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sexta-feira, 28 de agosto de 2026

Diploma: Supremo mea culpa?


Informação precisa ter referencial de procedência e padrão de qualidade

 

Por Chico Sant’Anna* Publicado simultaneamente no Observatório da Imprensa

 

Há 17 anos, o Supremo Tribunal Federal decidiu que a exigência de formação acadêmica para o exercício da profissão de jornalista era inconstitucional. Suas excelências, por maioria de votos, entenderam que o pré-requisito cerceava a liberdade de expressão prevista na Constituição de 1988. Embora a mesma Carta Magna, em seu artigo 5º, inciso XIII, estabelesse que "é livre o exercício de qualquer trabalho, ofício ou profissão, atendidas as qualificações profissionais que a lei estabelecer." (grifo nosso).

Ressalte-se que a regulamentação profissional de jornalistas não proibia, e até hoje não proíbe, a divulgação de textos produzidos por não jornalistas. Pelo contrário, ela prevê esta possibilidade, inclusive com remuneração, sob a denominação de colaborador. Personalidades como Delfim Neto, Jarbas Passarinho, Maílson da Nóbrega, mesmo antes da decisão do STF, já eram habitués das páginas jornalísticas. O que a legislação profissional tornava privativo de jornalistas com a devida qualificação acadêmica era a ação de coletar, tratar e difundir informações. Ou seja, realizar reportagens, entrevistas, redigi-las, editá-las e prepará-las para que fossem absorvidas pela opinião pública. Estas atividades exigem uma técnica e um padrão ético a serem considerados.

A partir das décadas de 1960 e 1970, as Faculdades de Comunicação Social no Brasil ganharam importância num momento político internacional bastante peculiar. No auge da guerra fria e dos conflitos Norte-Sul, a transmissão de informação e de conhecimento era concebida como ferramenta fundamental para reduzir as desigualdades e fomentar o desenvolvimento dos povos. Um princípio que a Unesco cunhou como Comunicação para o Desenvolvimento. Este conceito ajudou a consolidar a noção de que a difusão de informação era detentora de função social. “Assim, além de propor um conhecimento técnico, o ensino almejava demonstrar às novas gerações profissionais a capacidade da comunicação alargar os horizontes sociais, de chegar aos grupos marginalizados da informação, e por isso dotar ao jovem jornalista uma consciência profissional, digamos engajada na ação de redução das desigualdades”[1]

A iniciativa de derrubar judicialmente a exigência de formação acadêmica para o exercício do Jornalismo teve o apoio da Associação Nacional de Jornais e de veículos de expressão, como a Folha de São Paulo, além da Sociedade Interamericana de Prensa (SIP). As décadas de 1980 e 1990 foram um período em que a organização sindical dos jornalistas cresceu, sindicatos passaram a ter um papel mais efetivo, inclusive na fiscalização trabalhista. Uma demonstração desta organização corporativa foi a forte a greve nacional de jornalistas de 1986. “Ela contestava a política econômica denominada Plano Cruzado II, que confiscava cerca de 25% dos salários dos trabalhadores, bem como a proibição imposta aos jornalistas por vários meios de comunicação de criticar o Plano”.[2] O debate sobre o papel dos meios de comunicação se acentuou a ponto de, na Constituinte, uma emenda popular ter alcançado as assinaturas necessárias para propor um capitulo que regulamentasse a Comunicação no país. Desta emenda, capitaneada pela Federação Nacional dos Jornalistas – Fenaj, se sobressaiu a implantação do Conselho Nacional de Comunicação e a obrigatoriedade da regionalização da produção artística, cultura e jornalística, até hoje não respeitada pelos veículos de comunicação.

Desta forma, para o movimento sindical dos jornalistas, a iniciativa de extirpar parte do decreto-lei 972/1969 e o decreto 83.284/1979 – dessas legislações apenas a obrigatoriedade do diploma foi revogada, os demais dispositivos continuam valendo - era uma forma de reduzir a capacidade organizativa da categoria. Além disso, abriria, como abriu, o campo da difusão da informação a leigos e até mesmo pessoas sem qualquer preparo ou mesmo compromisso com a verdade dos fatos.

Várias empresas, com o objetivo de reduzir despesas com mão-de-obra, passaram a contratar não jornalistas, desrespeitando piso salarial, jornada de trabalho. Era um caminho para que o chamado esprit maison (espírito da casa), definido por Michel Mathien, se fizesse preponderante. Para o pesquisador francês, o esprit maison é a cultura interna da empresa de comunicação interferindo na informação difundida. Dentre os critérios de noticiabilidade, abria-se espaço para o conceito de “utilidade empresarial” (utilité pour l’entreprise ), pelo qual um sistema de valores que os dirigentes criam intervém em diversas etapas da atividade jornalística e com propósitos diferenciados. “Ele tanto pode justificar uma escolha redacional quanto uma censura” – afirma o acadêmico francês.[3]

A decisão do STF fez deslocar das universidades para às empresas o poder de decidir quem pode ou não ser jornalista. Um contrato ou mesmo uma carta indicando o desejo de contratar determinada pessoa passou a ser o único documento necessário para que fosse concedido o registro profissional. Nem mesmo provar que é alfabetizado o candidato precisa. O poder das empresas em definir quem poderá obter o registros foi mais uma condição que fragilizava ainda mais a relação empregador-empregado, afetando a liberdade de informar.

Resumindo, entidades e lideranças sindicais viam na medida adotada pelo STF um elemento que iria fragilizar a qualidade informativa, trazendo para o campo dos produtores de informação pessoas sem qualificação, sem referenciais da ética jornalística, sem ter em conta a função social de informar. A difusão informativa assumiria ainda mais um caráter comercial e político, sem necessariamente ter o compromisso com a verdade dos fatos.

A preocupação das lideranças sindicais não só se materializou, como foi potencializada pelas novas tecnologias. Blogs, que no início eram um meio de difusão individualizada de jornalistas profissionais – alguns até como forma de fugir aos efeitos do desemprego – se transformaram numa estrutura complexa que, em muitos casos, se transformaram em ferramentas de sorver verbas da publicidade pública, bajular as fontes de financiamento e atacar oponentes – às vezes de forma orquestrada por múltiplos blogs (leia aqui: Blogs candangos abrem fogo contra a EBC).

Ao longo destas duas décadas, muita coisa aconteceu no universo da informação (ou seria da desinformação?). Critérios de noticiabilidade deram espaço ao info-entretenimento, às fofocas, às fakesnews, à monetização dos cliques. Houve uma explosão de blogs, cresceu a precarização contratual dos jornalistas profissionais, as redes sociais tomaram conta da difusão informativa, apareceram os influencers, jornais e emissoras de rádio fecharam, a tiragem caiu, a audiência também, cresceram os “cortes” nas redes sociais” e o fenômeno das fake news, impulsionados ainda mais pelas plataformas de Inteligência Artificial, foi parar nos bancos dos réus. O cidadão, a quem se destina a informação, virou refém desprotegido de um modelo informativo, onde ele não consegue discernir o que é falso e o que é verdadeiro, o que jornalismo, o que é desinformação. O selo de qualidade que seria a informação produzida por um profissional habilitado com formação acadêmica deixou de exisitir.

Em veículos tradicionais, ou não, novos difusores informativos, denominados influencers, passaram a ocupar o espaço da difusão jornalística profissional. Aqui também o uso político e comercial destes espaços é marca registrada. Um bom exemplo é a campanha denunciada pelo portal G.1, na qual um esquema, investigado pela Polícia Federal, pelo qual o banqueiro Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, teria oferecido até R$ 2 milhões a influenciadores digitais para defender a instituição financeira e atacar o Banco Central nas redes sociais. O pior é que muitos veículos da chamada mainstream media embarcaram na mesma canoa furada.

A grande maioria dos influencers que estão nas redes sociais não tem qualquer compromisso com a verdade dos fatos. O foco deles é a monetização, mesmo que para isso divulguem informações falsas contra vacinas, a favor de bets, "jogo do Tigrinho", de medicamentos não aprovados pela Anvisa, falsos "gurus" de finanças”, que propagam esquemas de pirâmides e, até mesmo, buscam dar legitimidades a personagens do submundo do crime organizado. Há inclusive os que monetizam a fé dos incautos.


Informação pela metade

O fenômeno da desregulamentação fez surgir também os conteúdos, que denomino de informação pela metade, produzidos por redatores não qualificados e até mesmo por robôs. Tratam-se de portais de menor expressão que, na busca de cliques na internet – que lhe rendem mais recursos – , difundem informações que levam a construção de um imaginário social equivocado.

Uma rápida pesquisa nos top trending do Google, por exemplo, nos traz manchetes alarmantes que levam à convicção de que o Brasil estaria passando por uma série crise financeira, quando na verdade o desemprego cai e a renda média sobe. Com intuito comercial e-ou político, difundem manchetes sobre o fechamento de tradicionais empresas multinacionais presentes no Brasil. O leitor se depara com informações sobre o fechamento da Nissan, da Brastemp, da Nestlé, da Heineken, que resultam em milhares de demissões. Quem abrir o link vai descobrir lá na segunda metade desses textos, que os infortúnios empresariais aconteceram no México, na Argentina, no Japão, na Hungria ou mesmo em Singapura. Mas poucos abrem o link e muitos formam uma convicção de que o Brasil vai mal, apenas com a manchete evasivas. A quem interessa este tipo de desinformação, ainda mais em período eleitoral, que pode até gerar pânico social? Que tipo de profissional produz este tipo de texto? Qual a responsabilidade social destas empresas.

Lei de Imprensa

Não foi só a revogação da obrigação da formação acadêmica para o exercício do Jornalismo que resultou neste cenário de desordem informativa. O Supremo Tribunal Federal, ao julgar a ADPF 130, declarou, em 2009, a antiga Lei nº 5.250/1967, a Lei de Imprensa, totalmente inconstitucional. Ao contrário de outras nações democráticas mundo afora, o Brasil passou a ser um dos poucos países do Planeta que não possui um regramento para o funcionamento de veículos de imprensa. Antes, todo veículo era obrigado a publicizar seu endereço fixo, o nome e registro profissional do jornalista responsável pelo conteúdo, enfim, referenciais pelos quais a opinião pública pudesse recorrer para verificar a veracidade, procedência e mesmo autoria de quem produziu e difundiu uma informação. As duas decisões do STF abriram espaço para conteúdos apócrifos. Quem abre um site, um blog, na maioria dos casos, não sabe quem o mantem, em que cidade é elaborado, que redige os conteúdos. Isto é um prato cheio para a realidade informativa em que vivemos.

Histórico

Os comentários dos magistrados Flávio Dino e Alexandre Moraes de que o STF deveria rever a decisão que revogou a exigência da formação acadêmica para jornalistas logo produziram a ressureição daqueles que acreditam que a melhor regulamentação é a nenhuma. Pensamento semelhante tem muita plataforma multinacional de rede social. Afirmam peremptoriamente de que o STF deseja retomar regras da ditadura militar. Mais uma desinformação.

A proposta de “habilitar por meio de títulos de capacidade intelectual e moral os pretendentes à colocação no jornalismo”[4] é um anseio quase secular, muito anterior à Ditadura Militar de 1964. O Congresso Nacional deu início na década de 1920 aos primeiros estudos sobre a regulamentação do trabalho dos jornalistas. A formação acadêmica enquanto instrumento de profissionalização do jornalista e da melhoria da qualidade da informação difundida no Brasil era uma bandeira defendida pela Associação Brasileira de Imprensa desde o início do século XX.

Em 30 de novembro de 1938, Getúlio Vargas editou o Decreto-Lei 910. Nascia a primeira regulamentação profissional dos jornalistas, que criou o registro profissional, a jornada de cinco goras de trabalho e a função do jornalista do serviço público, gênesis das modernas estruturas de comunicação do Poder Público. A mesma legislação previu a criação do curso universitário de Jornalismo no Brasil e estabeleceu no artigo 1º que só poderia exercer a profissão de jornalista nas empresas jornalísticas, de rádio e televisão, quem fosse portador de diploma ou certificado de habilitação expedido pelas escolas de Jornalismo, devidamente reconhecidas pelo Governo Federal. Como as escolas ainda eram inexistentes, estabeleceu-se que para a obtenção do registro profissional, bastaria que o candidato possuísse experiência jornalística pregressa.

A pedido da ABI, Getúlio Vargas editou o Decreto-Lei n° 5.480, de 13/05/1943, criando a Escola Superior de Jornalismo. A Faculdade só saiu do papel cinco anos depois. As primeiras turmas públicas funcionaram na então Universidade do Brasil, hoje Universidade Federal do Rio de Janeiro, graças ao apoio financeiro da companhia de cigarros Souza Cruz, onde o então presidente da ABI, Hebert Moses, era editor da revista da institucional da empresa.

Por julgar ser necessário cumprir na íntegra o disposto no Decreto-Lei nº. 910⁄1938, o presidente Jânio Quadros editou o Decreto nº. 51.218, em 22/08/1961, instaurando a obrigatoriedade da formação universitária para acessar a profissão. O artigo 1º do decreto proibia o exercício da profissão aos não diplomados. Entretanto, cinco meses após a sua edição, a legislação foi revogada pelo decreto nº. 527-A, de 18/01/1962. Atribui-se a revogação à pressão das empresas jornalísticas, bem como à frágil governabilidade que o governo de Jânio Quadros já enfrentava e que resultou na sua renúncia em agosto do mesmo ano.[5]

A legislação de 1943 foi atualizada por meio do Decreto-Lei nº. 972/1969. Foram detalhadas as funções que seriam consideradas jornalísticas e mantida a exigência de formação acadêmica obrigatória, mas novamente seus efeitos não foram integrais. Somente com a edição do Decreto nº. 83.284, em março de 1979, disciplinado as regras do Decreto-Lei nº. 972, o diploma de Jornalismo se tornou definitivamente obrigatório. A medida provocou uma explosão de novos cursos e, consequentemente, de novos estudantes e formandos em Jornalismo.

Se a sociedade brasileira deseja maiores proteções contra a fake news, a primeira providência é tornar obrigatória a transparência dos dados de quem elabora e difunde notícias no país. A segunda é qualificar a mão de obra, voltando a exigir a formação acadêmica é um benefício para a sociedade como um todo e não um privilégio para uma categoria profissional. Como salientou, em 1953, o acadêmico e jornalista Luiz Beltrão, um estado de liberdade de imprensa está condicionado à existência de uma qualificação de nível universitário para os jornalistas.[6] Informação precisa ter referencial de procedência e padrão de qualidade. Sem isso, a esfera pública será dominada pelos influencers sem qualquer compromisso social com a informação. Um mea culpa por parte do Supremo Tribunal Federal neste momento seria mais do que bem-vindo. É imperativo que ele reveja a decisão de 2009.



* Jornalista diplomado, Doutor em Ciências da Informação e Comunicação, presidente do Sindicato dos Jornalistas do DF (1992/1995), Vice-presidente da Federação Lationoamericana de Periodistas (Felap) 1996/1998, Vice-presidente da Federação Internacional dos Jornalistas (FIJ/IFJ) 1998/2001.

[1] SANT’ANNA, Francisco (2009). Mídia das Fontes: Um novo ator no cenário jornalístico brasileiro - Um olhar sobre a ação midiática do Senado Federal. Brasília, Ediçãos Técnicas do Senado Federal, p. 118.

[2] SANT’ANNA, Francisco. Op.cit, p. 122.

[3] MATHIEN, Michel, (1992). Les journalistes et le système médiatique, Paris, Hachete, p. 195.

[4] SEGISMUNDO, Fernando, (1988). ABI 80 anos, Rio de Janeiro, Unigraf, p.85.

[5] SANTOS, Reinaldo, (1989). Vade mécum da Comunicação, São Paulo, Ed. Trabalhistas. p. 80.

[6] MEDINA, Cremilda, (1982). Profissão jornalista: responsabilidade social, Rio de Janeiro, Forense.

domingo, 12 de julho de 2026

Prêmio: ICL incentiva reportagens investigativas regionais sobre o mercado de combustíveis

Edição de 2026 destina dois prêmios de R$ 10 mil a trabalhos de alcance regional que revelem os impactos das irregularidades sobre consumidores, empresas e economias

 

O Instituto Combustível Legal (ICL) reforça, na edição de 2026 do Prêmio ICL de Jornalismo, a valorização da cobertura local e regional sobre o mercado de combustíveis. A iniciativa busca estimular reportagens investigativas capazes de identificar fraudes, acompanhar ações de fiscalização e mostrar como práticas ilegais afetam diretamente consumidores, empresas que atuam de forma regular, arrecadação pública e comunidades de diferentes regiões do Brasil.

A categoria Regional concederá dois prêmios de R$ 10 mil cada. Poderão concorrer reportagens publicadas por veículos de alcance local ou regional, em todos os formatos previstos no regulamento. A avaliação dará ênfase à abordagem dos impactos do setor nas comunidades e nas economias locais. Os dois trabalhos que alcançarem as maiores pontuações da comissão julgadora serão premiados.

Para o ICL, o fortalecimento do jornalismo regional é fundamental porque muitos dos efeitos do mercado irregular são percebidos inicialmente nos municípios e estados. São jornalistas locais que acompanham de perto operações policiais, interdições de estabelecimentos, investigações sobre sonegação, adulteração de produtos, fraudes em bombas, roubo de cargas e outras práticas que podem estar associadas a estruturas criminosas mais amplas.

Além de revelar esquemas ilegais, a cobertura regional permite traduzir grandes números e investigações complexas para a realidade do cidadão. Uma fraude no mercado de combustíveis pode significar menos produto entregue ao motorista, risco de danos ao veículo, concorrência desleal contra empresas idôneas e perda de recursos que poderiam ser destinados a serviços públicos.

“O jornalismo local conhece a realidade de cada região, acompanha as autoridades, ouve os consumidores e consegue mostrar como as irregularidades chegam à vida das pessoas. Ao criar dois reconhecimentos na categoria Regional, queremos ampliar a visibilidade dessas reportagens e incentivar investigações que, muitas vezes, começam em um município, mas revelam problemas de dimensão estadual ou nacional”, afirma Emerson Kapaz, presidente do Instituto Combustível Legal.

Premiação de R$ 70 mil

O Prêmio ICL de Jornalismo 2026 distribuirá um total de R$ 70 mil em três categorias. Além dos dois trabalhos regionais, que receberão R$ 10 mil cada, haverá um prêmio de R$ 30 mil para a categoria Série e outro de R$ 20 mil para a categoria Nacional. Todos os vencedores também receberão o troféu do Prêmio ICL de Jornalismo 2026.

A categoria Série é destinada a conjuntos de duas ou mais reportagens interligadas, com narrativa contínua e abordagem aprofundada. Os trabalhos podem ter alcance regional ou nacional e ser apresentados em qualquer formato ou meio de comunicação. Já a categoria Nacional reconhecerá uma reportagem publicada em veículo de abrangência nacional e com impacto e relevância para o país.

Podem participar jornalistas profissionais com trabalhos publicados em veículos sediados no Brasil. São aceitas reportagens e séries jornalísticas veiculadas em televisão, rádio, mídia impressa, plataformas digitais, streaming e webTV. Os trabalhos precisam ter sido publicados entre 1º de outubro de 2025 e 30 de outubro de 2026.

As inscrições foram abertas em 4 de maio e seguem até 30 de outubro de 2026, exclusivamente pelo site oficial do Prêmio ICL de Jornalismo. A divulgação dos vencedores e a cerimônia de premiação ocorrerão durante o evento “O Posto Mais Bonito do Brasil 2026”, em São Paulo, em data e local que ainda serão anunciados.

Os trabalhos serão avaliados por uma comissão independente formada por jornalistas e especialistas. Entre os critérios estão relevância e interesse público, qualidade jornalística, clareza editorial, rigor na apuração, verificação das informações, impacto social, econômico ou institucional, originalidade, profundidade e contribuição para o debate sobre legalidade e concorrência.

Jornalismo como aliado da sociedade

Criado para fomentar a produção de conteúdo investigativo e de interesse público, o Prêmio ICL de Jornalismo reconhece reportagens que abordem os impactos do mercado irregular de combustíveis e as ações destinadas a combatê-lo. A iniciativa integra o compromisso do Instituto com a promoção de um ambiente de negócios mais ético, transparente e competitivo.

Em 2025, o prêmio recebeu mais de 80 reportagens e distribuiu R$ 50 mil. Para 2026, o aumento da premiação e a criação de categorias por alcance editorial ampliam o reconhecimento de trabalhos nacionais e regionais, além de séries que demandam apuração prolongada e aprofundamento.

“O enfrentamento ao mercado ilegal depende de fiscalização, inteligência, integração entre instituições e informação de qualidade. Reportagens bem apuradas ajudam a sociedade a compreender esses crimes, dão visibilidade ao trabalho das autoridades e contribuem para que irregularidades não sejam naturalizadas. Valorizar o jornalismo investigativo é também fortalecer a defesa do consumidor e da concorrência leal”, conclui Kapaz.

quinta-feira, 18 de junho de 2026

Pequena empresa jornalística fora do foco dos prêmios do Sebrae

Instituição focada no pequeno empreendedor lança prêmio jornalístico sem categoria específica para a mídia alternativa. Rádios e TVs comunitárias, jornais de bairros, sites e blogs são obrigados a concorrer, de igual para igual, com os jornalões, as redes nacionais de TV e Rádio e poderosos sites informativos empresariais.


Por Chico Sant’Anna[i]. Publicado simultaneamente no Observatório da Imprensa 


O Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae) é uma instituição de 54 anos de existência. Criada em 1972, como um Centro vinculado ao então Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico (BNDE) - ainda não tinha o S de social – a instituição nasceu para fomentar e assessorar os pequenos e médios empresários. Com o propósito de atender 35 milhões de iniciativas de menor porte em todo o país, o Sebrae afirma ter por missão, segundo seu portal institucional, a promoção da competitividade e o desenvolvimento sustentável de micro e pequenas empresas, estimulando o empreendedorismo. Trata-se de uma instituição cuja marca é bem captada e avaliada pela opinião pública. Ao longo da história, o Sebrae sempre soube construir um conceito sobre a importância de se promover os pequenos negócios, se valendo fortemente dos veículos de comunicação, em especial da grande imprensa. No jargão jornalístico, sempre soube plantar a pauta.

A presença midiática do Sebrae foi potencializada, a partir de 2001, com a criação da Agência Sebrae de Notícias (ASN), concebida pelos jornalistas Ari Cipola e Abnor Gondim. Egressos da Folha de S. Paulo, os dois profissionais tinham a missão de materializar o slogan “Os pequenos negócios em pauta”.

Este ano, pela 13ª consecutiva, é promovido o Prêmio Sebrae de Jornalismo. A iniciativa, que em 2026 chega à 13ª edição, “está posicionada como uma vitrine fundamental para produções jornalísticas que dão visibilidade aos pequenos negócios em todo o Brasil” – comenta release do Sebrae.

Em todo o país, alcançou 3.759 inscrições. A participação dos profissionais abrange as categorias de Texto, Áudio, Vídeo e Fotojornalismo, não há diferenciação por tamanho do meio informativo. Apenas para o Jornalismo Universitário existe uma categoria diferenciada. Paradoxalmente, o certame jornalístico do Sebrae, que tem por objetivo promover os nano, micro e pequenos negócios, não possui nenhuma categoria voltada à imprensa alternativa. Será que não existe interesse em promover a “competitividade e o desenvolvimento sustentável de micro e pequenas empresas” jornalísticas e midiáticas, de “estimular o empreendedorismo” delas?

Em um cenário em que a chamada grande mídia impressa vem reduzindo sucessivamente a tiragem de seus títulos; que grandes veículos como Jornal do Brasil, Gazeta Mercantil, Editora Abril, Revista Isto É, dentre outros, desapareceram ou foram reduzidos apenas a versões digitais; que emissoras tradicionais de rádios, como a Eldorado, já não operam mais ou não produzem jornalismo; estimular o nascedouro de uma nova imprensa, ou consolidar e fazer crescer os pequenos veículos, seria um bom propósito para o Sebrae, por meio do seu Prêmio de Jornalismo.

Mas a foto é outra. Rádios e TVs comunitárias, jornais de bairro, sites, blogs, todos estes tipos de meios de comunicação alternativos se desejarem concorrer no prêmio Sebrae, terão que fazê-lo de igual para igual com a chamada mainstream media, ou seja, os grandes jornalões, as redes nacionais de rádio e televisão, os grandes portais. Não é necessário gastar argumentos para demonstrar que é uma concorrência desleal. Haja visto os recursos tecnológicos e humanos que cada tipo de mídia dispõe.

O paradoxal aqui é termos uma instituição, que tem por meta fortalecer os nanos, micro e pequenos empreendimentos, ignorar a pequena imprensa existente neste país. Só o universo de rádios comunitárias legalizadas pelo Ministério das Comunicações ultrapassa a casa de quatro mil. O que leva o Sebrae a desconsiderar a existência desta imprensa alternativa? O que ela noticia não teria peso ou valor cognitivo suficiente para os anseios do Prêmio Sebrae? A penetração de seus conteúdos não chega ao público alvo pretendido pelo Sebrae?

Organizações internacionais possuem uma abordagem diferenciada e inteligente junto à mídia alternativa. São cientes de que em determinadas localidades, em determinados públicos, o que chega aos cidadãos são os informes do que o norte-americano Dan Gillmor cunhou de grassroots media[ii]. Se valendo do conceito, que em português se refere às origens de algum fenômeno, poderíamos traduzir por um jornalismo raiz, Gillmor faz referência a um “jornalismo cidadão:” O autor inglês Cris Atton[iii] (2002: 143), divide os veículos alternativos em dois grupos: a advocacy media, que atua em defesa de causas sociais, e os grassroots media, que provocariam uma revolução maior no que tange a introdução de novos valores de noticiabilidade, “news values”.

Instituições internacionais, como a Unicef, a Unaids e a Organização Mundial de Saúde, atuam permanentemente junto a essas emissoras, buscando parceria, fomentando-as, por meio do fornecimento de conteúdo, treinamentos. Em alguns casos especiais, estas instituições repassam apoio material para a compra de equipamentos e manutenção de gráficas, emissoras, equipamentos de informática. Estão cientes de que a imprensa alternativa é um importante instrumento de transmissão de uma contrainformação ou de uma contracultura na busca de mudanças de valores sociais.

Como já tivemos a oportunidade de afirmar, a imprensa alternativa, sob as diversas rotulações que comporta – o public journalism, contra-imprensa, imprensa nanica, radical, anarquista, associativa, comunitária, operária, etc. – bem como sob diversos propósitos editoriais, enquanto elemento de accountability, transparência, advocacy, lobbying, relações públicas, assessoria de imprensa, construção da cidadania, dentre outras (Sant’Anna, 2009: 66)[iv] -, é um fato concreto na esfera pública midiatizada, ou seja, no espaço social e virtual onde os debates políticos, culturais e sociais ocorrem por meio dos meios de comunicação. Não há como negar sua existência. Há três anos temos provocado dirigentes do Sebrae sobre a não previsão de categoria especifica para pequenos veículos em seus prêmios jornalísticos. Nunca obtivemos uma resposta.

É notório que a promoção de concursos jornalísticos representa a adoção de uma estratégia para sensibilizar profissionais de imprensa, em especial os gatekepers – aqueles que definem as pautas e-ou o aproveitamento editorial nos veículos - para que foquem em determinado assunto -, bem como interferir nos critérios de definição da agenda midiática. Na década de 1990, a Unicef foi bastante feliz em promover por anos seguidos prêmios focados na proteção da infância. Coincidência ou consequência, o tema da infância é hoje uma constante no noticiário nacional. A Aids também foi alvo durante muitos anos de concursos jornalísticos semelhantes, em especial, voltados para fomentar o combate à discriminação.

A realização de prêmios jornalísticos, se de um lado ajuda a promover a instituição ou determinado tema, de outro aporta credibilidade e reconhecimento externo. Aos inscrever-se em um concurso voltado à imprensa, o profissional ou o veículo procura obter a chancela corporativa e dos demais atores sociais quanto à qualidade de seu noticiário. A conquista de prêmios aporta credibilidade ao produto informativo, credencia o veículo na esfera pública. E para o jornalista contribui para o reconhecimento profissional. (SANT’ANNA: 269). É tudo que um veículo de pequeno porte necessita para crescer. Este credenciamento ajuda a abrir portas junto às fontes, junto aos gestores de verbas publicitárias, ou seja ajuda a crescer e consolidar-se como empresa ou instituição jornalística.

Voltamos, então à pergunta: por que o Sebrae não foca seus prêmios nesse perfil de veículo de comunicação? Inclusive como instrumento de fomento e fortalecimento deste segmento empresarial. Será uma preferência em conceder premiações a profissionais que já conquistaram o estrelato da carreira? Será que a ele só interessa o que é publicado nos jornalões e grandes redes de TV, rádio e portais de internet? O micro e pequeno comunicador não lhe interessa?

Para a próxima edição do Prêmio Sebrae, a sugestão é que a instituição crie categorias específicas para nanos, micro e pequenos comunicadores, de acordo com a faixa de faturamento, e para mídias alternativas, como rádios, TVs e rádios comunitárias e de favelas. Desde já, se faz necessário um levantamento que identifique quantas empresas existem neste universo, classificando-as por níveis de faturamento anual, audiência, território geográfico de penetração. 

__________________

[i] Jornalista Profissional, pesquisador acadêmico, Mestre em Comunicação pela Universidade de Brasília e Doutor em Ciência da Informação e Comunicação, pela Universidade de Rennes 1 – França.

[ii] GILLMOR, D. (2006). We the Media: Grassroots Journalism by the People, Sebastopol, EUA, O'Reilly Media.

[iii] ATTON, C. (2002). Alternative media, London, Sage

[iv] SANT’ANNA, F (2009) Mídia das Fontes: um novo ator no cenário jornalístico brasileiro - Um Olhar Sobre A Ação Midiática Do Senado Federal. Brasília, Edições Técnicas do Senado.

terça-feira, 9 de junho de 2026

Contos futuristas de Maria Félix tensionam os limites entre a natureza e o artificial


Em “Labirintos do caos”, da escritora e jornalista Maria Félix Fontele, 14 histórias revelam os dilemas mais profundos da sociedade contemporânea
 

Quatorze histórias, movidas pelo desencanto e pela esperança em realidades que se transformam rapidamente, rompendo com tudo aquilo que antes era familiar. Se transformaram no mais novo livro da jornalista e escritora, Maria Félix Fontele: Labirintos do caos. Nesse trabalho, as personagens são pessoas comuns inseridas em contextos futuristas estranhos e caóticos, mas que se aproximam do cotidiano. Os quatorze contos retratam um futuro que até pode parecer distante da contemporaneidade, mas já faz parte do presente, muitas vezes sem que quase ninguém se dê conta.

Com uma veia distópica, a obra de ficção especulativa tenciona as relações entre a natureza e o artificial para refletir sobre os conflitos do ser humano frente a um mundo desconhecido que se anuncia como uma possibilidade. “Quando penso no caos, não imagino apenas ruína. Penso também no que ainda não ganhou forma, mas pulsa entre o desconexo, o obscuro e o imprevisível” - observa a autora ao ressaltar que essa visão está no cerne de Labirintos do caos, que começou a ser escrita durante a pandemia da Covid. “A obra serviu de válvula de escape diante da impotência de tempos sombrios, onde o espírito da criação se sobrepõe ao massacre de um cotidiano doente, e traz reflexões nem sempre positivas de nossa humanidade” - complementa.

Questões sociais

Sem a pretensão de ser pessimista, mas com uma perspectiva desencantada acerca das vilezas do mundo, a autora provoca em suas narrativas reflexões sobre questões sociais. Em “As memórias que ficaram na lata do lixo”, a protagonista lê cadernos sobre a infância da mãe, quando via os outros com medo do AI-5. Mas a personagem principal, decidida a viver somente o presente, passa por um procedimento para apagar memórias e esquece do passado familiar. Já em “A Indigenista e a Guerreira”, o ano é 2041, e um holograma de uma mulher é criado para disfarçar os impactos das grandes corporações no planeta.

Na madrugada seguinte, Belinda chegou à casa molhada de chuva e de lágrimas, levada por outra patriota. Estava desorientada. A confusão mental lhe fazia repetir o mantra: “Os generais vêm nos salvar”. A filha passou os dias enxugando o rosto da mãe louca que não sabia mais por que e por quem chorava, embora emitisse sinais de que, com o tempo, ficaria livre daquele pesadelo, após se submeter a várias desintoxicações e limpar a mente das lavagens cerebrais. (Labirintos do caos, p. 86)

Nos textos, Maria Félix Fontele também pondera sobre os relacionamentos possíveis em um mundo cada vez mais digital e transformado pelas inteligências artificiais. “O segredo” acompanha a decisão de Joaquim de revelar um segredo para a família sobre um vínculo amoroso criado a partir da tecnologia. Em “Seu nome é sensibilidade”, a trama foca em Luciana, uma mulher que, após uma separação traumática, começa a se envolver com um ciborgue.

A obra tem projeto gráfico de Jeferson Barbosa e Gabriele Oliveira, e cada conto inicia com ilustrações que buscam inserir o leitor no universo literário que será narrado. Publicado pela Mondru Editora, o livro apresenta orelha de Luigi Ricciardi, escritor, doutor em Literatura e professor da Universidade Federal do Amapá. Labirintos do caos foi publicado com recursos do Fundo de Apoio à Cultura do Distrito Federal (FAC-DF), da secretaria de Cultura e Economia Criativa do Distrito Federal.

A autora:

Maria Félix Fontele é jornalista, escritora e sócia-fundadora da Fontele Studios. Formada pela Universidade Federal de Goiás (UFG), trabalhou como secretária-adjunta e coordenadora de Comunicação Social do Governo do Distrito Federal, além de ter sido a primeira coordenadora de Comunicação da Câmara Legislativa do Distrito Federal. Atuou como repórter, chefe de reportagem, editora e colunista em diversos veículos de comunicação e em assessorias de imprensa. É autora dos livros “Versos que habitam” (2018) e “O barulho, o silêncio e a solidão de Deus” (2020), publicados pela Confraria do Vento Editora. Agora, lança Labirintos do caos pela Mondru Editora.

 

 

Serviço:
Título:
Labirintos do caos - Editora: Mondru Editora
Páginas: 114
Autora: Maria Félix Fontele
Lançamento: 10 de junho, a partir das 18h30, no Caferante, CLS 203

segunda-feira, 8 de junho de 2026

O Tardio: uma viagem aos tempos da ditadura e da contracultura, narrada por Maurício Melo Júnior

 


Um romance da busca e do desencontro: de um homem que chega sempre depois do tempo, como o irmão que nunca conheceu, como a era que nunca veio. 
Uma viagem ficcional no tempo de volta aos anos de chumbo da ditadura militar no Brasil, ao mesmo tempo um período da contracultura, do mvimento hipie.

 

 

 Por Chico Sant'Anna

O pano de fundo de O Tardio é o Brasil dos anos 1970, período mais duro da ditadura militar: o AI-5 em vigor, a tortura como prática de Estado. Em meio a isso, uma geração de jovens escolheu o caminho oposto — a estrada, a contracultura, a busca por paz e liberdade. Mas o que significa liberdade quando tudo ao redor conspira para impedi-la? Será que eles estão dispostos a pagar o preço que for para conquistá-la? 

O Tardio, de Maurício Melo Jr., é um romance que foca na busca e no desencontro: de um homem que chega sempre depois do tempo, como o irmão que nunca conheceu, como a era que nunca veio. Uma narrativa instigante, densa e profundamente brasileira, em que o passado e o presente se entrelaçam na estrada aberta de um país que ainda busca a sua própria liberdade.

O estilo literário de Maurício Melo é muito apreciado pela perícia em escrever. Nas palavras da escritora Ana Baggioto, ele tem “a paciência de um artesão que conhece o valor dos silêncios e a força dos detalhes quase imperceptíveis. Nada parece excessivo, nada parece faltar. As palavras chegam ao texto como pedras cuidadosamente escolhidas para erguer uma ponte sobre a solidão humana. Há uma precisão rara em sua linguagem: cada termo ocupa exatamente o lugar onde deveria estar, como se tivesse esperado toda uma vida para ser pronunciado”.

Depois do lançamento, na Feira do Livro, em São Paulo, a obra já tem data marcada para os apreciadores da boa literatura, em Brasília, nesta quarta-feira, dia 10. Vai ser no Bar Beirute, já tradicional nos lançamentos lietrários, com a presença do jornalista Maurício Melo, autor de 35 livros. Este é seu quarto romance.

O Livro

O Tardio retrata a vida de Sérgio, um pernambucano, cuja sina parecia seguir um caminho bastante tradicional. Uma infância e adolescência comuns, marcadas pela forte presença do catolicismo — à época, quase uma regra em todo o país, inclusive em Pernambuco, onde nasceu. Sua família já não possuía o status social de outrora, mas ele conseguiu se formar em Direito. Casou-se. A esposa, professora, dividia-se entre a casa, os estudos e as salas de aula. Tiveram filhas. Tudo dentro do convencional.

No entanto, a perda de um parente próximo fez reaparecer uma figura há muito aprisionada no silêncio familiar: a de Roberto, seu irmão.

Anos antes, a morte de Roberto e suas escolhas de vida sempre foram um tabu acobertado por seus pais e por todos. O caçula Sérgio, que sempre recebera poucas informações a respeito de seu irmão, agora tinha em mãos mais do que imaginara em toda a sua vida. Ainda assim não era suficiente. Ele precisava de mais. Tinha necessidade de descobrir novas peças da história de seu irmão, cuja morte coincidira com a data de seu próprio nascimento. Angustiado, Sérgio deixa tudo para trás e põe o pé na estrada.

A trajetória de Sérgio em busca de respostas é guiada por cartões-postais encontrados na casa de seu tio, logo após seu falecimento. As correspondências foram escritas por seu irmão durante suas andanças e enviadas ao tio ao longo dos anos.

Por onde passa, o advogado abandona a gravata, adota a bata indiana e o pano vermelho do artesanato, recolhe informações e vivências que o ajudam a montar o quebra-cabeças da história de Beto. Nesse percurso, Sérgio começa também a questionar suas próprias escolhas, desejos e certezas, colocando à prova tudo o que havia construído, inclusive o casamento e a vida profissional deixados para trás no Recife.

Aos poucos, a figura de Roberto ganha corpo: um rapaz calado e religioso que, no fim dos anos 1970, abandonou a casa dos pais em Palmares e se tornou hippie ao lado de Caliandra. Juntos, os dois percorreram o país em busca de um modo de viver mais livre. O rastro some no interior de Goiás. E é até lá que Sérgio precisa chegar.

O escritor Maurício Melo Júnior nos conduz por essa jornada na qual o protagonista atravessa cidades do Nordeste, Sudeste e Centro-Oeste do país, refazendo o caminho do irmão. Sua maneira de nos apresentar esse mundo, transforma paisagem em estado de espírito:

o asfalto do sertão é uma cobra negra e rastejante,
o calor sobe do chão como nuvem,

cada lugar carrega o peso de quem passou por ele.

O Brasil que emerge das páginas de O Tardio, é místico e distante do modo de vida tradicional. Nessa leitura, fazemos uma travessia ao lado de andarilhos que esperam e buscam a chamada Era de Aquarius. Esse novo romance faz jus ao que Ana Baggioto fala sobre o autor: “não apenas conta uma história; revela as fissuras, as ausências e as possibilidades de redenção que habitam o coração dos homens sem a presunção de oferecimento de respostas, mas revelando uma humanidade mais vasta, mais complexa e mais verdadeira”.

O autor:

Maurício Melo Júnior é escritor, jornalista, crítico literário e documentarista. Pernambucano radicado em Brasília, formou-se em Comunicação Social, com pós-graduação em Economia e Ciência Política. Atuou em alguns dos principais veículos de comunicação do país, como o Correio Braziliense.

Há 25 anos apresenta o programa Leituras, na TV Senado, o primeiro dedicado à literatura brasileira. Assina resenhas literárias para o jornal Rascunho (Curitiba/PR) e é colaborador da revista literária Pernambuco (Companhia Editorial de Pernambuco. Recife/PE).

Presidiu o Instituto Casa de Autores, de Brasília, além de ser membro da Associação Nacional dos Escritores. É também autor de romances, contos, crônicas e livros infantojuvenis, com destaque para Não me empurre para os perdidos e Sujeito oculto.

Ao todo, já escreveu 35 livros e O Tardio é seu quinto romance. É curador da FLIPIRI curador (Festa Literária de Pirenópolis – GO) e da Flipenedo - Festa Literária de Penedo (GO). Como documentarista, dirigiu mais de 20 filmes e escreveu para o teatro, com peças encenadas em diversas regiões do país.

 

Serviço:
Livro: O Tardio
Autor: Maurício Melo Júnior
Páginas:
160
Editora Rua do Sabão
Lançamento em Brasília: Dia dia 10/6, 19 horas - Bar Beirute – CLS 109

segunda-feira, 11 de maio de 2026

O jornalista que virou empreendedor de café


Da antiga lauda de papel ao atelier do café especial: a trajetória de veteranos profissionais de imprensa para enfrentar as mudanças estruturais das redações e do jornalismo. Depois de 40 anos na Comunicação, o professor, jornalista e pesquisador acadêmico, Aldo Schmitz, e sua esposa mergulham na produção e comercialização on-line de um café diferenciado.


Por Chico Sant'Anna 

O avanço das novas tecnologias, as mudanças dos hábitos culturais, as plataformas de redes sociais e seus influencers.... tudo tem contribuído para uma mutação forte na imprensa e, principalmente, no mercado de trabalho dos jornalistas profissionais. Não tem sido fácil, mesmo para profissionais gabaritados, com experiência e até mesmo com passagem pelo mundo do ensino e da pesquisa científica. Profissionais, novos e veteranos, tem buscado alternativas, uma delas é se tornar empreendedor. E foi isso que fez o jornalista paranaense Aldo Schmitz.

Há 40 anos no ensino e pesquisa de Jornalismo, inclusive a nível de pós graduação, na gestão da comunicação e da produção cultural, Aldo Schmitz, que lecionou na Universidade Federal de Santa Catarina, e sua esposa, Jacqueline Brandalize, decidiram por uma nova pauta: deram início a uma nova atividade. Em comum com a Comunicação? Só o hábito das redações de sempre estar tomando um cafezinho. 

Isso mesmo, o casal decidiu mergulhar nos segredos dos someliers de café e acaba de implantar a Dripe Café, uma empresa de drip coffee de café especial. Pra quem não conhece o termo, trata-se de um café especial em dose individual, pronto para você. Mas ele não vem em capsulas nem precisa de máquinas. São sachês para filtrar direto na xícara a qualquer hora ou lugar. O casal aposta nesse novo método de extração: o drip coffee. Nele, o preparo é simples e prático: basta retirar o filtro do sachê, encaixar na xícara e adicionar água quente.

Pesquisa

Foram mais de dois anos de estudos, inclusive com ampla pesquisa realizada com mais de 700 apreciadores de café especial, conta Aldo, hoje radicado em Curitiba. O jornalista assegura que todo o processo é artesanal e sustentável, desde a colheita manual e seletiva até o beneficiamento natural de microlotes. A torra também é artesanal, assim como o envase. “Trata-se de um ateliê de café, um toque de curadoria que respeita a autenticidade do café especial, do plantio a xicara” – observa Jacqueline Brandaliza, esposa e parceira de Aldo nesse novo desafio.

A torra é fresca, e o café permanece protegido em embalagem laminada e hermeticamente lacrada. A nova empresa oferece somente cafés de origem certificada, com pontuação superior a 84 pontos, conforme os critérios internacionais da Specialty Coffee Association (SCA).

Trata-se de um café puro, sem defeitos ou impurezas, com certificação e rastreabilidade de origem, procedência e qualidade. A seleção prioriza terroirs reconhecidos pelo INPI, com destaque para Minas Gerais, especialmente a Serra da Mantiqueira e o Cerrado Mineiro.

Com as facilidades do comércio na internet, qualquer pessoa, em qualquer lugar do Brasil, poderá encomendar no site uma caixa de sachês de café. Cada caixa traz 25 sachês de 10 gramas. É ideal para o café da manhã e para qualquer momento do dia, em casa, no trabalho ou em viagem. O preço é, em média, 35% a 40% mais econômico do que o de outros drip coffees de café especial com pontuação acima de 84 pontos.

sábado, 2 de maio de 2026

Morre Raimundo Rodrigues Pereira, o jornalista da imprensa alternativa

Aos 86, anos, morreu neste sábado, 2, no Rio de Janeiro, o jornalista Raimundo Rodrigues Pereira, ex-Opinião, ex-Movimento


Por Antônio Carlos Queiroz (ACQ)

O jornalista Raimundo Pereira, mestre genial do jornalismo independente, democrático e popular, foi um daqueles lutadores imprescindíveis referidos pelo poeta Bertolt Brecht.

Nos tempos da era de chumbo, era o jornalista da imprensa alternativa e combativa. Por meio do jornal Opinião, trouxe de volta ao centro do debate público a questão nacional. Por meio do jornal Movimento, fincou as bandeiras do fim das leis de exceção da ditadura militar, da Anistia Ampla, Geral e Irrestrita, e da convocação da Constituinte Livre e Soberana. Se destacou pelo rigor profissional, coragem e compromisso com a democracia, atuando também em veículos como Realidade e Veja.

Radicalmente comprometido com a democratização republicana do País, e com a melhoria das condições de vida da população brasileira, o Raimundo foi também apaixonado pela divulgação das conquistas científicas.

Nascido em Exu (PE), quando estava no último ano de Engenharia Aeronáutica no Instituto Tecnológico da Aeronáutica (ITA), em 8 de abril de 1964, foi preso pelo DOPS, o que o levou a abandonar a Engenharia Aeronáutica no Instituto Tecnológico da Aeronáutica (ITA) A e dedicar-se ao jornalismo após formar-se em Física.

Dizia que o bom jornalista deve acompanhar os acontecimentos do seu bairro, de sua cidade, de seu Estado, do seu País, do planeta e também do Universo. O mundo, dizia, pode ser conhecido e o conhecimento é o caminho inevitável para que possamos mudá-lo.

Socialista, o Raimundo Pereira foi também um fã da República Popular da China. O livro que conta grande parte da história de Raimundo Pereira foi disponibilizado pelos autores

A causa da morte não foi divulgada. Vou sentir saudades do mestre, com quem eu comia feijoada com vinho, enquanto falávamos mal dos inimigos do povo brasileiro!