Caros leitores e leitoras.

terça-feira, 31 de março de 2026

Novo livro resgata os horrores dos 50 anos do golpe militar na Argentina.


Meio século após o golpe militar de 1976, na Argentina, livro traz o depoimentos de 24 homens e mulheres que sofreram na pele as atrocidades do regime de chumbo, O objetivo da obra, lançada em Buenos Aires, é manter a memoria viva e combater o negacionismo que tenta apagar os horrores perpetrados.

Por Chico Sant'Anna

A obra “50 años del golpe en Argentina, testimonios” reúne os depoimentos de 24 cidadãos e cidadãs que enfrentaram a dor, mas mantiveram acessa a resistência contra o arbítrio. Ela acaba de ser lançada em Buenos Aires e é avaliada como uma forma de enfrentamento do negacionismo, explica a jornalista Lídia Fagale, uma das responsáveis pelo projeto e autora de um dos depoimentos.

 “São relatos de vida, fundamentais para manter ativa a memória face às tentativas de negar as atrocidades do golpe de estado de 24 de março de 1976” - complementa. Nessa data, há 50 anos, as forças armadas argentinas depuseram o governo constitucional de Isabel Perón e instituíram no comando da nação uma Junta Militar, composta por Jorge Rafael Videla (Exército), Emilio Massera (Marinha) e Orlando Agosti (Aeronáutica). Tinha início alé um dos período dos mais obscuros da história do país vizinho.

Os movimentos sociais localizaram 814 centros clandestinos de detenção, tortura  extermínio daqueles e daquelas contrárias ao regime militar. Entre os desaparecidos estavam centenas de mulheres grávidas, mantidas em centros clandestinos de detenção. Muitas deram à luz em cativeiro e seus bebês foram retirados e entregues ilegalmente a outras famílias, configurando uma política sistemática de apropriação de crianças levada adiante pelo regime.

Organizada por Manuel Martínez e editada pela editora Manuel Capitán Cianuro, a obra, que traz testemunhos inéditos sobre a ditadura cívico-militar argentina, foi lançada em um local que não poderia ser mais iconográfico: a sede da Asociación Madres de Plaza de Mayo. Movimento de mães e avós que tentam localizar até hoje filhos e netos sequestrados ainda crianças ou mesmo bebês pela ditadura.


segunda-feira, 9 de março de 2026

Livro sobre a fabricação dos invisíveis na história do Brasil pode ser baixado gratuitamente


O livro “Quem somos nós na fila do pão? A fabricação dos invisíveis na história do Brasil” pode ser baixado e lido gratuitamente por meio desse link.


O livro “Quem somos nós na fila do pão? A fabricação dos invisíveis na história do Brasil”, lançado pelo jornalista José Cristian Góes em 2022 e com todas as edições impressas esgotadas, será agora distribuído gratuitamente no formato digital, pela Mangue Jornalismo de Sergipe.

Editado pela Edise, “Quem somos nós na fila do pão?” é parte da tese de Doutorado em Comunicação e Sociabilidade defendida pelo jornalista Cristian Góes na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). No livro, ele propõe um percurso crítico para discutir o “Outro” e as identidades, recorrendo a alguns elementos da História.

“Busquei mergulhar na trajetória da formação nacional para pensar sobre quem é o Outro em nós”, informou Cristian.

No trabalho emergem discussões sobre as manipulações identitárias, genocídios, escravização indígena e africana, o nascimento dos ‘Ninguéns’. A violência e o racismo são temas vitais no livro. Cristian Góes trata da fantasia da nação e da pátria, da participação da igreja na pedagogia racista e a construção ideológica dos invisíveis para consolidar a ideia de país.

“O Outro é fabricado no Brasil como repulsa, prevalecendo como a Diferença contra nós, que será sempre pobre, indígena, negra, criminosa, suja, doente, ameaça constante em permanente controle e extermínio. Todavia, a elite brasileira também produziu um Outro como desejo, referência, a ser imitado”, analisa Cristian Góes.

Para o autor, há um acerto de contas histórico entre nós que ainda está em aberto e que precisa ser enfrentado. Além desse livro, a tese de Cristian Góes foi dividida em outros dois livros:

·        “A Comunidade Invisível”, editado pela Ponte Editora, em Portugal.

·        “O jornalismo e a experiência do invisível: teoria, método e estudo de caso”, pela Editora Appris, de Curitiba/PR.

O livro “Quem somos nós na fila do pão? A fabricação dos invisíveis na história do Brasil” pode ser baixado e lido gratuitamente por meio desse link.

O autor:

José Cristian Góes é jornalista, doutor em Comunicação pela UFMG, com doutoramento sanduíche na Universidade do Minho/Braga, Portugal. É mestre em Comunicação pela UFS. 

Foi repórter e colunista em jornais, revistas e portais e trabalhou em assessoria de comunicação. Foi secretário de Comunicação da prefeitura de Aracaju, presidente do Sindicato dos Jornalistas de Sergipe e membro da Comissão Nacional de Ética dos Jornalistas. 

É servidor público federal e coordena a Mangue Jornalismo.

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2026

Capacitação gratuita em IA para Youtubers e videomakers

As inscrições podem ser feitas até 29 de março de 2026, por meio desse link. Ao longo do programa, os participantes. A primeira lista de aprovados será divulgada entre 31 de março e 6 de abril, seguida por uma segunda chamada entre 8 e 12 de abril.

Por Chico Sant’Anna

Cinco mil bolsas integrais estão sendo ofertadas a criadores de conteúdo veiculados na plataforma Youtube para aprenderem a planejar, produzir e publicar vídeos com método e consistência com apoio da Inteligência Artificial (IA).

A capacitação é uma parceria da plataforma de educação aberta DIO e o banco Santander. Ela visa ensinar o uso da IA desde a organização das ideias, criação de roteiros mais envolventes, desenvolver identidade visual coerente e revisar conteúdos de forma estratégica.

Ela está formatada por meio de videoaulas, exercícios práticos e desafios hands-on (atividades práticas e imersivas em que os participantes aprendem fazendo, em vez de apenas consumirem conteúdo teórico). Ao todo, será uma jornada de 38 horas. Ao final do programa de treinamento intensivo e imersivo (bootcamp), os participantes terão um canal ativo e organizado de forma profissional, com o primeiro vídeo publicado, identidade visual aplicada e um sistema prático para manter a produção de conteúdo. Também receberão um banco de prompts estratégicos para apoiar a evolução contínua do canal.

As inscrições podem ser feitas até 29 de março de 2026, por meio desse link. Ao longo do programa, os participantes. A primeira lista de aprovados será divulgada entre 31 de março e 6 de abril, seguida por uma segunda chamada entre 8 e 12 de abril. A trilha de estudos será liberada em 20 de abril de 2026, e a conclusão do programa, com certificação, ocorrerá até 21 de junho de 2026.

terça-feira, 9 de dezembro de 2025

Livro: biografia de Belchior no Beirute da Asa Sul

Por Chico Sant'Anna 

Cearense, de Sobral, Belchior ganhou o Brasil como apenas um jovem latino-americano. Em 1971, venceu o IV Festival Universitário da Canção Popular, realizado no Rio de Janeiro, com a música Na Hora do Almoço. De lá para cá, compôs 218 músicas, materializadas em 348 diferentes gravações dele e de outros intérpretes. Gravou, pelo menos 14 álbuns de estúdio, e lançou outros trabalhos ao longo de sua carreira, totalizando mais de 30 álbuns em sua discografia. Falecido em abril de 2017, ganha agora uma nova biografia, de autoria do jornalista Alberto Perdigão.

O livro Belchior: a construção de um mito na literatura de cordel é o resultado de uma pesquisa que analisa 28 biografias do Belchior, nove publicadas em livro e 19 em folhetos de cordel.

“Nesta síntese de biografias, trago o que há de mais picante e surpreendente na vida, obra, desaparecimento e morte do Belchior”, adianta Perdigão. “O estudo comparativo mostra que o Belchior do livro é uma construção simbólica bem diferente da que se vê no cordel”, completa. O cantor e compositor Antônio Carlos Belchior morreu em Santa Cruz do Sul (RS) em 30 de abril de 2017, com 70 anos, ao final de dez anos desaparecido da família, amigos, parceiros e fãs.

O livro

Belchior: a construção de um mito na literatura de cordel (RDS, 2025, 308 páginas) é o primeiro estudo sobre as biografias do cantor e compositor, cuja vida tem sido objeto de muitos livros e folhetos de cordel. “Talvez só o Rei do Baião Luiz Gonzaga tenha sido mais biografado em folhetos”, analisa o pesquisador. “A razão é que Belchior foi excêntrico  como cidadão e excepcional como artista, alguém fora da curva e passou a vida fazendo cavalo de pau”, conclui o autor. 


O autor

Também cearense, mas de Fortaleza, Alberto Perdigão é jornalista, mestre em Políticas Públicas e Sociedade. Desenvolve pesquisa sobre o folheto informativo da literatura de cordel e integra a Rede Folkcom de pesquisadores da folkcomunicação. É autor de sete livros, entre eles Política e Literatura de Cordel (2022) e Pretas e Pretos na Literatura de Cordel (2023).

Lançamento em Brasília

Belchior: a construção de um mito na literatura de cordel será lançado nesta quarta-feira (10), às 19 horas, no restaurante Beirute (109 Sul), como parte da programação Beira Literário. O autor conversará com leitores e autografará o livro. O exemplar custa R$ 70,00. O evento é aberto ao público.

segunda-feira, 15 de setembro de 2025

Livro: Tereza Cruvinel conta história e bastidores da criação da EBC e reflete sobre mídia e comunicação pública

A história  da Empresa Brasileira de Comunicação (EBC) contada por quem esteve à frente da sua implantação e foi a sua primeira gestora. Memória de um Desafio – A guerra da TV pública e a criação do sistema EBC combina as memórias da jornalista Tereza Cruvinel, depoimentos e reflexões sobre mídia, democracia e comunicação pública.

Hoje quem liga a TV Brasil, houve a Rádio Nacional, ou mesmo lê uma notícia distribuída pela Agência Brasil, não tem ideia da dificuldade de se implantar essa estrutura pública de Comunicação. O livro de Tereza traz subsídios importantes para os que se interessam pelo tema e será, com certeza, uma boa contribuição para a história da radiodifusão pública no Brasil.

Tudo começou em 2007, quando a proposta de criação de uma TV pública nacional, lançada pelo então ministro da Cultura, Gilberto Gil, agitou a mídia e o meio político, e gerou o movimento social que realizou o Fórum da TV Pública. O presidente Lula, em seu segundo mandato, comprometeu-se com a criação da emissora, defendida por cineastas e produtores audiovisuais, personalidades da cultura e da academia e entidades defensoras da democratização das comunicações.·.

No Congresso Nacional, a proposta foi aprovada após uma dura disputa política. O jornalista Franklin Martins, que havia se tornado ministro-chefe da Secom, foi encarregado por Lula da implantação do projeto, incorporando membros da equipe de Gil. Ele e Tereza, bem sucedidos no setor privado, haviam discordado dos rumos de um jornalismo que foi tomado pelo antipetismo e o combate a Lula. No grupo Globo ele foi diretor em Brasília e comentarista do Jornal Nacional. Ela tinha uma influente coluna em O Globo e era comentarista da Globonews.

Tereza Cruvinel (foto) não exagera quando fala em guerra da TV pública. Nos quatro anos seguintes, a convite de Lula e Franklin, liderou o processo de implantação como primeira presidente e fundadora da EBC. O cineasta Orlando Senna, da equipe de Gil, foi o primeiro diretor-geral.

A iniciativa enfrentou a hostilidade de quase toda a mídia (o que ela chama de bullying midiático), dos partidos de oposição e da extrema direita em ascensão, afora as dificuldades técnicas para implantar uma TV pública tardia em relação às TVs comerciais hegemônicas.

No livro, ela conta a história da EBC e da TV Brasil, da criação aos dias de hoje, passando pelo desmonte sob o governo Temer e o aparelhamento por Bolsonaro, após desistir de privatizar a empresa. Lula acaba de nomear um novo presidente da EBC, o jornalista André Basbaum, que vem da TV Record.

Tereza faz seu relato com seu traquejo de colunista política. Junta na moldura elementos da conjuntura da época, revela bastidores e comenta os conflitos internos em sua gestão, escancara as disputas com o Conselho Curador e aponta os colegas que mais atacaram o projeto.  Escreve na primeira pessoa, mas reconhece o tempo todo a natureza coletiva do trabalho e o papel de seus colegas e de Franklin.


Serviço:

Que: Lançamento: Memória de um Desafio – A guerra da TV pública e a criação do sistema EBC  de Tereza Cruvinel, Tagore Editora (208 páginas, R$ 67,00),

Quando: 17 de setembro, em Brasília, 7 de outubro, no Rio.

Onde:  
- Brasília, Bar Beirute (109 sul), a partir das 18h30.

- Rio, sede da ABI no dia, a partir das 18 horas.

 

      

 

terça-feira, 9 de setembro de 2025

Trincheira Popular: o novo programa da TV Comunitária de Brasília


O foco editorial de Trincheira Popular busca divulgar matérias para segmentos populares, assalariados, desempregados, sempre com a análise dos fatos. O programa será mensal, sendo exibido sempre na primeira sexta-feira de cada mês.

 

Por Chico Sant'Anna

O Canal Cidade Livre, a TV Comunitária de Brasília, tem nova atração. Estreou, dia 5/9, o programa Trincheira Popular. A meta é colocar questões e dilemas, exigindo ações e respostas. Com apresentação dos jornalistas Dorgil Silva e Camila Piacesi, o primeiro programa trouxe um resumo das principais notícias do Brasil e do Mundo, incluindo comentários, opiniões, história, cultura. É uma realização da TV Comunitária de Brasília com a parceria entre o Laboratório de Dados Brasil e a Topi Editora. A transmissão será mensal, sempre na primeira sexta-feira de cada mês, às 13h de Brasília.

Com uma agenda variada, que incluiu temas como Gaza, Ucrânia e América Latina, o primeiro programa de estreia recebeu o jornalista Hélio Doyle para analisar o julgamento de Bolsonaro e mais sete golpistas na a Ação Penal (AP) 2668: Alexandre Ramagem (ex-diretor geral da Abin), Almir Garnier Santos (ex-comandante da Marinha), Anderson Torres (ex-ministro da Justiça), Augusto Heleno (ex-ministro do Gabinete de Segurança Institucional), Mauro Cid (delator e ex-ajudante de ordens de Bolsonaro), Paulo Sérgio Nogueira (ex-ministro da Defesa) e Walter Braga Netto (ex-ministro da Casa Civil). O programa tratou também da repercussão do Tarifaço de Trump e as retaliações ao Poder Judiciário dos EUA e do Brasil.

O foco editorial de Trincheira Popular busca divulgar matérias para segmentos populares, assalariados, desempregados. Nas palavras de Dorgil Silva “a produção é dirigida aos que trabalham pela obtenção de dignidade, decorrente da própria luta, pessoal, e consequentemente coletiva, por uma vivência com valor, afastando todo tipo de violação.” O programa de estreia pode ser visto no youtube, basta clicar aqui.

Produtores

O LabDadosBrasil pesquisa informações em mídias de todos os continentes, especialmente as que revelem situações opressivas aos direitos humanos e dos povos, buscando visões críticas e projetos que grandes meios de comunicação não publiquem.

A Topi Editora destaca conceitos e ações que incentivem a comunhão, a distribuição adequada do trabalho e da riqueza, realça os valores teóricos, organizativos, políticos e ideológicos que promovam o respeito e a solidariedade entre as pessoas e os países.

TV Comunitária de Brasília

O Canal Cidade Livre - a TV Comunitária de Brasília – está no ar desde 13 de agosto de 1997. Ela transmite 24 horas por dia, com uma programação diferenciada em relação aos canais comerciais. O sinal está disponível no canal 12 da Net/Claro, no Youtube e também na página do facebook

terça-feira, 26 de agosto de 2025

As redes sociais e o Eu como mercadoria


"Quando o “eu” se transforma em ativo comercial, o risco não é apenas a alienação individual — é a desfiguração do espaço público e da democracia. Regular as plataformas é reumanizar o debate. É restituir ao cidadão a dignidade da palavra. E à política, o compromisso com o bem comum."


Por Israel Fernando de C. Bayma*

 

            Bem, pode-se até dizer que a Internet, desde os seus primórdios, surgiu como tecnologia para conexão de pessoas e com total liberdade de expressão, sem nenhum tipo de controle. Podemos ser categóricos: as redes sociais digitais, não. Já surgiram em plataformas de conexão e controle pelos seus proprietários e, sob essa fachada,  passaram a operar como máquinas de despojo da subjetividade humana. Em vez de simplesmente promoverem a comunicação, elas convertem emoções, desejos e a intimidade do indivíduo em mercadorias digitais.

            Nas redes sociais prevalece a banalização da intimidade com um grau extremo de mercantilização da vida íntima no capitalismo contemporâneo. Há uma lógica de mercantilização que transforma a vida íntima em commodity. E, nesse contexto, não é o corpo que está à venda, mas o tempo psíquico, o afeto, o desejo de reconhecimento e a autoimagem performada.

            As explicações para o que ocorre podem ser encontradas tanto em Marx como em formas mais ampliadas de pensadores como Zuboff, Fuchs, Bauman e Han.

            Em A Comunicação Social Eletrônica na Constituição de 1988, defendi que as redes sociais digitais, por sua natureza de difusão pública e alcance massivo, devem ser compreendidas como meios de comunicação social eletrônica — e, por isso, sujeitas ao regime jurídico de regulação previsto no art. 222, § 3.º, da Constituição de 1988. Esse dispositivo, embora positivado na Constituição, é uma norma de eficácia limitada, pois depende de lei específica regulamentadora para fixação dos parâmetros de eficácia jurídica – aplicabilidade, exigibilidade ou executoriedade normativa. Isso justifica a insistência para que seja elaborada uma norma regulamentadora das redes sociais digitais.

            Enquanto isso, em linha complementar, em Que Tal Retirar o Véu dos Algoritmos das Platafor­mas Digitais? , defendi que os algoritmos, ao operarem como filtros invisíveis da in­formação, es­truturam o debate público e têm interferido na formação da opinião e, por isso, também de­veriam estar su­jeitos a princípios constitucionais como transparência, pluralismo e controle democrático.

            Há mais de 15 anos, em uma entrevista concedida à revista do Fórum Nacional pela Democratização da Comunicação (FNDC), manifestei o meu receio de que a Internet viesse a ser dominada pelas grandes corporações multinacionais.

            Hoje estamos em um cenário pior do que ter a Internet controlada pelas corporações. Há uma constatação mais ampla: nas redes sociais, a subjetividade humana está convertida em mercadoria. A vida íntima, os afetos, o desejo de reconhecimento e até mesmo o ócio das pessoas estão sendo empacotados nas chamadas redes sociais em formatos digitalmente comercializáveis.

            Shoshana Zuboff definiu tudo isso como capitalismo de vigilância, conceito desenvolvido inicialmente em seu artigo “Big other: surveillance capitalism and the prospects of an information civilization” (Journal of Information Technology, 2015), e posteriormente aprofundado no livro The Age of Surveillance Capitalism: The Fight for a Human Future at the New Frontier of Power (2021).

            Para mim, é uma alienação contemporânea que pode ser compreendida também à luz de Marx, em Manuscritos Econômico-Filosóficos e O Capital – Livro 1, onde o pensador alemão denuncia a perda do “ser genérico” do trabalhador sob o regime da mais-valia. Nesse ambiente digital das redes sociais não apenas o conteúdo é alienado: o próprio sujeito é transformado em capital simbólico e emocional, explorado pelas plataformas das redes sociais que lucram com sua atenção, seu afeto e seus dados pessoais.

            Já Christian Fuchs denomina esse fenômeno play labour (trabalho-lazer) - “expressão de um novo espírito/ideologia do capitalismo” - em sua obra Social Media: A Critical Introduction (2014), explicando que o trabalho invisível da interação nas redes, embora pareça lazer, alimenta um sistema que extrai valor sem remuneração.

            As “liquidezes” de Zygmunt Bauman, em Vida para Consumo (2008) e Amor Líquido (2008), também observam que, na modernidade líquida, a identidade se dissolve em performances adaptáveis. “Os membros da sociedade de consumidores são eles próprios mercadorias de consumo, e é a qualidade de ser uma mercadoria de consumo que os torna membros autênticos dessa sociedade”, afirma Bauman. São as “comunidades de ocasião” construídas em torno de eventos, lives,  influencers.

            Byung-Chul Han radicaliza esse ponto em Psicopolítica (2014) e A Sociedade do Cansaço: o neoliberalismo e as novas técnicas de poder (2015). O sujeito de desempenho tornou-se explorador e explorado de si mesmo. “É quantificável, mensurável e controlável.” Vive sob a coação de maximizar sua presença, sua imagem, seu engajamento.

            Hoje, nas redes sociais tudo é espetáculo, a política virou meme, a dor virou conteúdo, e a existência virou interface. A direita brasileira – que continua reacionária - compreendeu isso. Aprendeu a operar nesse ecossistema emocional, onde o carisma vale mais que o conteúdo, e a viralidade mais que a coerência ou a verdade. Onde a lógica opaca e mercantilizada tem servido como canal de desinformação, radicalização e manipulação política, como nos episódios envolvendo o apoio indireto que dão ao atual presidente norte-americano. Há uma instrumentalização do espaço digital das redes sociais incompatível com uma regulação verdadeiramente democrática.

            Por outro lado, até recentemente, a esquerda brasileira parecia estar presa a uma lógica discursiva racional, falava, mas não engajava. Sabia, mas ainda pouco tinha conseguido reverberar. No entanto, hoje, os dados são mais claros: a imposição estapafúrdia de uma sobretaxa do presidente norte-americano contra as exportações brasileiras detonou uma reação em cadeia. O episódio não apenas amplificou exponencialmente a presença da esquerda nas redes sociais, como ecoou globalmente – com cobertura crítica nos grandes jornalões nacionais e estrangeiros que destacaram o caráter predatório da medida e expuseram os interesses da direita brasileira que a articularam.

            Nas plataformas das redes sociais, o crescimento de inserções positivas foi explosivo: menções positivas à esquerda e ao Governo brasileiro dispararam, vinculando a crise comercial ao projeto da direita mundial de desmonte soberano. Virou caso emblemático de como uma ofensa econômica pode, quando bem contestada, converter-se em capital político digital. Qual foi a diferença desta vez? A esquerda soube transformar números frios – os bilhões de dólares em perdas – em narrativa bem conduzida sobre defesa da soberania e da resistência do povo brasileiro.

            Pela primeira vez em anos, nas redes sociais, a esquerda brasileira não apenas reagiu – mas ditou os termos do debate, convertendo uma agressão política e econômica em capital político digital. Vejo que a regulação democrática das plataformas das redes sociais se torna urgente. O ambiente informacional contemporâneo exige regras. Regras que submetam os algoritmos à Constituição Federal de 1988, como propus em meus trabalhos anteriores. Regras que impeçam que a liberdade de expressão seja capturada por modelos de negócio que favorecem o ódio, o extremismo e a manipulação. Regras de auditoria algorítmica, por exemplo. Precisamos resgatar a fala como espaço de alteridade, a escuta como ato político, e a comunicação como direito — não como mercadoria.

            Quando o “eu” se transforma em ativo comercial, o risco não é apenas a alienação individual — é a desfiguração do espaço público e da democracia. Regular as plataformas é reumanizar o debate. É restituir ao cidadão a dignidade da palavra. E à política, o compromisso com o bem comum.

 

* Engenheiro eletrônico e advogado.