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quinta-feira, 18 de junho de 2026

Pequena e média empresa jornalística fora do foco dos prêmios do Sebrae

Instituição focada no pequeno e médio empreendedor lança prêmio jornalístico sem categoria específica para a mídia alternativa. Rádios e TVs comunitárias, jornais de bairros, sites e blogs são obrigados a concorrer, de igual para igual, com os jornalões, as redes nacionais de TV e Rádio e poderosos sites informativos empresariais.


Por Chico Sant’Anna[i]. Publicado simultaneamente no Observatório da Imprensa 


O Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae) é uma instituição de mais de meio século de existência. Criada em 1972, como um Centro vinculado ao então Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico (BNDE) - ainda não tinha o S de social – a instituição nasceu para fomentar e assessorar os pequenos e médios empresários. Atendendo à quase um milhão de empreendedores em todo o país, o Sebrae afirma ter por missão, segundo seu portal institucional, a promoção da competitividade e o desenvolvimento sustentável de micro e pequenas empresas, estimulando o empreendedorismo. Trata-se de uma instituição cuja marca é bem captada e avaliada pela opinião pública. Ao longo da história, o Sebrae sempre soube construir um conceito sobre a importância de se promover os pequenos negócios, se valendo fortemente dos veículos de comunicação, em especial da imprensa. No jargão jornalístico, sempre soube plantar a pauta.

Este ano, pela 13ª consecutiva, é promovido o Prêmio Sebrae de Jornalismo. A iniciativa, que em 2026 chega à 13ª edição, “está posicionada como uma vitrine fundamental para produções jornalísticas que dão visibilidade aos pequenos negócios em todo o Brasil” – comenta release do Sebrae.

Em todo o país, alcançou 3.759 inscrições. A participação dos profissionais abrange as categorias de Texto, Áudio, Vídeo e Fotojornalismo, não há diferenciação por tamanho do meio informativo. Apenas para o Jornalismo Universitário existe uma categoria diferenciada. Paradoxalmente, o certame jornalístico do Sebrae, que tem por objetivo promover os pequenos e médios negócios, não possui nenhuma categoria voltada à imprensa alternativa. Será que não existe interesse em promover a “competitividade e o desenvolvimento sustentável de micro e pequenas empresas” jornalísticas e midiáticas, de “estimulando o empreendedorismo” delas?

Rádios e TVs comunitárias, jornais de bairro, sites, blogs, todos estes tipos de meios de comunicação alternativos se desejarem concorrer no prêmio Sebrae, terão que fazê-lo de igual para igual com a chamada mainstream media, ou seja, os grandes jornalões, as redes nacionais de rádio e televisão, os grandes portais. Não é necessário gastar argumentos para demonstrar que é uma concorrência desleal. Haja visto os recursos tecnológicos e humanos que cada tipo de mídia dispõe.

O paradoxal aqui é termos uma instituição, que tem por meta fortalecer os pequenos e médios empreendimentos, ignorar a pequena e média imprensa existente neste país. Só o universo de rádios comunitárias legalizadas pelo Ministério das Comunicações ultrapassa a casa de quatro mil. O que leva o Sebrae a desconsiderar a existência desta imprensa alternativa? O que ela noticia não teria peso ou valor cognitivo suficiente para os anseios do Prêmio Sebrae?

Organizações internacionais, possuem uma abordagem diferenciada e inteligente junto à mídia alternativa. São cientes de que em determinadas localidades, em determinados públicos, o que chega aos cidadãos são os informes do que o norte-americano Dan Gillmor cunhou de grassroots media[ii]. Se valendo do conceito, que em português se refere às origens de algum fenômeno, poderíamos traduzir por um jornalismo raiz, Gillmor faz referência a um “jornalismo cidadão:” O autor inglês Cris Atton[iii] (2002: 143), divide os veículos alternativos em dois grupos: a advocacy media, que atua em defesa de causas sociais, e os grassroots media, que provocariam uma revolução maior no que tange a introdução de novos valores de noticiabilidade, “news values”.

Instituições internacionais, como a Unicef, a Unaids e a Organização Mundial de Saúde, atuam permanentemente junto a essas emissoras, buscando parceria, fomentando-as, por meio do fornecimento de conteúdo, treinamentos. Em alguns casos especiais, estas instituições repassam apoio material para a compra de equipamentos e manutenção de gráficas, emissoras, equipamentos de informática. Estão cientes de que a imprensa alternativa é um importante instrumento de transmissão de uma contrainformação ou de uma contracultura na busca de mudanças de valores sociais.

Como já tivemos a oportunidade de afirmar, a imprensa alternativa, sob as diversas rotulações que comporta – o public journalism, contra-imprensa, imprensa nanica, radical, anarquista, associativa, comunitária, operária, etc. – bem como sob diversos propósitos editoriais, enquanto elemento de accountability, transparência, advocacy, lobbying, relações públicas, assessoria de imprensa, construção da cidadania, dentre outras (Sant’Anna, 2009: 66)[iv] -, é um fato concreto na esfera pública midiatizada, ou seja, no espaço social e virtual onde os debates políticos, culturais e sociais ocorrem por meio dos meios de comunicação. Não há como negar sua existência. Há três anos temos provocado dirigentes do Sebrae sobre a não previsão de categoria especifica para pequenos e médios veículos em seus prêmios jornalísticos. Nunca obtivemos uma resposta.

É notório que a promoção de concursos jornalísticos representa a adoção de uma estratégia para sensibilizar profissionais de imprensa, em especial os gatekepers – aqueles que definem as pautas e-ou o aproveitamento editorial nos veículos - para que foquem em determinado assunto -, bem como interferir nos critérios de definição da agenda midiática. Na década de 1990, a Unicef foi bastante feliz em promover por anos seguidos prêmios focados na proteção da infância. Coincidência ou consequência, o tema da infância é hoje uma constante no noticiário nacional. A Aids também foi alvo durante muito anos de concursos jornalísticos semelhantes, em especial, voltados para fomentar o combate à discriminação.

A realização de prêmios jornalísticos, se de um lado ajuda a promover a instituição ou determinado tema, de outro aporta credibilidade e reconhecimento externo. Aos inscrever-se em um concurso voltado à imprensa, o profissional ou o veículo procura obter a chancela corporativa e dos demais atores sociais quanto à qualidade de seu noticiário. A conquista de prêmios aporta credibilidade ao produto informativo, credencia o veículo na esfera pública. E para o jornalista contribui para o reconhecimento profissional. (SANT’ANNA: 269). É tudo que um veículo de pequeno porte necessita para crescer. Este credenciamento ajuda a abrir portas junto às fontes, junto aos gestores de verbas publicitárias, ou seja ajuda a crescer e consolidar-se como empresa ou instituição jornalística.

Voltamos, então à pergunta: por que o Sebrae não foca seus prêmios nesse perfil de veículo de comunicação? Inclusive como instrumento de fomento e fortalecimento deste segmento empresarial. Será uma preferência em conceder premiações a profissionais que já conquistaram o estrelato da carreira? Será que a ele só interessa o que é publicado nos jornalões e grandes redes de TV, rádio e portais de internet? O pequeno e médio comunicador não lhe interessa?



[i] Jornalista Profissional, pesquisador acadêmico, Mestre em Comunicação pela Universidade de Brasília e Doutor em Ciência da Informação e Comunicação, pela Universidade de Rennes 1 – França.

[ii] GILLMOR, D. (2006). We the Media: Grassroots Journalism by the People, Sebastopol, EUA, O'Reilly Media.

[iii] ATTON, C. (2002). Alternative media, London, Sage

[iv] SANT’ANNA, F (2009) Mídia das Fontes: um novo ator no cenário jornalístico brasileiro - Um Olhar Sobre A Ação Midiática Do Senado Federal. Brasília, Edições Técnicas do Senado.

terça-feira, 9 de junho de 2026

Contos futuristas de Maria Félix tensionam os limites entre a natureza e o artificial


Em “Labirintos do caos”, da escritora e jornalista Maria Félix Fontele, 14 histórias revelam os dilemas mais profundos da sociedade contemporânea
 

Quatorze histórias, movidas pelo desencanto e pela esperança em realidades que se transformam rapidamente, rompendo com tudo aquilo que antes era familiar. Se transformaram no mais novo livro da jornalista e escritora, Maria Félix Fontele: Labirintos do caos. Nesse trabalho, as personagens são pessoas comuns inseridas em contextos futuristas estranhos e caóticos, mas que se aproximam do cotidiano. Os quatorze contos retratam um futuro que até pode parecer distante da contemporaneidade, mas já faz parte do presente, muitas vezes sem que quase ninguém se dê conta.

Com uma veia distópica, a obra de ficção especulativa tenciona as relações entre a natureza e o artificial para refletir sobre os conflitos do ser humano frente a um mundo desconhecido que se anuncia como uma possibilidade. “Quando penso no caos, não imagino apenas ruína. Penso também no que ainda não ganhou forma, mas pulsa entre o desconexo, o obscuro e o imprevisível” - observa a autora ao ressaltar que essa visão está no cerne de Labirintos do caos, que começou a ser escrita durante a pandemia da Covid. “A obra serviu de válvula de escape diante da impotência de tempos sombrios, onde o espírito da criação se sobrepõe ao massacre de um cotidiano doente, e traz reflexões nem sempre positivas de nossa humanidade” - complementa.

Questões sociais

Sem a pretensão de ser pessimista, mas com uma perspectiva desencantada acerca das vilezas do mundo, a autora provoca em suas narrativas reflexões sobre questões sociais. Em “As memórias que ficaram na lata do lixo”, a protagonista lê cadernos sobre a infância da mãe, quando via os outros com medo do AI-5. Mas a personagem principal, decidida a viver somente o presente, passa por um procedimento para apagar memórias e esquece do passado familiar. Já em “A Indigenista e a Guerreira”, o ano é 2041, e um holograma de uma mulher é criado para disfarçar os impactos das grandes corporações no planeta.

Na madrugada seguinte, Belinda chegou à casa molhada de chuva e de lágrimas, levada por outra patriota. Estava desorientada. A confusão mental lhe fazia repetir o mantra: “Os generais vêm nos salvar”. A filha passou os dias enxugando o rosto da mãe louca que não sabia mais por que e por quem chorava, embora emitisse sinais de que, com o tempo, ficaria livre daquele pesadelo, após se submeter a várias desintoxicações e limpar a mente das lavagens cerebrais. (Labirintos do caos, p. 86)

Nos textos, Maria Félix Fontele também pondera sobre os relacionamentos possíveis em um mundo cada vez mais digital e transformado pelas inteligências artificiais. “O segredo” acompanha a decisão de Joaquim de revelar um segredo para a família sobre um vínculo amoroso criado a partir da tecnologia. Em “Seu nome é sensibilidade”, a trama foca em Luciana, uma mulher que, após uma separação traumática, começa a se envolver com um ciborgue.

A obra tem projeto gráfico de Jeferson Barbosa e Gabriele Oliveira, e cada conto inicia com ilustrações que buscam inserir o leitor no universo literário que será narrado. Publicado pela Mondru Editora, o livro apresenta orelha de Luigi Ricciardi, escritor, doutor em Literatura e professor da Universidade Federal do Amapá. Labirintos do caos foi publicado com recursos do Fundo de Apoio à Cultura do Distrito Federal (FAC-DF), da secretaria de Cultura e Economia Criativa do Distrito Federal.

A autora:

Maria Félix Fontele é jornalista, escritora e sócia-fundadora da Fontele Studios. Formada pela Universidade Federal de Goiás (UFG), trabalhou como secretária-adjunta e coordenadora de Comunicação Social do Governo do Distrito Federal, além de ter sido a primeira coordenadora de Comunicação da Câmara Legislativa do Distrito Federal. Atuou como repórter, chefe de reportagem, editora e colunista em diversos veículos de comunicação e em assessorias de imprensa. É autora dos livros “Versos que habitam” (2018) e “O barulho, o silêncio e a solidão de Deus” (2020), publicados pela Confraria do Vento Editora. Agora, lança Labirintos do caos pela Mondru Editora.

 

 

Serviço:
Título:
Labirintos do caos - Editora: Mondru Editora
Páginas: 114
Autora: Maria Félix Fontele
Lançamento: 10 de junho, a partir das 18h30, no Caferante, CLS 203

segunda-feira, 8 de junho de 2026

O Tardio: uma viagem aos tempos da ditadura e da contracultura, narrada por Maurício Melo Júnior

 


Um romance da busca e do desencontro: de um homem que chega sempre depois do tempo, como o irmão que nunca conheceu, como a era que nunca veio. 
Uma viagem ficcional no tempo de volta aos anos de chumbo da ditadura militar no Brasil, ao mesmo tempo um período da contracultura, do mvimento hipie.

 

 

 Por Chico Sant'Anna

O pano de fundo de O Tardio é o Brasil dos anos 1970, período mais duro da ditadura militar: o AI-5 em vigor, a tortura como prática de Estado. Em meio a isso, uma geração de jovens escolheu o caminho oposto — a estrada, a contracultura, a busca por paz e liberdade. Mas o que significa liberdade quando tudo ao redor conspira para impedi-la? Será que eles estão dispostos a pagar o preço que for para conquistá-la? 

O Tardio, de Maurício Melo Jr., é um romance que foca na busca e no desencontro: de um homem que chega sempre depois do tempo, como o irmão que nunca conheceu, como a era que nunca veio. Uma narrativa instigante, densa e profundamente brasileira, em que o passado e o presente se entrelaçam na estrada aberta de um país que ainda busca a sua própria liberdade.

O estilo literário de Maurício Melo é muito apreciado pela perícia em escrever. Nas palavras da escritora Ana Baggioto, ele tem “a paciência de um artesão que conhece o valor dos silêncios e a força dos detalhes quase imperceptíveis. Nada parece excessivo, nada parece faltar. As palavras chegam ao texto como pedras cuidadosamente escolhidas para erguer uma ponte sobre a solidão humana. Há uma precisão rara em sua linguagem: cada termo ocupa exatamente o lugar onde deveria estar, como se tivesse esperado toda uma vida para ser pronunciado”.

Depois do lançamento, na Feira do Livro, em São Paulo, a obra já tem data marcada para os apreciadores da boa literatura, em Brasília, nesta quarta-feira, dia 10. Vai ser no Bar Beirute, já tradicional nos lançamentos lietrários, com a presença do jornalista Maurício Melo, autor de 35 livros. Este é seu quarto romance.

O Livro

O Tardio retrata a vida de Sérgio, um pernambucano, cuja sina parecia seguir um caminho bastante tradicional. Uma infância e adolescência comuns, marcadas pela forte presença do catolicismo — à época, quase uma regra em todo o país, inclusive em Pernambuco, onde nasceu. Sua família já não possuía o status social de outrora, mas ele conseguiu se formar em Direito. Casou-se. A esposa, professora, dividia-se entre a casa, os estudos e as salas de aula. Tiveram filhas. Tudo dentro do convencional.

No entanto, a perda de um parente próximo fez reaparecer uma figura há muito aprisionada no silêncio familiar: a de Roberto, seu irmão.

Anos antes, a morte de Roberto e suas escolhas de vida sempre foram um tabu acobertado por seus pais e por todos. O caçula Sérgio, que sempre recebera poucas informações a respeito de seu irmão, agora tinha em mãos mais do que imaginara em toda a sua vida. Ainda assim não era suficiente. Ele precisava de mais. Tinha necessidade de descobrir novas peças da história de seu irmão, cuja morte coincidira com a data de seu próprio nascimento. Angustiado, Sérgio deixa tudo para trás e põe o pé na estrada.

A trajetória de Sérgio em busca de respostas é guiada por cartões-postais encontrados na casa de seu tio, logo após seu falecimento. As correspondências foram escritas por seu irmão durante suas andanças e enviadas ao tio ao longo dos anos.

Por onde passa, o advogado abandona a gravata, adota a bata indiana e o pano vermelho do artesanato, recolhe informações e vivências que o ajudam a montar o quebra-cabeças da história de Beto. Nesse percurso, Sérgio começa também a questionar suas próprias escolhas, desejos e certezas, colocando à prova tudo o que havia construído, inclusive o casamento e a vida profissional deixados para trás no Recife.

Aos poucos, a figura de Roberto ganha corpo: um rapaz calado e religioso que, no fim dos anos 1970, abandonou a casa dos pais em Palmares e se tornou hippie ao lado de Caliandra. Juntos, os dois percorreram o país em busca de um modo de viver mais livre. O rastro some no interior de Goiás. E é até lá que Sérgio precisa chegar.

O escritor Maurício Melo Júnior nos conduz por essa jornada na qual o protagonista atravessa cidades do Nordeste, Sudeste e Centro-Oeste do país, refazendo o caminho do irmão. Sua maneira de nos apresentar esse mundo, transforma paisagem em estado de espírito:

o asfalto do sertão é uma cobra negra e rastejante,
o calor sobe do chão como nuvem,

cada lugar carrega o peso de quem passou por ele.

O Brasil que emerge das páginas de O Tardio, é místico e distante do modo de vida tradicional. Nessa leitura, fazemos uma travessia ao lado de andarilhos que esperam e buscam a chamada Era de Aquarius. Esse novo romance faz jus ao que Ana Baggioto fala sobre o autor: “não apenas conta uma história; revela as fissuras, as ausências e as possibilidades de redenção que habitam o coração dos homens sem a presunção de oferecimento de respostas, mas revelando uma humanidade mais vasta, mais complexa e mais verdadeira”.

O autor:

Maurício Melo Júnior é escritor, jornalista, crítico literário e documentarista. Pernambucano radicado em Brasília, formou-se em Comunicação Social, com pós-graduação em Economia e Ciência Política. Atuou em alguns dos principais veículos de comunicação do país, como o Correio Braziliense.

Há 25 anos apresenta o programa Leituras, na TV Senado, o primeiro dedicado à literatura brasileira. Assina resenhas literárias para o jornal Rascunho (Curitiba/PR) e é colaborador da revista literária Pernambuco (Companhia Editorial de Pernambuco. Recife/PE).

Presidiu o Instituto Casa de Autores, de Brasília, além de ser membro da Associação Nacional dos Escritores. É também autor de romances, contos, crônicas e livros infantojuvenis, com destaque para Não me empurre para os perdidos e Sujeito oculto.

Ao todo, já escreveu 35 livros e O Tardio é seu quinto romance. É curador da FLIPIRI curador (Festa Literária de Pirenópolis – GO) e da Flipenedo - Festa Literária de Penedo (GO). Como documentarista, dirigiu mais de 20 filmes e escreveu para o teatro, com peças encenadas em diversas regiões do país.

 

Serviço:
Livro: O Tardio
Autor: Maurício Melo Júnior
Páginas:
160
Editora Rua do Sabão
Lançamento em Brasília: Dia dia 10/6, 19 horas - Bar Beirute – CLS 109

segunda-feira, 11 de maio de 2026

O jornalista que virou empreendedor de café


Da antiga lauda de papel ao atelier do café especial: a trajetória de veteranos profissionais de imprensa para enfrentar as mudanças estruturais das redações e do jornalismo. Depois de 40 anos na Comunicação, o professor, jornalista e pesquisador acadêmico, Aldo Schmitz, e sua esposa mergulham na produção e comercialização on-line de um café diferenciado.


Por Chico Sant'Anna 

O avanço das novas tecnologias, as mudanças dos hábitos culturais, as plataformas de redes sociais e seus influencers.... tudo tem contribuído para uma mutação forte na imprensa e, principalmente, no mercado de trabalho dos jornalistas profissionais. Não tem sido fácil, mesmo para profissionais gabaritados, com experiência e até mesmo com passagem pelo mundo do ensino e da pesquisa científica. Profissionais, novos e veteranos, tem buscado alternativas, uma delas é se tornar empreendedor. E foi isso que fez o jornalista paranaense Aldo Schmitz.

Há 40 anos no ensino e pesquisa de Jornalismo, inclusive a nível de pós graduação, na gestão da comunicação e da produção cultural, Aldo Schmitz, que lecionou na Universidade Federal de Santa Catarina, e sua esposa, Jacqueline Brandalize, decidiram por uma nova pauta: deram início a uma nova atividade. Em comum com a Comunicação? Só o hábito das redações de sempre estar tomando um cafezinho. 

Isso mesmo, o casal decidiu mergulhar nos segredos dos someliers de café e acaba de implantar a Dripe Café, uma empresa de drip coffee de café especial. Pra quem não conhece o termo, trata-se de um café especial em dose individual, pronto para você. Mas ele não vem em capsulas nem precisa de máquinas. São sachês para filtrar direto na xícara a qualquer hora ou lugar. O casal aposta nesse novo método de extração: o drip coffee. Nele, o preparo é simples e prático: basta retirar o filtro do sachê, encaixar na xícara e adicionar água quente.

Pesquisa

Foram mais de dois anos de estudos, inclusive com ampla pesquisa realizada com mais de 700 apreciadores de café especial, conta Aldo, hoje radicado em Curitiba. O jornalista assegura que todo o processo é artesanal e sustentável, desde a colheita manual e seletiva até o beneficiamento natural de microlotes. A torra também é artesanal, assim como o envase. “Trata-se de um ateliê de café, um toque de curadoria que respeita a autenticidade do café especial, do plantio a xicara” – observa Jacqueline Brandaliza, esposa e parceira de Aldo nesse novo desafio.

A torra é fresca, e o café permanece protegido em embalagem laminada e hermeticamente lacrada. A nova empresa oferece somente cafés de origem certificada, com pontuação superior a 84 pontos, conforme os critérios internacionais da Specialty Coffee Association (SCA).

Trata-se de um café puro, sem defeitos ou impurezas, com certificação e rastreabilidade de origem, procedência e qualidade. A seleção prioriza terroirs reconhecidos pelo INPI, com destaque para Minas Gerais, especialmente a Serra da Mantiqueira e o Cerrado Mineiro.

Com as facilidades do comércio na internet, qualquer pessoa, em qualquer lugar do Brasil, poderá encomendar no site uma caixa de sachês de café. Cada caixa traz 25 sachês de 10 gramas. É ideal para o café da manhã e para qualquer momento do dia, em casa, no trabalho ou em viagem. O preço é, em média, 35% a 40% mais econômico do que o de outros drip coffees de café especial com pontuação acima de 84 pontos.

sábado, 2 de maio de 2026

Morre Raimundo Rodrigues Pereira, o jornalista da imprensa alternativa

Aos 86, anos, morreu neste sábado, 2, no Rio de Janeiro, o jornalista Raimundo Rodrigues Pereira, ex-Opinião, ex-Movimento


Por Antônio Carlos Queiroz (ACQ)

O jornalista Raimundo Pereira, mestre genial do jornalismo independente, democrático e popular, foi um daqueles lutadores imprescindíveis referidos pelo poeta Bertolt Brecht.

Nos tempos da era de chumbo, era o jornalista da imprensa alternativa e combativa. Por meio do jornal Opinião, trouxe de volta ao centro do debate público a questão nacional. Por meio do jornal Movimento, fincou as bandeiras do fim das leis de exceção da ditadura militar, da Anistia Ampla, Geral e Irrestrita, e da convocação da Constituinte Livre e Soberana. Se destacou pelo rigor profissional, coragem e compromisso com a democracia, atuando também em veículos como Realidade e Veja.

Radicalmente comprometido com a democratização republicana do País, e com a melhoria das condições de vida da população brasileira, o Raimundo foi também apaixonado pela divulgação das conquistas científicas.

Nascido em Exu (PE), quando estava no último ano de Engenharia Aeronáutica no Instituto Tecnológico da Aeronáutica (ITA), em 8 de abril de 1964, foi preso pelo DOPS, o que o levou a abandonar a Engenharia Aeronáutica no Instituto Tecnológico da Aeronáutica (ITA) A e dedicar-se ao jornalismo após formar-se em Física.

Dizia que o bom jornalista deve acompanhar os acontecimentos do seu bairro, de sua cidade, de seu Estado, do seu País, do planeta e também do Universo. O mundo, dizia, pode ser conhecido e o conhecimento é o caminho inevitável para que possamos mudá-lo.

Socialista, o Raimundo Pereira foi também um fã da República Popular da China. O livro que conta grande parte da história de Raimundo Pereira foi disponibilizado pelos autores

A causa da morte não foi divulgada. Vou sentir saudades do mestre, com quem eu comia feijoada com vinho, enquanto falávamos mal dos inimigos do povo brasileiro!


segunda-feira, 13 de abril de 2026

Os Corpos Estranhos do jornalista Sergio Leo


A obra acontece em meio à conjuntura instável e marcada pela desumanização, da inteligência artificial, das guerras irracionais e das relações humanas sob o pragmatismo liberal. Leo desenvolve uma ficção que trata de corpos reais, da singularidade dos indivíduos e sua relação com o mundo.


“Corpos Estranhos”é o mais recente trabalho do jornalista e escritor, Sérgio Leo. Após “Mentiras do Rio”, havia prometido um livro de contos sobre arte contemporânea, tema que serve de pano de fundo para algumas das histórias da nova obra. A maioria dos contos trata de relacionamentos humanos e suas expectativas, que têm em comum com a Arte, a dicotomia entre realidade e aparência, e os percalços da linguagem e da representação.

Em meio a histórias que vão da coragem de um combatente com pés de sete dedos em uma guerra perdida no Oriente Médio a desencontros amorosos e às angústias de um garoto perna de pau em um jogo de futebol, ansioso para atender às expectativas dos colegas de time, Leo explora também conceitos da própria literatura, enfrentando tabus acadêmicos como a repulsa aos adjetivos em narrativas de ficção ou desafios como um conto narrado extraordinariamente na segunda pessoa do singular.

A obra acontece em meio à conjuntura instável e marcada pela desumanização, da inteligência artificial, das guerras irracionais e das relações humanas sob o pragmatismo liberal. Leo desenvolve uma ficção que trata de corpos reais, da singularidade dos indivíduos e sua relação com o mundo.


O autor, como define a premiada escritora Rosa Amanda Strausz na orelha do livro, fala do corpo “não apenas como matéria, mas como território da experiência”. Ou como diz a editora Mirna Queirós, na contracapa do livro, são contos em que os leitores poderão entrever “a fricção dos personagens com o mundo que se ergue ou desmorona diante deles”.

O autor

Sergio Leo apresenta-se como ex-carioca; desde 1985 morador de Brasília, onde trabalhou na maioria dos grandes jornais e na TV Globo, até permanecer por 15 anos repórter e colunista do jornal Valor Econômico. Hoje, entre colaborações a outros veículos de comunicação, escreve crônicas para o Correio Braziliense.

Em seu primeiro livro de contos, “Mentiras do Rio” (ed. Record), vencedor do Prêmio Sesc de Literatura, dedicou-se ao Rio de Janeiro onde nasceu, com seus personagens e paragens, já observados através da mesma lente irônica e crítica que marca seu novo livro de contos, em lançamento: “Corpos Estranhos”.

Após seu livro de estreia, escreveu um livro de não-ficção, “Ascensão e Queda do Império X” (ed. Nova Fronteira), sobre a derrocada do empresário Eike Batista; e colaborou, com contos e artigos, em sites de Internet e coletâneas como “Conversas de Botequim”, (ed. Mórula) com contos baseados em músicas de Noel Rosa.

Formado em Jornalismo pela ECO-UFRJ, com especialização em Relações  Internacionais pela UnB, Sergio Leo é também formado em Artes Visuais na UnB, e participou, em Brasília de exposições coletivas como “Seu Museu Expoexperimento” e “Diálogos da Resistência”, no Museu Nacional de Brasília, e uma individual, “Radicalismos”, na Alfinete Fotogaleria.


Serviço

Em Brasília, Sergio Leo lançará seu “Corpos Estranhos” na noite de 5 de maio, a partir das 18h30, no bar Beirute da Asa Sul, na CLS 109.

terça-feira, 31 de março de 2026

Novo livro resgata os horrores dos 50 anos do golpe militar na Argentina.


Meio século após o golpe militar de 1976, na Argentina, livro traz o depoimentos de 24 homens e mulheres que sofreram na pele as atrocidades do regime de chumbo, O objetivo da obra, lançada em Buenos Aires, é manter a memoria viva e combater o negacionismo que tenta apagar os horrores perpetrados.

Por Chico Sant'Anna

A obra “50 años del golpe en Argentina, testimonios” reúne os depoimentos de 24 cidadãos e cidadãs que enfrentaram a dor, mas mantiveram acessa a resistência contra o arbítrio. Ela acaba de ser lançada em Buenos Aires e é avaliada como uma forma de enfrentamento do negacionismo, explica a jornalista Lídia Fagale, uma das responsáveis pelo projeto e autora de um dos depoimentos.

 “São relatos de vida, fundamentais para manter ativa a memória face às tentativas de negar as atrocidades do golpe de estado de 24 de março de 1976” - complementa. Nessa data, há 50 anos, as forças armadas argentinas depuseram o governo constitucional de Isabel Perón e instituíram no comando da nação uma Junta Militar, composta por Jorge Rafael Videla (Exército), Emilio Massera (Marinha) e Orlando Agosti (Aeronáutica). Tinha início alé um dos período dos mais obscuros da história do país vizinho.

Os movimentos sociais localizaram 814 centros clandestinos de detenção, tortura  extermínio daqueles e daquelas contrárias ao regime militar. Entre os desaparecidos estavam centenas de mulheres grávidas, mantidas em centros clandestinos de detenção. Muitas deram à luz em cativeiro e seus bebês foram retirados e entregues ilegalmente a outras famílias, configurando uma política sistemática de apropriação de crianças levada adiante pelo regime.

Organizada por Manuel Martínez e editada pela editora Manuel Capitán Cianuro, a obra, que traz testemunhos inéditos sobre a ditadura cívico-militar argentina, foi lançada em um local que não poderia ser mais iconográfico: a sede da Asociación Madres de Plaza de Mayo. Movimento de mães e avós que tentam localizar até hoje filhos e netos sequestrados ainda crianças ou mesmo bebês pela ditadura.