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segunda-feira, 28 de outubro de 2024

Pecados do conservadorismo católico: a visão poética da jornalista Raíssa Abreu


Na Capital Federal, jornalista e escritora mineira lança livro de poemas autobiográficos que expõe pecados do conservadorismo católico do interior


Objeto estranho, recém-editado pela Patuá editora, é uma obra autobiográfica que traz cenas da infância e da adolescência da escritora e jornalista, Raíssa Abreu, 43 anos, reelaboradas numa linguagem onírica a partir de objetos que evocam lembranças, como um snoopy de pelúcia, um clichê de jornal, um monóculo, um terço, um par de sapatos. O cenário é uma comunidade católica tradicional do Sul de Minas Gerais.

Num cenário sombrio-kitsch, de múltiplos silenciamentos e mortes anunciadas na torre da igreja, são esses seres inanimados o pretexto para falar, ainda que pelas beiradas, de assuntos incômodos - a pobreza, a misoginia, a meritocracia, a intolerância, o suicídio - e para insinuar visadas menos trágicas sobre as personagens.

Sinopse

A subversão maior é aquilo que escapa à língua, que fica em algum lugar entre o fim de um verso e o tropeço de outro. No desencontro entre palavra e imagem. O segredo da moça do cabelo alisado. A ave-maria perdida no terço.

A trajetória de um corpo estranho pela vidamorte de uma família cristã numa cidade do interior, marcada pela vigilância da tradição e pela meritocracia. O que pode acontecer à hierarquia bem marcada entre os pontos que giram ao redor do objeto totêmico quando alguém olha para a torre da igreja e enxerga a ponta de um lápis?

"A escrita de Abreu, afeita ao nervo da linguagem, estranhamente torna o simples algo escorregadio, que conduz a uma imersão em imagens pouco vistas, pois os objetos aqui são ricamente ativados pelo que extrapolam em relação às suas acepções, enviesando à imaginação o ordinário e o transformando em preciosidade" (da orelha de Léo Tavares).

A autora

Há 19 anos em Brasília, Raíssa Abreu é jornalista e estuda Letras na UnB. Nascida em em Pedralva, sul de Minas Gerais, teve uma infância em uma casa lotada de papel-jornal e de imagens de Nossa Senhora. Hoje, faz parte do coletivo de poesia cerratense Nexo Grupal.

Objeto estranho é seu livro inaugural. O lançamento acontece na quinta-feira (31/10), a partir das 19h, no Quanto Café, e contará com uma conversa mediada pelo escritor e artista plástico, Léo Tavares, (“Situações” e “O Congresso da Melancolia”) . O bate-papo será seguido de sessão de autógrafos.

Serviço:

  • O que?  Lançamento da obra Objeto Estranho - Ed. Patuá.
  • Quem?  Raíssa Abreu
  • Quando?  31/10, quinta-feira, às 19h
  • Onde?  Quanto Café CLN 103, Bl A

segunda-feira, 13 de abril de 2020

ABI divulga nota contra transformação da TV Brasil em canal evangélico

A manifestação da entidade ocorreu depois de a TV ser usada pelo Presidente da República para defender suas crenças religiosas

Publicado originalmente no semanário Brasília Capital

No domingo de Páscoa (12/4), a TV Brasil dedicou duas horas de sua programação a uma transmissão, em rede nacional, do proselitismo do presidente Jair Bolsonaro e das políticas irresponsáveis que ele propaga sobre a pandemia do coronavírus 2. O espaço teve participação destacada de pastores representantes de igrejas fundamentalistas alinhadas com seu governo.
Em janeiro deste ano , o secretário de Desestatização, Salim Mattar, apresentou um cronograma de privatizações de todas as empresas públicas do Brasil. Em um evento promovido pelo banco Credit Suisse, Mattar anunciou que, além de Correios, da Telebras, da Petrobrás, do Serpro, Dataprev, Banco do Brasil, Caixa Econômica Federal, entre muitas outras, está também a Empresa Brasileira de Comunicação (EBC).
Nos planos do governo Bolsonaro, o Estado brasileiro tem de vender tudo. Será o único país do mundo a não ter nada que lhe assegure um mínimo de soberania. Será também o único país a não ter um sistema público de saúde, de educação, de processamento de dados da administração pública,  a não ter uma rede pública de comunicação social.
A maior parte dos brasileiros é contra essa privatização. O ex-diretor da Radiobrás, Pedro Paulo Rezende, por exemplo, diz que está muito triste com os rumos que o governo Bolsonaro está dando à empresa. “Boa parte desse projeto da NBR foi eu quem fez. Fui diretor da Radiobrás e me dá uma tristeza danada ao ver o que o governo Bolsonaro está fazendo”, declara.
A jornalista Débora Cruz diz que “o mais importante neste momento é defender o Estado laico”. As críticas não param por aí. A Associação Brasileira de Imprensa (ABI) divulgou uma nota sobre o programa veiculado no domingo de Páscoa e denunciou a privatização.
“Com a autoridade de seus 112 anos de existência em defesa das causas democráticas no país, a ABI lembra ao presidente da República que o Executivo dispõe da NBR para divulgar suas iniciativas e que a TV Brasil, por definição, é uma emissora pública, e não uma porta-voz de suas posições”, afirma a nota da ABI, assinada pelo seu presidente Paulo Jerônimo  de Souza.

sexta-feira, 2 de outubro de 2015

Telefonia celular: operadora evangélica quer atrair 5 milhões de usuários

A Movttel e a Assembleia de Deus lançaram na quinta-feira, 1/10, a operadora de telefonia móvel virtual (MVNO) Mais AD, voltada para o segmento evangélico e que tem o objetivo de chegar a 1 milhão de acessos até o fim de 2016 e 5 milhões até 2025, o que a tornaria uma das maiores MVNOs do mundo. Para efeito de comparação, nos EUA, a Virgin, um dos casos mais bem-sucedidos de operadora móvel virtual, tem hoje cerca de 6 milhões de assinantes.

“Queremos nos tornar uma das maiores operadoras de telefonia do mundo em cinco anos”, prevê Raul Aguirre, diretor-geral da Mais AD. “Montamos um negócio exato para a Assembleia de Deus e seus fieis. Com plataforma de conteúdo e acesso às informações da igreja”.

O lançamento ocorreu durante o 69º Encontro Bíblico dos Obreiros em São Paulo. Contou com a presença de mais de 5 mil pastores do Brasil e exterior que chamaram o novo produto de “telefone evangélico”– embora seja vendido apenas o chip (SIM) pré-pago. “Não se vai vender telefone. Vamos vender chips”, afirmou o pastor José Wellington Bezerra da Costa, líder da Assembleia de Deus ao seu rebanho. “Você vai ter tudo aquilo que um telefone tem e Mais AD’”.
A Mais AD, que usará a rede de 3G e 4G da Telefônica/Vivo para funcionar, teve uma ‘oração’ antes da primeira ligação realizada por Aguirre. O “Mais Chip” custará R$ 9,90 e as recargas poderão ser feitas na Rede Trel, em 45 pontos de venda e na rede da Vivo.

Ao preço de R$ 6,90 por semana, o usuário terá acesso a um pacote de internet  de 75 MB, SMS ilimitado e franquia de 100 minutos entre linhas da Mais AD. O cliente da nova operadora móvel virtual terá acesso a conteúdos evangélicos por SMS, como: pedidos de oração, momento com a bíblia, endereço de igrejas, testemunhos, informativo evangélico, tema da semana e calendário.

‘Igual a Avon...’

Na sociedade, a Movttel possui 50% das ações e os outros 50% são pertencentes a uma entidade ligada à Assembleia de Deus. A Vivo fica responsável pela estrutura da rede de telefonia e sua parceira evangélica cuidará da logística, marketing e comércio. As proporções de divisão de receita com a Vivo não foram divulgadas.

A Mais AD usará a estrutura da igreja para vender os chips telefônicos, inicialmente nas 18 mil representações da Assembleia em São Paulo e em cidades do interior paulista. As igrejas do interior poderão instalar franquias. Questionado sobre um possível impacto da crise econômica na nova operação, o diretor-geral acredita que a Mais AD pode crescer mais com o momento financeiro difícil no País, pois os fieis “ficam mais unidos” neste período.

A força de vendas em São Paulo é composta por sete supervisores, 45 vendedores e 400 colaboradores (voluntários), em um sistema de vendas “porta em porta” e similar à Avon”, explica Aguirre. Todos os vendedores são fieis da igreja.
Concorrência
Além da comunidade de fiéis da Assembleia de Deus, a Mais AD aposta em parceria com outras igrejas para crescer e em uma futura internacionalização da operadora. Mas Aguirre espera rivais de outras “denominações evangélicas” em pouco tempo. Uma das possíveis rivalidades pode ser com outra enabler: a Sisteer. A empresa francesa trabalha com o público cristão por meio de MVNOs fora do Brasil, e possui autorização da Anatel para funcionar no País.


Histórico

A Mais AD surgiu em janeiro deste como “Alô”, ao ser aprovada pela Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel) como operadora de telefonia móvel virtual credenciada pelo órgão regulador brasileiro tendo a Movttel sendo sua enabler – faz o elo entre Vivo e Mais AD.  A operadora evangélica demorou oito meses para tornar-se ativa. Aguirre explicou que a demora deu-se por “integrações sistêmicas e complicadas com a Vivo”, tanto que apenas o acesso pré-pago foi liberado e não há previsão para o pós-pago.

terça-feira, 19 de maio de 2015

Religiões afrobrasileiras ganham direito de resposta na Rede Record


A Rede Record de Televisão e a Rede Mulher, ambas de propriedade do Bispo Edir Macedo, terão que ceder quatro horas (no mínimo) de suas respectivas programações para exibir o direito de resposta das religiões afro-brasileiras.
De acordo com o site “Yahoo”, as emissoras de televisão do Bispo Macedo foram condenadas a produzir e exibir, cada uma, quatro programas de televisão, a título de direito de resposta às religiões de origem africana, em razão das ofensas proferidas contra elas em suas programações. Cada programa deverá ter a duração mínima de uma hora e as rés empregarão seus respectivos espaços físicos, equipamentos e pessoal técnico para produzi-los. A decisão é do juiz Djalma Moreira Gomes, da 25ª Vara Federal Cível em São Paulo/SP.
São consideradas religiões afro-brasileiras, todas as religiões que foram trazidas para o Brasil pelos negros africanos, na condição de escravos. Ou religiões que absorveram ou adotaram costumes e rituais africanos, como:
Candomblé – Em todos os estados do Brasil
Umbanda – Em todos os estados do Brasil
Babaçuê – Maranhão, Pará
Batuque – Rio Grande do Sul
Cabula – Espírito Santo, Minas Gerais, Rio de Janeiro e Santa Catarina.
Culto aos Egungun – Bahia, Rio de Janeiro, São Paulo
Culto de Ifá – Bahia, Rio de Janeiro, São Paulo
Encantaria – Maranhão, Piauí, Pará, Amazonas
Omoloko – Rio de Janeiro, Minas Gerais, São Paulo
Pajelança – Piauí, Maranhão, Pará, Amazonas
Quimbanda – Em todos estados do Brasil
Tambor-de-Mina – Maranhão, Pará
Terecô – Maranhão
Xambá – Alagoas, Pernambuco
Xangô do Nordeste – Pernambuco
O Ministério Público Federal (MPF), o Instituto Nacional de Tradição e Cultura Afro-Brasileira (INTECAB) e o Centro de Estudos das Relações de Trabalho e da Desigualdade (CEERT) ajuizaram a ação civil pública contra as emissoras, alegando que as religiões afro-brasileiras vêm sofrendo constantes agressões em programas por elas veiculados, o que é vedado pela Constituição Federal, que proíbe a demonização de religiões por outras.
Djalma Gomes explica que a um prestador de serviço de radiodifusão sonora e de sons e imagens é um “longa manus (executor de ordens) do Estado no desempenho dessa atividade, e como o próprio Estado deve se comportar no cumprimento das regras e princípios constitucionais legais”.
O juiz cita algumas passagens da Constituição Federal (CF) que tratam destes serviços que devem ser “prestados visando à consecução dos fins da República Federativa do Brasil, entre eles a promoção do bem de todos, sem preconceito de origem, raça, sexo, cor, idade e quaisquer outras formas de discriminação” e que o Estado deve garantir a todos “o pleno exercício dos direitos culturais, protegendo as manifestações das culturas populares, indígenas e afro-brasileiras” e “em caso de ofensa, é assegurado o direito de resposta, proporcional ao agravo”.
“Os fatos imputados na inicial estão comprovados e são, ademais, incontroversos”, afirma o juiz, acrescentando que as emissoras sequer os negaram, apenas procuraram extrair a “conotação de ofensivos”, atribuída pelos autores.
O magistrado transcreve um trecho da liminar proferida na ação, pela juíza federal Marisa Cláudia Gonçalves Cucio, que mostrou relatos de pessoas que se converteram à Igreja Universal, mas antes eram adeptas às religiões afro-brasileiras, eram tratadas como “ex-bruxa”, “ex-mãe de encosto” e acusadas de terem servido aos “espíritos do mal”.
“Este tipo de mensagem desrespeitosa, com cunho de preconceito […] tem impacto poderoso sobre a população, principalmente a de baixa escolaridade, porque é acessada por centenas de milhares de pessoas que podem recebe-la como uma verdade”, explicou, na ocasião, Marisa Cucio.
Tanto a Rede Record quanto a Rede Mulher deverão exibir cada um dos quatro programas em duas oportunidades (totalizando oito exibições por emissora), em horários correspondentes àqueles em que foram exibidos os programas que praticaram as ofensas. Além disso, deverão realizar três chamadas aos telespectadores na véspera ou no próprio dia da exibição. A decisão não cabe recurso.
Leia aqui a íntegra da decisão

domingo, 11 de janeiro de 2015

Eu não sou Charlie, je ne suis pas Charlie, por Leonardo Boff

Há muita confusão acerca do atentado terrorista em Paris, matando vários cartunistas. Quase só se ouve um lado e não se buscam as raízes mais profundas deste fato condenável mas que exige uma interpretação que englobe seus vários aspectos ocultados pela midia internacional e pela comoção legítima face a um ato criminoso. 
Mas ele é uma resposta a algo que ofendia milhares de fiéis muçulmanos. Evidentemente não se responde com o assassianto. Mas também não se devem criar as condições psicológicas e políticas que levem a alguns radicais a lançarem mão de meios reprováveis sobre todos os aspectos. 
Publico aqui um texto do padre Antonio Piber, que é teólogo e historiador e conhece bem a situação da França atual. Ele nos fornece dados que muitos talvez não os conheçam. Suas reflexões nos ajudam a ver a complexidade deste anti-fenômeno com suas aplicações também à situação no Brasil: 
Leonardo Boff
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Eu condeno os atentados em Paris, condeno todos os atentados e toda a violência, apesar de muitas vezes xingar e esbravejar no meio de discussões, sou da paz e me esforço para ter auto controle sobre minhas emoções…
Lembro da frase de John Donne: “A morte de cada homem diminui-me, pois faço parte da humanidade; eis porque nunca me pergunto por quem dobram os sinos: é por mim”. Não acho que nenhum dos cartunistas “mereceu” levar um tiro, ninguém o merece, acredito na mudança, na evolução, na conversão. Em momento nenhum, eu quis que os cartunistas da Charlie Hebdo morressem. Mas eu queria que eles evoluíssem, que mudassem… Ainda estou constrangido pelos atentados à verdade, à boa imprensa, à honestidade, que a revista Veja, a Globo e outros veículos da imprensa brasileira promoveram nesta última eleição.
A Charlie Hebdo é uma revista importante na França, fundada em 1970, é mais ou menos o que foi o Pasquim. Isso lá na França. 90% do mundo (eu inclusive) só foi conhecer a Charlie Hebdo em 2006, e já de uma forma bastante negativa: a revista republicou as charges do jornal dinamarquês Jyllands-Posten (identificado como “Liberal-Conservador”, ou seja, a direita europeia). E porque fez isso? Oficialmente, em nome da “Liberdade de Expressão”, mas tem mais…
O editor da revista na época era Philippe Val. O mesmo que escreveu um texto em 2000 chamando os palestinos (sim! O povo todo) de “não-civilizados” (o que gerou críticas da colega de revista Mona Chollet (críticas que foram resolvidas com a demissão sumaria dela). Ele ficou no comando até 2009, quando foi substituído por Stéphane Charbonnier, conhecido só como Charb. Foi sob o comando dele que a revista intensificou suas charges relacionadas ao Islã, ainda mais após o atentado que a revista sofreu em 2011…
A França tem 6,2 milhões de muçulmanos. São, na maioria, imigrantes das ex-colônias francesas. Esses muçulmanos não estão inseridos igualmente na sociedade francesa. A grande maioria é pobre, legada à condição de “cidadão de segunda classe”, vítimas de preconceitos e exclusões. Após os atentados do World Trade Center, a situação piorou.
Alguns chamam os cartunistas mortos de “heróis” ou de os “gigantes do humor politicamente incorreto”, outros muitos os chamam de “mártires da liberdade de expressão”. Vou colocar na conta do momento, da emoção. As charges polêmicas do Charlie Hebdo, como os comentários políticos de colunistas da Veja, são de péssimo gosto, mas isso não está em questão. O fato é que elas são perigosas, criminosas até, por dois motivos.
O primeiro é a intolerância. Na religião muçulmana, há um princípio que diz que o Profeta Maomé não pode ser retratado, de forma alguma. Esse é um preceito central da crença Islâmica, e desrespeitar isso desrespeita todos os muçulmanos. Fazendo um paralelo, é como se um pastor evangélico chutasse a imagem de Nossa Senhora para atacar os católicos…
Qual é o objetivo disso? O próprio Charb falou: “É preciso que o Islã esteja tão banalizado quanto o catolicismo”. “É preciso” porque? Para que?
Note que ele não está falando em atacar alguns indivíduos radicais, alguns pontos específicos da doutrina islâmica, ou o fanatismo religioso. O alvo é o Islã, por si só. Há décadas os culturalistas já falavam da tentativa de impor os valores ocidentais ao mundo todo. Atacar a cultura alheia sempre é um ato imperialista. Na época das primeiras publicações, diversas associações islâmicas se sentiram ofendidas e decidiram processar a revista. Os tribunais franceses, famosos há mais de um século pela xenofobia e intolerância (ver Caso Dreyfus), como o STF no Brasil, que foi parcial nas decisões nas últimas eleições e no julgar com dois pessoas e duas medidas caos de corrupção de políticos do PSDB ou do PT, deram ganho de causa para a revista.
Foi como um incentivo. E a Charlie Hebdo abraçou esse incentivo e intensificou as charges e textos contra o Islã e contra o cristianismo, se tem dúvidas, procure no Google e veja as publicações que eles fazem, não tenho coragem de publicá-las aqui…
Mas existe outro problema, ainda mais grave. A maneira como o jornal retratava os muçulmanos era sempre ofensiva. Os adeptos do Islã sempre estavam caracterizados por suas roupas típicas, e sempre portando armas ou fazendo alusões à violência, com trocadilhos infames com “matar” e “explodir”…). 
Alguns argumentam que o alvo era somente “os indivíduos radicais”, mas a partir do momento que somente esses indivíduos são mostrados, cria-se uma generalização. Nem sempre existe um signo claro que indique que aquele muçulmano é um desviante, já que na maioria dos casos é só o desviante que aparece. É como se fizéssemos no Brasil uma charge de um negro assaltante e disséssemos que ela não critica/estereotipa os negros, somente aqueles negros que assaltam…
E aí colocamos esse tipo de mensagem na sociedade francesa, com seus 10% de muçulmanos já marginalizados. O poeta satírico francês Jean de Santeul cunhou a frase: “Castigat ridendo mores” (costumes são corrigidos rindo-se deles). 
A piada tem esse poder. Mas piada são sempre preconceituosas, ela transmite e alimenta o preconceito. Se ela sempre retrata o árabe como terrorista, as pessoas começam a acreditar que todo árabe é terrorista. Se esse árabe terrorista dos quadrinhos se veste exatamente da mesma forma que seu vizinho muçulmano, a relação de identificação-projeção é criada mesmo que inconscientemente. 
Os quadrinhos, capas e textos da Charlie Hebdo promoviam a Islamofobia. Como toda população marginalizada, os muçulmanos franceses são alvo de ataques de grupos de extrema-direita. Esses ataques matam pessoas. Falar que “Com uma caneta eu não degolo ninguém”, como disse Charb, é hipócrita. Com uma caneta se prega o ódio que mata pessoas…
Uma das defesas comuns ao estilo do Charlie Hebdo é dizer que eles também criticavam católicos e judeus…
Se as outras religiões não reagiram a ofensa, isso é um problema delas. Ninguém é obrigado a ser ofendido calado.
“Mas isso é motivo para matarem os caras!?”. Não. Claro que não. Ninguém em sã consciência apoia os atentados. Os três atiradores representam o que há de pior na humanidade: gente incapaz de dialogar. Mas é fato que o atentado poderia ter sido evitado. Bastava que a justiça tivesse punido a Charlie Hebdo no primeiro excesso, assim como deveria/deve punir a Veja por suas mentiras. Traçasse uma linha dizendo: “Desse ponto vocês não devem passar”.
“Mas isso é censura”, alguém argumentará. E eu direi, sim, é censura. Um dos significados da palavra “Censura” é repreender. A censura já existe. Quando se decide que você não pode sair simplesmente inventando histórias caluniosas sobre outra pessoa, isso é censura. Quando se diz que determinados discursos fomentam o ódio e por isso devem ser evitados, como o racismo ou a homofobia, isso é censura. Ou mesmo situações mais banais: quando dizem que você não pode usar determinado personagem porque ele é propriedade de outra pessoa, isso também é censura. Nem toda censura é ruim…
Deixo claro que não estou defendendo a censura prévia, sempre burra. Não estou dizendo que deveria ter uma lista de palavras/situações que deveriam ser banidas do humor. Estou dizendo que cada caso deveria ser julgado. Excessos devem ser punidos. Não é “Não fale”. É “Fale, mas aguente as consequências”. E é melhor que as consequências venham na forma de processos judiciais do que de balas de fuzis ou bombas.
Voltando à França, hoje temos um país de luto. Porém, alguns urubus são mais espertos do que outros, e já começamos a ver no que o atentado vai dar. Em discurso, Marine Le Pen declarou: “a nação foi atacada, a nossa cultura, o nosso modo de vida. Foi a eles que a guerra foi declarada”. Essa fala mostra exatamente as raízes da islamofobia. Para os setores nacionalistas franceses (de direita, centro ou esquerda), é inadmissível que 10% da população do país não tenha interesse em seguir “o modo de vida francês”. Essa colônia, que não se mistura, que não abandona sua identidade, é extremamente incômoda. Contra isso, todo tipo de medida é tomada. Desde leis que proíbem imigrantes de expressar sua religião até… charges ridicularizando o estilo de vida dos muçulmanos! Muitos chargistas do mundo todo desenharam armas feitas com canetas para homenagear as vítimas. De longe, a homenagem parece válida. Quando chegam as notícias de que locais de culto islâmico na França foram atacados, um deles com granadas!, nessa madrugada, a coisa perde um pouco a beleza. É a resposta ao discurso de Le Pen, que pedia para a França declarar “guerra ao fundamentalismo” (mas que nos ouvidos dos xenófobos ecoa como “guerra aos muçulmanos”, e ela sabe disso).
Por isso tudo, apesar de lamentar e repudiar o ato bárbaro do atentado, eu não sou Charlie. Je ne suis pas Charlie.

terça-feira, 13 de maio de 2014

EUA: Ateus inauguram canal de TV dedicado a combater a religião

Do Gospel Prime, com informações de Religion News
 
A ideia é levar o ateísmo onde ele "não está chegando"
Constantemente acusados de imitar práticas cristãs, o movimento ateísta está chegando à televisão. Nos Estados Unidos existem cerca de 100 canais de TV que transmitem programação evangélica, algumas dezenas passam programas católicos. Já existem canais judeus e até muçulmanos.
David Silverman, presidente da Ateus Americanos, anunciou a formação de um canal de televisão só de conteúdo ateu durante uma palestra na Universidade de Stanford esta semana.
Ele explicou que o público-alvo são ateus, humanistas, livres-pensadores e outros não-teístas terão sua primeira opção real de televisão dedicado ao ateísmo em julho. “Por que estamos indo para a televisão?  É parte da nossa estratégia de ir até os locais onde não estamos chegando”, ressaltou Silverman, 49 anos.
Ele explicou que inicialmente o canal de televisão será via Internet e poderá ser acessado por operadoras de TV a cabo que já ofereçam o sistema streaming, algo que está em crescimento nos EUA. O conteúdo ateu estará no ar sete dias por semana, 24 horas por dia e será gratuito.
O canal ainda não teve seu nome revelado, mas Silverman comemora, enfatizando que serão transmitidos, no início, eventos ateus, incluindo gravações de convenções dos Ateus Americanos de anos passados. Também exibirá apresentações de palestrantes convidados, além de conteúdo fornecido por vlogueiros ateus e outros grupos ateus com forte presença no ativismo online.
“Estamos prevendo o surgimento de um monte de conteúdo diferente nos próximos meses”, disse Dave Muscato, diretor de comunicações Ateus Americanos. O grupo ainda analisa a viabilidade de uma rádio com conteúdo 100% ateu. , Com informações de Religion News

terça-feira, 16 de abril de 2013

“A cobertura da imprensa brasileira sobre as religiões" é o tema do programa “Jornalismo em Debate”, na Rádio Ponto UFSC, hoje


Matéria produzida por Guilherme Longo, graduando em Jornalismo da UFSC 


“Jornalismo em Debate” retorna à programação da Rádio Ponto UFSC, nesta terça-feira, dia 16, a partir das 16h, com o tema “A cobertura da imprensa brasileira sobre religiões: fé da imprensa ou mídia laica?”. Nesta primeira edição do ano de 2013, os convidados vão debater como a fé e as manifestações religiosas são retratadas pela imprensa em um país definido como laico pela sua Constituição.

Todas as religiões praticadas no Brasil têm espaço nas emissoras de rádio, canais de televisão ou mídias impressas do país?  Como se comportou a imprensa brasileira na recente cobertura da eleição do Papa Francisco I? Estas e várias outras questões sobre o tema vão ser abordadas no programa desta terça-feira.

Já estão confirmados para a mesa de debates o jornalista da TV Senado Chico Sant’Anna, o jornalista e professor da UFG e PUC-Goiás Luiz Signates, o professor do Instituto de Teologia de Santa Catarina Domingos Nandi e o escritor e colunista do Diário Catarinense Fábio Brüggmann. A produção do "Jornalismo em Debate" está em contato com outros especialistas e jornalistas para também participarem do debate.

O programa vai ao ar a partir das 16h desta terça-feira, com uma hora e meia de duração. É transmitido pela Rádio Ponto UFSC - www.radio.ufsc.br - e em rede pela Rádio Joinville Cultural 105.1 FM. Os ouvintes podem interagir enviando perguntas e questionamentos para o e-mail jornalismoemdebateufsc@gmail.com ou pelo twitter @radioponto.

Neste semestre, “Jornalismo em Debate” passa a ser transmitido mensalmente, produzido por estudantes do Curso de Jornalismo da UFSC, orientados pela professora Valci Zuculoto. O programa, mediado pelo professor Áureo Moraes, integra a Cátedra FENAJ/UFSC de Jornalismo para a Cidadania, uma parceria entre o Curso de Jornalismo da Universidade e a Federação Nacional dos Jornalistas, com o apoio do Sindicato dos Jornalistas de Santa Catarina (SJSC).

Desde a estreia, em abril de 2011, foram discutidos temas como jornalismo internacional, corrupção no futebol, crise econômica mundial, coberturas sobre educação, de tragédias como a do Realengo, de questões do gênero feminino, da homofobia, da função das redes sociais, entre outros assuntos que estão na pauta diária da imprensa.

No site da Rádio Ponto (www.radio.ufsc.br) é possível baixar e ouvir todas as edições anteriores de “Jornalismo em Debate”. E não esqueçam: os ouvintes e internautas podem participar, antes e durante o programa, encaminhando perguntas pelo e-mail: jornalismoemdebateufsc@gmail.com ou pelo twitter @radioponto.

Mais sobre os convidados desta edição:


  • Chico Sant’Anna: jornalista da TV Senado, com mestrado pela Universidade de Brasília e doutorado sobre as mídias das fontes na Universidade de Rennes – 1, na França.
  • Luiz Signates: professor do Mestrado em Comunicação da Universidade Federal de Goiás (UFG) e do curso de Jornalismo da Pontifícia Universidade Católica de Goiás (PUG-GO). É coordenador dos Núcleos de Pesquisa em Comunicação, Cidadania e Política da UFG e Comunicação e Cidadania da PUC-Goiás.
  • Domingos Nandi: professor do Instituto de Teologia de Santa Catarina, com mestrado em Ciências da Comunicação pela Universidade Pontifício Salesiana e doutorado na mesma área pela Universidade do Vale do Rio dos Sinos - UNISINOS. Atua nas áreas de liturgia e novas tecnologias de comunicação.
  • Fábio Brüggmann: Escritor, editor e roteirista, natural de Lages, produz a coluna “Penso” do Caderno de Cultura do Diário Catarinense, veiculada aos sábados, debatendo os principais assuntos da semana


domingo, 10 de fevereiro de 2013

Canais da Band também podem ser comprados pelo pastor Valdemiro Santiago

Do Câmara em Pauta


O líder religioso Valdemiro Santiago, da Igreja Mundial do Poder de Deus, conhecido nas redes sociais por chorar para pedir dinheiro aos fiéis, pode tornar-se proprietário de duas redes de TV. Segundo informações da Folha de S.Paulo, o “diplomata” estaria finalizando com as Organizações Martinez a compra da rede CNT de televisão, por cerca de R$ 500 milhões. A CNT possui atualmente, entre emissoras próprias, retransmissoras e afiliadas, 48 praças que levam o seu sinal pelo país.

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Desde o ano passado, o Apóstolo está negociando a compra de Rede 21, do Grupo Bandeirantes, de quem aluga 22 horas diárias já há cinco anos. O novo contrato envolvendo o arrendamento do canal e, mais adiante, a compra com abatimento do valor já investido na emissora, num negócio em torno dos R$ 700 milhões. Os dirigentes da Band, da CNT e da Igreja Mundial não quiseram comentar o assunto.

Trízimo de emergência – Ano passado, o Apóstolo chorou afirmando que tinha uma dívida de cerca de R$ 30 milhões com o aluguel de horários nas grades de TV da Band, Rede TV e CNT. Com o novo investimento, Valdemiro foi para a TV pedir aos fiéis uma “doação emergencial” e quer que pelo menos 100 mil pessoas ajudem a Mundial com uma doação de R$ 200 cada. Isso sem contar com o “trízimo”, que é a doação de 30% do salário à igreja, para pagar 10% para o Pai, 10% para o Filho e 10% para o Espírito Santo.

Pelo andar da carruagem, a venda de mercadorias como as meias ungidas ou a redinha da prosperidade que custam R$153,00 cada, ou o martelinho sagrado pela pechincha de R$ 1.000, continua não indo muito bem...

Concessão – Vale sempre lembrar que as concessões de emissão de rádio e TV são públicas, apesar dos concessionários agirem como proprietários, inclusive alugando horário, como é o caso da Igreja Mundial e de outras igrejas. O sistema de radiodifusão deveria ser controlado e regulado pelo Ministério das Comunicações e a Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel), mas na realidade isso não acontece.

A "concessão" é – ou deveria ser – temporária e é entregue às emissoras, através de processos de licitação. Para concorrer, a empresa deve ter no mínimo 70% do capital nas mãos de acionistas brasileiros e respeitar o limite de controle de até dez estações em todo o país, sendo no máximo duas por estado e cinco em VHF, sem contar as retransmissoras. Uma comissão do Ministério das Comunicações analisa a proposta de programação e a condição técnica e financeira e quem tiver a melhor média de pontos fica com o direito de explorar determinado canal por um período pré-definido e, ao final dele, passa por uma nova análise e caso o ministério, constate que uma emissora fez uso do canal para fins diferentes dos que se esperava dela, pode se recusar a renovar a concessão. Nada disso ocorre, já que na prática a renovação é automática.

Por essas e outras, este Portal defende a Democratização das Comunicações e a regulação da atividade, além de apoiar a medida da presidente Dilma Rousseff, que pretende acabar com o aluguel dos horários, o que significa um primeiro passo. Vale ainda lembrar que a concessão é pública e o estado é laico e isso deveria ser observado na hora de "doar" os direitos de emissão de Rádio e TV. 

sábado, 9 de fevereiro de 2013

Televisão: Pastor Valdemiro Santiago, da Igreja Mundial, compra Rede CNT

Da Exame.com

Fundada no Paraná, emissora de TV tem sinal transmitido por 48 praças no Brasil, inclusive para a Capital Federal, em UHF.


O pastor Valdemiro Santiago, da Igreja Mundial do Poder de Deus, é o novo dono da rede de TV CNT. A informação é do blog Radar, de Veja, assinado pelo colunista Lauro Jardim. Com o negócio, Valdemiro passa a ter um canal na TV aberta, a exemplo de Edir Macedo, fundador da Igreja Universal do Reino de Deus e dono da Record.
Procuradas por EXAME.com, tanto a CNT quanto a Igreja Mundial não tiveram representantes localizados. Ontem, a Folha de S. Paulo havia publicado que Valdemiro estaria prestes a finalizar a transação, avaliada em 500 milhões de reais.
Ainda segundo a Folha, a Rede 21, do Grupo Bandeirantes, também estaria no radar do líder religioso, em um negócio avaliado em 700 milhões de reais. Para concretizar os investimentos, Valdemiro teria pedido uma "doação emergencial" aos fiéis pela TV, informou o jornal.
Emissora paranaense
Com sede em Curitiba, no Paraná, a rede CNT, sigla para Companhia Nacional de Televisão, surgiu das cinzas da emissora OM. Comandada pelo empresário José Carlos Martinez, a OM nasceu em 92 com a benção do governo, antes do impeachment do ex-presidente Fernando Collor de Mello.
Com o tempo, a empresa acabou atolando-se em dívidas. Para se reeguer, teve metade das ações vendidas ao ministro da Agricultura do governo Fernando Henrique, José Eduardo de Andrade Vieira, então dono do banco Bamerindus.
O controle voltou à família Martinez em 96. De lá para cá, a emissora chegou a ter apresentadores como Marília Gabriela, Adriane Galisteu e Luciano Huck na programação.
Atualmente, uma generosa fatia da sua grade já era vendida à Igreja Mundial. A CNT conta com sucursais em São Paulo, Rio de Janeiro, Londrina, Salvador e Brasília, e tem seu sinal transmitido por 48 praças no país.

segunda-feira, 28 de janeiro de 2013

Entidades do Ceará se contrapõem à transmissão de missas em TV legislativa

Por Iara Moura - para Observatório do Direito à Comunicação

Após o anúncio feito pelo presidente da Câmara Municipal de Fortaleza, vereador Walter Cavalcante (PMDB), no dia 1º de janeiro, de que teria como uma das prioridades do seu mandato a transmissão de missas e cultos nos canais legislativos – TV e Rádio Fortaleza – o debate sobre a laicidade do Estado, a programação e a gestão das emissoras públicas vem ganhando espaço na mídia, na Câmara e em grupos da sociedade civil. Na última segunda-feira (21), dia nacional de combate à intolerância religiosa, comunicadores populares, entidades da sociedade civil, movimentos sociais e parlamentares se reuniram com o objetivo de abrir um espaço de diálogo para contrapor a a proposta do presidente da Câmara.

Segundo Aby Rodrigues, do Instituto Negra do Ceará (Inegra), a proposta representa um movimento de avanço de práticas que fortalecem o machismo, o patriarcalismo e o racismo. “Lembramos que o mesmo vereador também é autor da proposta de inclusão da Marcha pela Vida Contra o Aborto no calendário oficial do município, um ataque direto à luta pela legalização e descriminalização, quando todas/os sabemos que são as mulheres negras pobres que mais abortam nesse país e consequentemente são as que mais morrem pela falta de assistência médica. Além disso, vale destacar que muitas de nós são praticantes das religiões de matriz africana, crença que já sofre bastante discriminação em uma sociedade majoritariamente cristã e racista”, afirma.

Laryssa Sampaio, estudante de Comunicação Social e militante da Marcha Mundial de Mulheres, reitera a preocupação com o avanço do conservadorismo e defende que a luta das mulheres “também passa pela luta por um outro modelo de comunicação”. Segundo a estudante, algumas propostas de ação foram discutidas na reunião realizada na última segunda-feira. “Conseguimos dar encaminhamentos que buscam o diálogo com a sociedade, que travam a luta política por um modelo de comunicação democrático, laico e popular e ainda a luta no âmbito judicial”, ressalta.

Constituição

O Artigo 19 da Constituição Federal Brasileira proíbe o Estado de “estabelecer cultos religiosos ou igrejas, subvencioná-los, embaraçar-lhes o funcionamento ou manter com eles ou seus representantes relações de dependência ou aliança, ressalvada, na forma da lei, a colaboração de interesse público". Em matéria publicada no jornal O Povo em 15 de janeiro deste ano, o vereador Elpídio Nogueira (PSB) – encarregado de levar adiante a proposta de transmissão das missas e cultos nos canais legislativos municipais – afirmou que o estado laico deve respeitar “as maiorias” e que não se trata de “colocar a religiosidade oficialmente, mas retratar o aspecto religioso da cidade”.

Em 2010, a Empresa Brasil de Comunicação (EBC) passou por discussão similar que resultou na determinação de seu Conselho Curador de retirar os programas religiosos veiculados pela TV Brasil e pelas rádios da empresa de suas grades de programação, a partir da avaliação que a emissora pública não poderia conceder espaços para o proselitismo de religiões particulares. Em 2012, o Conselho Curador determinou a criação de uma faixa de conteúdo religioso orientada por um conselho editorial específico. 

Manifestação

As entidades e movimentos presentes na reunião lançaram hoje  uma nota oficial (leia abaixo) se contrapondo à medida dos parlamentares e anunciaram que irão recorrer ao Ministério Público questionando o respeito ao princípio da laicidade do estado. Segundo Raquel Dantas, integrante do Intervozes, o objetivo central do grupo é garantir uma discussão democrática e participativa sobre a programação dos canais legislativos. “O caso da veiculação de missas e cultos é um caso específico de conteúdo, mas a discussão sobre o que é veiculado deve ser geral e acessível a qualquer cidadão. Um Conselho com participação popular seria um caminho para essa abertura, como vemos nos avanços tomados pela EBC através do Conselho Curador num caso semelhante ao da TV Câmara”, defende.

A próxima reunião aberta do grupo acontecerá no Conselho Regional de Serviço Social – CRESS, no dia 30/01 às 18h. O CRESS está localizado na Rua Waldery Uchoa, 90, no bairro Benfica.

Confira a nota publicada pelas entidades:


TV e rádio Fortaleza: comunicação pública deve ser laica e democrática,
com pluralidade e diversidade

Nós, comunicadores populares, movimentos sociais e religiosos abaixo-assinados, questionamos a transmissão de rituais religiosos na TV Fortaleza, proposta pelo presidente da Câmara Municipal, vereador Walter Cavalcante (PMDB), e assumida pelo vereador Elpídio Nogueira (PSB).

Defendemos a divulgação da fé ou de quaisquer crenças, que pode e deve ser realizada, sem qualquer discriminação, nos programas das emissoras legislativas. No entanto, somos contrários (as) ao uso de meios de comunicação públicos para fins de proselitismo religioso, o que em nada contribui para um ambiente de respeito à diversidade e à pluralidade de crenças religiosas, valores ético-morais e visões políticas que caracterizam a nossa sociedade. O privilégio concedido a segmentos, ao contrário, retira do Estado o seu caráter laico e fortalece uma cultura de intolerância.

Nosso argumento é para que se cumpra a Constituição Federal, mais precisamente explicitada no Artigo 19: “É vedado à União, aos Estados, ao Distrito Federal e aos Municípios: I - estabelecer cultos religiosos ou igrejas, subvencioná-los, embaraçar-lhes o funcionamento ou manter com eles ou seus representantes relações de dependência ou aliança, ressalvada, na forma da lei, a colaboração de interesse público”.

Acreditamos que a proposta, divulgada em matéria feita pelo jornal O Povo no dia 15 de janeiro deste ano (acessível em: http://migre./cVcoo), viola a Constituição, já que não se trata de uma corriqueira divulgação da diversidade religiosa e cultural de nossa cidade, mas de uma promoção seletiva de confissões cristãs que tende a contemplar apenas grupos restritos. Por isso, solicitamos a imediata anulação da medida pela Câmara Municipal de Fortaleza.

Requeremos, ainda, em cumprimentos dos pressupostos democráticos e republicanos que devem basilar a comunicação pública, que a Casa Legislativa abra espaço para discutir com a sociedade civil a programação da emissora pública legislativa à exemplo do que vem ocorrendo na Empresa Brasil de Comunicação (EBC), que agrega televisões, rádios e agências de notícias do Governo Federal. Em 2010, a EBC passou por um processo similar, cujos debates e consultas resultaram na determinação do Conselho Curador, com ampla participação da sociedade civil, de retirar os programas religiosos que compunham a programação da TV Brasil e das rádios da empresa.

A deliberação do conselho ratificou um parecer elaborado no mesmo ano pela Câmara de Educação, Cultura, Ciência e Meio Ambiente do órgão, que defendia ser “impróprio que os veículos públicos de difusão concedam espaços para o proselitismo de religiões particulares, como acontece atualmente com os programas que vão ao ar na TV Brasil aos sábados e domingos, dedicados à difusão de rituais ou de proselitismo que favorecem a religião católica e a segmentos de outras religiões cristãs”. Neste caso, os programas foram retirados do ar, e, em julho de 2012, a EBC criou a Faixa da Diversidade Religiosa, que vai criar um programa, com uma hora de duração e de cunho jornalístico, focado na reflexão sobre as diversas crenças e outro, com meia hora, diretamente voltado às mensagens dos distintos grupos e expressões religiosos.

Nesse sentido, ressaltamos a necessidade de que seja realizado um amplo debate que envolva o poder legislativo municipal e a sociedade civil organizada para construir uma proposta de programação para as emissoras públicas (TV e rádio Fortaleza). A nova grade deve contemplar a diversidade e a pluralidade de ideais e crenças e que cumpra, em última instância, o objetivo central de informar a sociedade sobre as ações da Câmara de Fortaleza.

Assinam esta nota:

Consulta Popular
Executiva Nacional dos Estudantes de Comunicação Social
Fábrica de Imagens
Fórum Cearense de Mulheres
INEGRA
Intervozes
Juventude Negra Kalunga
Mandato Ecos da Cidade
Mandato Ronivaldo Maia
Marcha Mundial das Mulheres
Nigéria Comunicação e Audiovisual
Rede Nacional de Advogadas e Advogados Populares/CE
Serviço de Assessoria Jurídica Universitária –SAJU
TERRAMAR

terça-feira, 28 de agosto de 2012

Igreja Universal usa Facebook para arrecadar donativos

Do Brasil 247.


IGREJA DE EDIR MACEDO AVANÇA SOBRE AS REDES SOCIAIS E CRIA APLICATIVO PARA ANGARIAR DOAÇÕES DE SEUS FIEIS ATRAVÉS DE PÁGINA NO FACEBOOK.
É O APELO DIVINO PARA INSTITUCIONALIZAR O PAGAMENTO DO DÍZIMO ONLINE.
QUANTO ENTRA? PAGA IMPOSTO?
VÍDEO ENSINA COMO DOAR "COM SEGURANÇA"

Com o avanço da tecnologia e, especialmente, a popularização do Facebook, a Igreja Universal do Reino de Deus (IURD) agora avança sobre as redes sociais para evangelizar e angariar doações online de seus fiéis. Através da sua página no Face, que contém inclusive um vídeo explicativo sobre como proceder para concretizar as doações, a Universal afirma que "um novo sistema tecnológico de doações faz da Igreja Universal do Reino de Deus uma pioneira nesse quesito". E deve ser mesmo. Nunca a tecnologia esteve tão a serviço da fé e da arrecadação como agora. É o aval divino para institucionalizar o pagamento do dízimo online.
Afirmando que as doações são realizadas em um ambiente virtual totalmente seguro, os pagamentos, a partir do valor mínimo de R$ 20,00, podem ser feitos através via cartão de crédito ou por boleto bancário. Funcionando de forma outros aplicativos da rede social, a IURD possibilita que o contribuinte destine a sua contribuição no formato de dízimo, oferta para a construção do Templo, oferta para evangelização em rádio e televisão, auxiliares do Bispo (Edir) Macedo e voto com Deus".
O passo a passo ensina o processo. O doador escolhe, primeiramente, a forma de pagamento. Depois, menciona o objetivo da doação, ou seja, a pessoa explica como gostaria que o dinheiro fosse aplicado. Por fim, o fiel explicita o valor a ser doado. Apesar da aparente desburocratização do processo, a igreja pede que os fieis apresentem o comprovante de contribuição, sempre que possível, para que seja feita a conferência da transação efetuada.
O vídeo com tais informações foi alvo, em apenas um dia, de 185 compartilhamentos a partir da página da IURD no Facebook. Além disso, 41.790 pessoas já curtiram a página da entidade. Quem não tiver Facebook, também pode doar pelos endereços eletrônicoswww.doacao.arcauniversal.com ou pelo www.iurdtv.com. Na página do Bispo Edir Macedo, que também contém as orientações para a doação online, 90 pessoas haviam curtido o vídeo e outras 52 haviam compartilhado o mesmo.
De acordo com dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a IURD tem cerca de 1, 873 milhão de adeptos em todo o país, tendo perdido 230 mil de 2000 a 2010. A Igreja foi fundada em 1977 pelo bispo Edir Macedo e conta com templos em quase 200 países pelo mundo afora. Agora, com o uso da rede social, tanto a IURD como o Bispo Macedo farão da tecnologia uma grande aliada para estreitar seu relacionamento com os fieis através das mídias sociais e engordar ainda mais os cofres da Igreja Universal mundo afora. Só que, neste caso, a transação financeira é real e não virtual.
Clique aqui e assista ao vídeo que ensina fazer doações pelo Facebook.