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segunda-feira, 9 de março de 2026

Livro sobre a fabricação dos invisíveis na história do Brasil pode ser baixado gratuitamente


O livro “Quem somos nós na fila do pão? A fabricação dos invisíveis na história do Brasil” pode ser baixado e lido gratuitamente por meio desse link.


O livro “Quem somos nós na fila do pão? A fabricação dos invisíveis na história do Brasil”, lançado pelo jornalista José Cristian Góes em 2022 e com todas as edições impressas esgotadas, será agora distribuído gratuitamente no formato digital, pela Mangue Jornalismo de Sergipe.

Editado pela Edise, “Quem somos nós na fila do pão?” é parte da tese de Doutorado em Comunicação e Sociabilidade defendida pelo jornalista Cristian Góes na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). No livro, ele propõe um percurso crítico para discutir o “Outro” e as identidades, recorrendo a alguns elementos da História.

“Busquei mergulhar na trajetória da formação nacional para pensar sobre quem é o Outro em nós”, informou Cristian.

No trabalho emergem discussões sobre as manipulações identitárias, genocídios, escravização indígena e africana, o nascimento dos ‘Ninguéns’. A violência e o racismo são temas vitais no livro. Cristian Góes trata da fantasia da nação e da pátria, da participação da igreja na pedagogia racista e a construção ideológica dos invisíveis para consolidar a ideia de país.

“O Outro é fabricado no Brasil como repulsa, prevalecendo como a Diferença contra nós, que será sempre pobre, indígena, negra, criminosa, suja, doente, ameaça constante em permanente controle e extermínio. Todavia, a elite brasileira também produziu um Outro como desejo, referência, a ser imitado”, analisa Cristian Góes.

Para o autor, há um acerto de contas histórico entre nós que ainda está em aberto e que precisa ser enfrentado. Além desse livro, a tese de Cristian Góes foi dividida em outros dois livros:

·        “A Comunidade Invisível”, editado pela Ponte Editora, em Portugal.

·        “O jornalismo e a experiência do invisível: teoria, método e estudo de caso”, pela Editora Appris, de Curitiba/PR.

O livro “Quem somos nós na fila do pão? A fabricação dos invisíveis na história do Brasil” pode ser baixado e lido gratuitamente por meio desse link.

O autor:

José Cristian Góes é jornalista, doutor em Comunicação pela UFMG, com doutoramento sanduíche na Universidade do Minho/Braga, Portugal. É mestre em Comunicação pela UFS. 

Foi repórter e colunista em jornais, revistas e portais e trabalhou em assessoria de comunicação. Foi secretário de Comunicação da prefeitura de Aracaju, presidente do Sindicato dos Jornalistas de Sergipe e membro da Comissão Nacional de Ética dos Jornalistas. 

É servidor público federal e coordena a Mangue Jornalismo.

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2026

Capacitação gratuita em IA para Youtubers e videomakers

As inscrições podem ser feitas até 29 de março de 2026, por meio desse link. Ao longo do programa, os participantes. A primeira lista de aprovados será divulgada entre 31 de março e 6 de abril, seguida por uma segunda chamada entre 8 e 12 de abril.

Por Chico Sant’Anna

Cinco mil bolsas integrais estão sendo ofertadas a criadores de conteúdo veiculados na plataforma Youtube para aprenderem a planejar, produzir e publicar vídeos com método e consistência com apoio da Inteligência Artificial (IA).

A capacitação é uma parceria da plataforma de educação aberta DIO e o banco Santander. Ela visa ensinar o uso da IA desde a organização das ideias, criação de roteiros mais envolventes, desenvolver identidade visual coerente e revisar conteúdos de forma estratégica.

Ela está formatada por meio de videoaulas, exercícios práticos e desafios hands-on (atividades práticas e imersivas em que os participantes aprendem fazendo, em vez de apenas consumirem conteúdo teórico). Ao todo, será uma jornada de 38 horas. Ao final do programa de treinamento intensivo e imersivo (bootcamp), os participantes terão um canal ativo e organizado de forma profissional, com o primeiro vídeo publicado, identidade visual aplicada e um sistema prático para manter a produção de conteúdo. Também receberão um banco de prompts estratégicos para apoiar a evolução contínua do canal.

As inscrições podem ser feitas até 29 de março de 2026, por meio desse link. Ao longo do programa, os participantes. A primeira lista de aprovados será divulgada entre 31 de março e 6 de abril, seguida por uma segunda chamada entre 8 e 12 de abril. A trilha de estudos será liberada em 20 de abril de 2026, e a conclusão do programa, com certificação, ocorrerá até 21 de junho de 2026.

terça-feira, 9 de dezembro de 2025

Livro: biografia de Belchior no Beirute da Asa Sul

Por Chico Sant'Anna 

Cearense, de Sobral, Belchior ganhou o Brasil como apenas um jovem latino-americano. Em 1971, venceu o IV Festival Universitário da Canção Popular, realizado no Rio de Janeiro, com a música Na Hora do Almoço. De lá para cá, compôs 218 músicas, materializadas em 348 diferentes gravações dele e de outros intérpretes. Gravou, pelo menos 14 álbuns de estúdio, e lançou outros trabalhos ao longo de sua carreira, totalizando mais de 30 álbuns em sua discografia. Falecido em abril de 2017, ganha agora uma nova biografia, de autoria do jornalista Alberto Perdigão.

O livro Belchior: a construção de um mito na literatura de cordel é o resultado de uma pesquisa que analisa 28 biografias do Belchior, nove publicadas em livro e 19 em folhetos de cordel.

“Nesta síntese de biografias, trago o que há de mais picante e surpreendente na vida, obra, desaparecimento e morte do Belchior”, adianta Perdigão. “O estudo comparativo mostra que o Belchior do livro é uma construção simbólica bem diferente da que se vê no cordel”, completa. O cantor e compositor Antônio Carlos Belchior morreu em Santa Cruz do Sul (RS) em 30 de abril de 2017, com 70 anos, ao final de dez anos desaparecido da família, amigos, parceiros e fãs.

O livro

Belchior: a construção de um mito na literatura de cordel (RDS, 2025, 308 páginas) é o primeiro estudo sobre as biografias do cantor e compositor, cuja vida tem sido objeto de muitos livros e folhetos de cordel. “Talvez só o Rei do Baião Luiz Gonzaga tenha sido mais biografado em folhetos”, analisa o pesquisador. “A razão é que Belchior foi excêntrico  como cidadão e excepcional como artista, alguém fora da curva e passou a vida fazendo cavalo de pau”, conclui o autor. 


O autor

Também cearense, mas de Fortaleza, Alberto Perdigão é jornalista, mestre em Políticas Públicas e Sociedade. Desenvolve pesquisa sobre o folheto informativo da literatura de cordel e integra a Rede Folkcom de pesquisadores da folkcomunicação. É autor de sete livros, entre eles Política e Literatura de Cordel (2022) e Pretas e Pretos na Literatura de Cordel (2023).

Lançamento em Brasília

Belchior: a construção de um mito na literatura de cordel será lançado nesta quarta-feira (10), às 19 horas, no restaurante Beirute (109 Sul), como parte da programação Beira Literário. O autor conversará com leitores e autografará o livro. O exemplar custa R$ 70,00. O evento é aberto ao público.

segunda-feira, 15 de setembro de 2025

Livro: Tereza Cruvinel conta história e bastidores da criação da EBC e reflete sobre mídia e comunicação pública

A história  da Empresa Brasileira de Comunicação (EBC) contada por quem esteve à frente da sua implantação e foi a sua primeira gestora. Memória de um Desafio – A guerra da TV pública e a criação do sistema EBC combina as memórias da jornalista Tereza Cruvinel, depoimentos e reflexões sobre mídia, democracia e comunicação pública.

Hoje quem liga a TV Brasil, houve a Rádio Nacional, ou mesmo lê uma notícia distribuída pela Agência Brasil, não tem ideia da dificuldade de se implantar essa estrutura pública de Comunicação. O livro de Tereza traz subsídios importantes para os que se interessam pelo tema e será, com certeza, uma boa contribuição para a história da radiodifusão pública no Brasil.

Tudo começou em 2007, quando a proposta de criação de uma TV pública nacional, lançada pelo então ministro da Cultura, Gilberto Gil, agitou a mídia e o meio político, e gerou o movimento social que realizou o Fórum da TV Pública. O presidente Lula, em seu segundo mandato, comprometeu-se com a criação da emissora, defendida por cineastas e produtores audiovisuais, personalidades da cultura e da academia e entidades defensoras da democratização das comunicações.·.

No Congresso Nacional, a proposta foi aprovada após uma dura disputa política. O jornalista Franklin Martins, que havia se tornado ministro-chefe da Secom, foi encarregado por Lula da implantação do projeto, incorporando membros da equipe de Gil. Ele e Tereza, bem sucedidos no setor privado, haviam discordado dos rumos de um jornalismo que foi tomado pelo antipetismo e o combate a Lula. No grupo Globo ele foi diretor em Brasília e comentarista do Jornal Nacional. Ela tinha uma influente coluna em O Globo e era comentarista da Globonews.

Tereza Cruvinel (foto) não exagera quando fala em guerra da TV pública. Nos quatro anos seguintes, a convite de Lula e Franklin, liderou o processo de implantação como primeira presidente e fundadora da EBC. O cineasta Orlando Senna, da equipe de Gil, foi o primeiro diretor-geral.

A iniciativa enfrentou a hostilidade de quase toda a mídia (o que ela chama de bullying midiático), dos partidos de oposição e da extrema direita em ascensão, afora as dificuldades técnicas para implantar uma TV pública tardia em relação às TVs comerciais hegemônicas.

No livro, ela conta a história da EBC e da TV Brasil, da criação aos dias de hoje, passando pelo desmonte sob o governo Temer e o aparelhamento por Bolsonaro, após desistir de privatizar a empresa. Lula acaba de nomear um novo presidente da EBC, o jornalista André Basbaum, que vem da TV Record.

Tereza faz seu relato com seu traquejo de colunista política. Junta na moldura elementos da conjuntura da época, revela bastidores e comenta os conflitos internos em sua gestão, escancara as disputas com o Conselho Curador e aponta os colegas que mais atacaram o projeto.  Escreve na primeira pessoa, mas reconhece o tempo todo a natureza coletiva do trabalho e o papel de seus colegas e de Franklin.


Serviço:

Que: Lançamento: Memória de um Desafio – A guerra da TV pública e a criação do sistema EBC  de Tereza Cruvinel, Tagore Editora (208 páginas, R$ 67,00),

Quando: 17 de setembro, em Brasília, 7 de outubro, no Rio.

Onde:  
- Brasília, Bar Beirute (109 sul), a partir das 18h30.

- Rio, sede da ABI no dia, a partir das 18 horas.

 

      

 

terça-feira, 9 de setembro de 2025

Trincheira Popular: o novo programa da TV Comunitária de Brasília


O foco editorial de Trincheira Popular busca divulgar matérias para segmentos populares, assalariados, desempregados, sempre com a análise dos fatos. O programa será mensal, sendo exibido sempre na primeira sexta-feira de cada mês.

 

Por Chico Sant'Anna

O Canal Cidade Livre, a TV Comunitária de Brasília, tem nova atração. Estreou, dia 5/9, o programa Trincheira Popular. A meta é colocar questões e dilemas, exigindo ações e respostas. Com apresentação dos jornalistas Dorgil Silva e Camila Piacesi, o primeiro programa trouxe um resumo das principais notícias do Brasil e do Mundo, incluindo comentários, opiniões, história, cultura. É uma realização da TV Comunitária de Brasília com a parceria entre o Laboratório de Dados Brasil e a Topi Editora. A transmissão será mensal, sempre na primeira sexta-feira de cada mês, às 13h de Brasília.

Com uma agenda variada, que incluiu temas como Gaza, Ucrânia e América Latina, o primeiro programa de estreia recebeu o jornalista Hélio Doyle para analisar o julgamento de Bolsonaro e mais sete golpistas na a Ação Penal (AP) 2668: Alexandre Ramagem (ex-diretor geral da Abin), Almir Garnier Santos (ex-comandante da Marinha), Anderson Torres (ex-ministro da Justiça), Augusto Heleno (ex-ministro do Gabinete de Segurança Institucional), Mauro Cid (delator e ex-ajudante de ordens de Bolsonaro), Paulo Sérgio Nogueira (ex-ministro da Defesa) e Walter Braga Netto (ex-ministro da Casa Civil). O programa tratou também da repercussão do Tarifaço de Trump e as retaliações ao Poder Judiciário dos EUA e do Brasil.

O foco editorial de Trincheira Popular busca divulgar matérias para segmentos populares, assalariados, desempregados. Nas palavras de Dorgil Silva “a produção é dirigida aos que trabalham pela obtenção de dignidade, decorrente da própria luta, pessoal, e consequentemente coletiva, por uma vivência com valor, afastando todo tipo de violação.” O programa de estreia pode ser visto no youtube, basta clicar aqui.

Produtores

O LabDadosBrasil pesquisa informações em mídias de todos os continentes, especialmente as que revelem situações opressivas aos direitos humanos e dos povos, buscando visões críticas e projetos que grandes meios de comunicação não publiquem.

A Topi Editora destaca conceitos e ações que incentivem a comunhão, a distribuição adequada do trabalho e da riqueza, realça os valores teóricos, organizativos, políticos e ideológicos que promovam o respeito e a solidariedade entre as pessoas e os países.

TV Comunitária de Brasília

O Canal Cidade Livre - a TV Comunitária de Brasília – está no ar desde 13 de agosto de 1997. Ela transmite 24 horas por dia, com uma programação diferenciada em relação aos canais comerciais. O sinal está disponível no canal 12 da Net/Claro, no Youtube e também na página do facebook

terça-feira, 26 de agosto de 2025

As redes sociais e o Eu como mercadoria


"Quando o “eu” se transforma em ativo comercial, o risco não é apenas a alienação individual — é a desfiguração do espaço público e da democracia. Regular as plataformas é reumanizar o debate. É restituir ao cidadão a dignidade da palavra. E à política, o compromisso com o bem comum."


Por Israel Fernando de C. Bayma*

 

            Bem, pode-se até dizer que a Internet, desde os seus primórdios, surgiu como tecnologia para conexão de pessoas e com total liberdade de expressão, sem nenhum tipo de controle. Podemos ser categóricos: as redes sociais digitais, não. Já surgiram em plataformas de conexão e controle pelos seus proprietários e, sob essa fachada,  passaram a operar como máquinas de despojo da subjetividade humana. Em vez de simplesmente promoverem a comunicação, elas convertem emoções, desejos e a intimidade do indivíduo em mercadorias digitais.

            Nas redes sociais prevalece a banalização da intimidade com um grau extremo de mercantilização da vida íntima no capitalismo contemporâneo. Há uma lógica de mercantilização que transforma a vida íntima em commodity. E, nesse contexto, não é o corpo que está à venda, mas o tempo psíquico, o afeto, o desejo de reconhecimento e a autoimagem performada.

            As explicações para o que ocorre podem ser encontradas tanto em Marx como em formas mais ampliadas de pensadores como Zuboff, Fuchs, Bauman e Han.

            Em A Comunicação Social Eletrônica na Constituição de 1988, defendi que as redes sociais digitais, por sua natureza de difusão pública e alcance massivo, devem ser compreendidas como meios de comunicação social eletrônica — e, por isso, sujeitas ao regime jurídico de regulação previsto no art. 222, § 3.º, da Constituição de 1988. Esse dispositivo, embora positivado na Constituição, é uma norma de eficácia limitada, pois depende de lei específica regulamentadora para fixação dos parâmetros de eficácia jurídica – aplicabilidade, exigibilidade ou executoriedade normativa. Isso justifica a insistência para que seja elaborada uma norma regulamentadora das redes sociais digitais.

            Enquanto isso, em linha complementar, em Que Tal Retirar o Véu dos Algoritmos das Platafor­mas Digitais? , defendi que os algoritmos, ao operarem como filtros invisíveis da in­formação, es­truturam o debate público e têm interferido na formação da opinião e, por isso, também de­veriam estar su­jeitos a princípios constitucionais como transparência, pluralismo e controle democrático.

            Há mais de 15 anos, em uma entrevista concedida à revista do Fórum Nacional pela Democratização da Comunicação (FNDC), manifestei o meu receio de que a Internet viesse a ser dominada pelas grandes corporações multinacionais.

            Hoje estamos em um cenário pior do que ter a Internet controlada pelas corporações. Há uma constatação mais ampla: nas redes sociais, a subjetividade humana está convertida em mercadoria. A vida íntima, os afetos, o desejo de reconhecimento e até mesmo o ócio das pessoas estão sendo empacotados nas chamadas redes sociais em formatos digitalmente comercializáveis.

            Shoshana Zuboff definiu tudo isso como capitalismo de vigilância, conceito desenvolvido inicialmente em seu artigo “Big other: surveillance capitalism and the prospects of an information civilization” (Journal of Information Technology, 2015), e posteriormente aprofundado no livro The Age of Surveillance Capitalism: The Fight for a Human Future at the New Frontier of Power (2021).

            Para mim, é uma alienação contemporânea que pode ser compreendida também à luz de Marx, em Manuscritos Econômico-Filosóficos e O Capital – Livro 1, onde o pensador alemão denuncia a perda do “ser genérico” do trabalhador sob o regime da mais-valia. Nesse ambiente digital das redes sociais não apenas o conteúdo é alienado: o próprio sujeito é transformado em capital simbólico e emocional, explorado pelas plataformas das redes sociais que lucram com sua atenção, seu afeto e seus dados pessoais.

            Já Christian Fuchs denomina esse fenômeno play labour (trabalho-lazer) - “expressão de um novo espírito/ideologia do capitalismo” - em sua obra Social Media: A Critical Introduction (2014), explicando que o trabalho invisível da interação nas redes, embora pareça lazer, alimenta um sistema que extrai valor sem remuneração.

            As “liquidezes” de Zygmunt Bauman, em Vida para Consumo (2008) e Amor Líquido (2008), também observam que, na modernidade líquida, a identidade se dissolve em performances adaptáveis. “Os membros da sociedade de consumidores são eles próprios mercadorias de consumo, e é a qualidade de ser uma mercadoria de consumo que os torna membros autênticos dessa sociedade”, afirma Bauman. São as “comunidades de ocasião” construídas em torno de eventos, lives,  influencers.

            Byung-Chul Han radicaliza esse ponto em Psicopolítica (2014) e A Sociedade do Cansaço: o neoliberalismo e as novas técnicas de poder (2015). O sujeito de desempenho tornou-se explorador e explorado de si mesmo. “É quantificável, mensurável e controlável.” Vive sob a coação de maximizar sua presença, sua imagem, seu engajamento.

            Hoje, nas redes sociais tudo é espetáculo, a política virou meme, a dor virou conteúdo, e a existência virou interface. A direita brasileira – que continua reacionária - compreendeu isso. Aprendeu a operar nesse ecossistema emocional, onde o carisma vale mais que o conteúdo, e a viralidade mais que a coerência ou a verdade. Onde a lógica opaca e mercantilizada tem servido como canal de desinformação, radicalização e manipulação política, como nos episódios envolvendo o apoio indireto que dão ao atual presidente norte-americano. Há uma instrumentalização do espaço digital das redes sociais incompatível com uma regulação verdadeiramente democrática.

            Por outro lado, até recentemente, a esquerda brasileira parecia estar presa a uma lógica discursiva racional, falava, mas não engajava. Sabia, mas ainda pouco tinha conseguido reverberar. No entanto, hoje, os dados são mais claros: a imposição estapafúrdia de uma sobretaxa do presidente norte-americano contra as exportações brasileiras detonou uma reação em cadeia. O episódio não apenas amplificou exponencialmente a presença da esquerda nas redes sociais, como ecoou globalmente – com cobertura crítica nos grandes jornalões nacionais e estrangeiros que destacaram o caráter predatório da medida e expuseram os interesses da direita brasileira que a articularam.

            Nas plataformas das redes sociais, o crescimento de inserções positivas foi explosivo: menções positivas à esquerda e ao Governo brasileiro dispararam, vinculando a crise comercial ao projeto da direita mundial de desmonte soberano. Virou caso emblemático de como uma ofensa econômica pode, quando bem contestada, converter-se em capital político digital. Qual foi a diferença desta vez? A esquerda soube transformar números frios – os bilhões de dólares em perdas – em narrativa bem conduzida sobre defesa da soberania e da resistência do povo brasileiro.

            Pela primeira vez em anos, nas redes sociais, a esquerda brasileira não apenas reagiu – mas ditou os termos do debate, convertendo uma agressão política e econômica em capital político digital. Vejo que a regulação democrática das plataformas das redes sociais se torna urgente. O ambiente informacional contemporâneo exige regras. Regras que submetam os algoritmos à Constituição Federal de 1988, como propus em meus trabalhos anteriores. Regras que impeçam que a liberdade de expressão seja capturada por modelos de negócio que favorecem o ódio, o extremismo e a manipulação. Regras de auditoria algorítmica, por exemplo. Precisamos resgatar a fala como espaço de alteridade, a escuta como ato político, e a comunicação como direito — não como mercadoria.

            Quando o “eu” se transforma em ativo comercial, o risco não é apenas a alienação individual — é a desfiguração do espaço público e da democracia. Regular as plataformas é reumanizar o debate. É restituir ao cidadão a dignidade da palavra. E à política, o compromisso com o bem comum.

 

* Engenheiro eletrônico e advogado.

segunda-feira, 16 de junho de 2025

A Flotilha que virou navio fantasma na mídia nacional

 

Por Chico Sant’Anna*

Nas redes sociais foi possível acompanhar dia-a-dia a jornada de doze jovens que desejaram singrar as águas do Mediterrâneo para denunciar um genocídio que se perpetra contra o povo palestino na Faixa de Gaza. O barco partiu da Itália em 1º de junho para conscientizar sobre as condições de fome em Gaza. Mais do que levar donativos, alimentos, próteses ortopédicas infantis, a meta era elevar o conhecimento público sobre o sofrimento do povo palestino de Gaza, submetido há mais de uma década a um bloqueio injusto e desumano por Israel. Segundo dados do Escritório da ONU para Coordenação de Assuntos Humanitários (OCHA), 1,3 milhões de habitantes de Gaza dependem da ajuda internacional para sobreviver

Originalmente, era para ser outra embarcação. Entretanto, o barco Conscience, da coalizão internacional Flotilha da Liberdade, foi atacado por drones na madrugada da sexta-feira (2/5), na ilha de Malta. Os ativistas deram sequência em um veleiro de nome Madeleine. O nome é atribuído a uma pescadora artesanal palestina, que ainda busca no Mediterrâneo alimentos para seu povo. Mas chama a atenção o fato de Madalena ter sido a mais importante das mulheres que seguiram a jornada de Jesus Cristo, desde a Galiléia, e que ao lado de Maria presenciou a crucificação pelos romanos.

Grande mídia brasileira, praticamente, ignorou os dias
que sucederam à tomada de assalto pelos forças de Israel
da Flotinha da Liberdade, Nem a presença de uma brasileiro
dentre os ativistas presos motivou
uma cobertura de melhor qualidade.
A jornada de Madeleine não foi ignorada pelos militares de Israel. Relatos postados nas redes sociais pelos integrantes da jornada davam conta que ainda em águas internacionais foram alvo de ataques de drones que, segundo suas denúncias, lançavam sobre o veleiro Madelein líquidos químicos.

Faltando um dia para chegar a Gaza, novo ataque aéreo precedeu a tomada do barco. Embora estivessem em águas internacionais, todos foram detidos por forças de assalto israelenses. Desde então, o tema praticamente desapareceu na mídia brasileira, embora um dos tripulantes fosse o comunicador brasiliense Thiágo Ávila, um dos coordenadores da missão.

De diferentes nacionalidades, essa dúzia de Dons Quixotes colocou sob risco a própria integridade física para demover os moinhos da indiferença das grandes potencias internacionais. Queriam dar um grito em alto e bom som, capaz de ser ouvido nos cinco continentes. Sua missão pacifica: denunciar mundialmente o que se passa com dois milhões de palestinos, muitas mulheres e crianças, que lutam cotidianamente contra a fome e as balas. Ao lançar-se nessa jornada esperavam pautar na chamada mainstream media mundial um tenebroso tema que parece estar se naturalizando cotidianamente nas páginas de jornais, nas telas do telejornalismo e nas ondas radiofônicas.

A grande imprensa brasileira deu pouco ou quase nenhum espaço à missão dos pacifistas. Provavelmente Gandhi sofreu da mesma indiferença quando lutava pela independência da Índia, ocupada pelos britânicos. A cobertura da jornada foi praticamente inexistente. Apenas as redes sociais, em especial o Instagram, cobriam o cotidiano da Flotilha da Liberdade. O telejornal de maior audiência do Brasil, o Jornal Nacional da TV Globo, se limitou a dar uma “lapada” – termo que designa uma nota jornalística curta, com narração em off, no dia em que as tropas israelenses tomaram de assalto o pequeno veleiro.

Com correspondentes no mundo inteiro, inclusive em Israel, não trouxe nenhuma repercussão. Imagens disponíveis nas redes sociais, praticamente, não foram usadas. Um vídeo compartilhado pela Coalizão Flotilha da Liberdade (FFC) mostrou os ativistas sentados com coletes salva-vidas e as mãos levantadas ao ar enquanto as forças israelenses entravam no barco. Os passageiros podiam ser vistos jogando celulares ao mar.

No dia seguinte, o Jornal Hoje, da mesma emissora, se limitou a noticiar a libertação da ativista ambiental sueca Greta Thunberg, também presa pelas tropas israelenses. Nem mencionou o nome de Thiago Ávila. Israel foi inteligente em deportar a pessoa com maior visibilidade internacional, dessa maneira, contribuía para desmobilizar correspondentes das grandes agências internacionais.

A tática parece ter dado o resultado esperado. Dois dias depois, mesmo com a manutenção da prisão do brasiliense Thiago Ávila – agora em solitária – o tema não mais sensibilizava os gatekepers tupiniquins que, parece, desagendaram as notícias sobre os onze pacifistas que permaneceram presos. Nem mesmo as agendas e iniciativas oficiais do governo brasileiro, no Itamaraty e no Palácio do Planalto, sensibilizaram jornalisticamente as principais mídias brasileiras. Salva e honrada exceção do Correio Braziliense e, em parte o portal Metropoles, veículos da Capital Federal, onde nasceu e mora Thiago Ávila com sua família.

A postura da maioria dos veículos da imprensa brasileira rasga todos os livros de técnica jornalística. Ineditismo e proximidade geográfica são regrinhas básicas de noticiabilidade que se aprende nos manuais universitários. Além disso, ensino os especialistas, a seleção das informações a serem divulgadas deverem ser guiadas por valores sociais,[1] mas no interior da imprensa, os conteúdos são avaliados em função da origem dos fatos, da fonte que disponibiliza as informações e pode se dizer também em função de quem será incomodado com a difusão de determinado tema.[2] A ingerência externa no processo de newsmaking acontece com maior ênfase quanto aos aspectos de propriedade, de noticiabilidade, e de inclinação, o ângulo de abordagem da informação.[3]

O que se viu na jornada da Flotilha da Liberdade foi mais do que um caminhada pelo bem estar dos palestinos. Nas águas do Mediterrâneo uma segunda batalha se fez presente. A luta pela visibilidade pública. Ao se lançarem ao mar, os ativistas queriam interferir nos critérios de noticiabilidade, forçar a porta vigiada pelos gatekeeper. 

Para subverter o padrão de relações, garantir o êxito de ter selecionado um tema de seu interesse e obter a aparência midiática, alguns atores sociais elaboram estratégias bastante complexas. Tradicionalmente, se valem de uma técnica denominada pelos pesquisadores em Comunicação de image choque. Buscavam apelar aos sentimentos, às emoções, a sensibilidade e a simpatia do espectador/leitor/internauta. Tais técnicas visam dotar o discurso do sentido desejado, tocar dimensões sensoriais e cognitivas do cidadão comum e, por via de consequência dos meios de Comunicação.

A grande mídia brasileira, contudo, ignorou as regras das cartilha de jornalismo. Curiosamente, o site da BBC Brasil – veículo britânico – foi um dos principais a produzir e difundir noticiário denso, inclusive focando em ativistas não europeus que estavam a bordo.

Por que será que o é notícia para a BBC difundir para todos os continentes não sensibiliza a mídia nacional? Certamente não foi pela falta de matéria prima, de informações e mesmo de imagens, pois além das agências internacionais de notícias, a Coalizão Flotilha da Liberdade (FFC) cotidianamente disponibilizava material via plataformas de redes sociais. Não foram poucos os veículos que fizeram entrevistas com os ativistas nos dias que antecederam o ataque de Israel.

 Na grande maioria dos veículos da mídia nacional,
a prisão em solitária, a deportação e a chegada
de Thiago Ávila ao Brasil foram
fatos ignorados ou tratados como registros de menor
importância. Pior, ignorou-se as marcas
 e hematomas no corpo dele,
cicatrizes atribuídas a sessões de tortura
física a que teria sido submetido,
inclusive com uso de aparelhos de eletrochoque.
Imagens do Instagram de Thiago Ávila
A jornada de Thiago Ávila, que pela proximidade e pelo fato de ele ser um dos coordenadores, deveria ter sido melos acompanhada pela imprensa tradicional. Essa ignorou, na grande maioria, sua prisão solitária, a deportação e sua chegada ao Brasil. Pior, ignorou as marcas e hematomas em seu corpo que parecem indicar tortura física com uso de aparelhos de eletrochoque.

Mesmo as emissoras de TV e grande parte da imprensa local da Capital Federal - exceto casos especiais como o do Correio Braziliense - onde vive Thiago Ávila e onde estão os órgãos federais e a Embaixada de Israel, pouco ou nada informaram sobre os desdobramentos pós prisão por Israel.

Será que essa invisibilidade proporcionada pela imprensa brasileira fruto de uma eventual postura de maior simpatia a Israel do que aos Palestinos? Porquê ignorar ações que se opõe ao Estado Judeu? Serão interesses econômicos? Xenofobia? Lucratividade?

Não tenho a resposta, mas num mundo em que a circulação de informação é cada vez mais um ação de poder político e econômico, como numa luta de David contra Golias, os pequenos, recomenda o sociólogo francês Olivier Voirol, recorrer cada vez mais a métodos de obtenção de visibilidade, formas de criação de eventos, que perturbem os arranjos político midiáticos em vigor.[4]


* Jornalista Profissional, Mestre em Comunicação pela Universidade de Brasília e Doutor em Ciências da Informação e da Comunicação pela Universidade de Rennes 1, na França

[1] FERRY, Jean-Marc, (1991). Les transformations de la publicité politique. In: Hermes, N° 4, Le nouvel espace public, pp. 15 – 26, Paris, CNRS, p.25.

[2] MATHIEN, Michel, (1992). Les journalistes et le système médiatique, Paris, Hachete, p. 180-81.

[3] RIEFFEL, Rémy, (1984). L’élite des journalistes, Paris, PUF, p 130

[4] VOIROL, Olivier, (2005). Les luttes pour la visibilité – Esquisse d’une problématique. In : Visibilité/Invisibilité, Réseaux vol. 23, n° 129-130, pp 89-121, Paris, FT R&D/Lavoisier. p.103.