que o norte-americano Dan Gillmor cunhou de grassroots
media[ii]. Se valendo do conceito, que em
português se refere às origens de algum fenômeno, poderíamos traduzir por
um jornalismo raiz, Gillmor faz referência a um “jornalismo
cidadão:” O autor inglês Cris Atton[iii] (2002: 143), divide os veículos
alternativos em dois grupos: a advocacy media, que atua em defesa de
causas sociais, e os grassroots media, que provocariam uma revolução
maior no que tange a introdução de novos valores de noticiabilidade, “news
values”.
Instituições internacionais, como a Unicef, a
Unaids e a Organização Mundial de Saúde, atuam permanentemente junto a essas
emissoras, buscando parceria, fomentando-as, por meio do fornecimento de
conteúdo, treinamentos. Em alguns casos especiais, estas instituições repassam
apoio material para a compra de equipamentos e manutenção de gráficas,
emissoras, equipamentos de informática. Estão cientes de que a imprensa
alternativa é um importante instrumento de transmissão de uma contrainformação
ou de uma contracultura na busca de mudanças de valores sociais.
Como já tivemos a oportunidade de afirmar, a
imprensa alternativa, sob as diversas rotulações que comporta – o public
journalism, contra-imprensa, imprensa nanica, radical, anarquista,
associativa, comunitária, operária, etc. – bem como sob diversos propósitos
editoriais, enquanto elemento de accountability, transparência, advocacy,
lobbying, relações públicas, assessoria de imprensa, construção da
cidadania, dentre outras (Sant’Anna, 2009: 66)[iv] -, é um fato concreto na esfera pública
midiatizada, ou seja, no espaço social e virtual onde os debates políticos,
culturais e sociais ocorrem por meio dos meios de comunicação. Não há como
negar sua existência. Há três anos temos provocado dirigentes do Sebrae sobre a
não previsão de categoria especifica para pequenos veículos em seus prêmios
jornalísticos. Nunca obtivemos uma resposta.
É notório que a promoção de concursos jornalísticos
representa a adoção de uma estratégia para sensibilizar profissionais de
imprensa, em especial os gatekepers – aqueles que definem as pautas e-ou
o aproveitamento editorial nos veículos - para que foquem em determinado
assunto -, bem como interferir nos critérios de definição da agenda midiática.
Na década de 1990, a Unicef foi bastante feliz em promover por anos seguidos
prêmios focados na proteção da infância. Coincidência ou consequência, o tema
da infância é hoje uma constante no noticiário nacional. A Aids também foi alvo
durante muitos anos de concursos jornalísticos semelhantes, em especial,
voltados para fomentar o combate à discriminação.
A realização de prêmios jornalísticos, se de um
lado ajuda a promover a instituição ou determinado tema, de outro aporta
credibilidade e reconhecimento externo. Aos inscrever-se em um concurso voltado
à imprensa, o profissional ou o veículo procura obter a chancela corporativa e
dos demais atores sociais quanto à qualidade de seu noticiário. A conquista de
prêmios aporta credibilidade ao produto informativo, credencia o veículo na
esfera pública. E para o jornalista contribui para o reconhecimento
profissional. (SANT’ANNA: 269). É tudo que um veículo de pequeno porte
necessita para crescer. Este credenciamento ajuda a abrir portas junto às
fontes, junto aos gestores de verbas publicitárias, ou seja ajuda a crescer e
consolidar-se como empresa ou instituição jornalística.
Voltamos, então à pergunta: por que o Sebrae não
foca seus prêmios nesse perfil de veículo de comunicação? Inclusive como
instrumento de fomento e fortalecimento deste segmento empresarial. Será uma
preferência em conceder premiações a profissionais que já conquistaram o
estrelato da carreira? Será que a ele só interessa o que é publicado nos
jornalões e grandes redes de TV, rádio e portais de internet? O micro e pequeno
comunicador não lhe interessa?
Para a próxima edição do Prêmio Sebrae, a sugestão
é que a instituição crie categorias específicas para nanos, micro e
pequenos comunicadores, de acordo com a faixa de faturamento, e para mídias
alternativas, como rádios, TVs e rádios comunitárias e de favelas. Desde já, se
faz necessário um levantamento que identifique quantas empresas existem neste
universo, classificando-as por níveis de faturamento anual, audiência,
território geográfico de penetração.
__________________
[i]
Jornalista Profissional, pesquisador acadêmico, Mestre em Comunicação pela
Universidade de Brasília e Doutor em Ciência da Informação e Comunicação, pela
Universidade de Rennes 1 – França.
[ii]
GILLMOR, D. (2006). We the Media:
Grassroots Journalism by the People, Sebastopol, EUA, O'Reilly Media.
[iii] ATTON,
C. (2002). Alternative media, London,
Sage
[iv]
SANT’ANNA, F (2009) Mídia das Fontes: um
novo ator no cenário jornalístico brasileiro - Um Olhar Sobre A Ação Midiática
Do Senado Federal. Brasília, Edições Técnicas do Senado.













