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terça-feira, 26 de agosto de 2025

As redes sociais e o Eu como mercadoria


"Quando o “eu” se transforma em ativo comercial, o risco não é apenas a alienação individual — é a desfiguração do espaço público e da democracia. Regular as plataformas é reumanizar o debate. É restituir ao cidadão a dignidade da palavra. E à política, o compromisso com o bem comum."


Por Israel Fernando de C. Bayma*

 

            Bem, pode-se até dizer que a Internet, desde os seus primórdios, surgiu como tecnologia para conexão de pessoas e com total liberdade de expressão, sem nenhum tipo de controle. Podemos ser categóricos: as redes sociais digitais, não. Já surgiram em plataformas de conexão e controle pelos seus proprietários e, sob essa fachada,  passaram a operar como máquinas de despojo da subjetividade humana. Em vez de simplesmente promoverem a comunicação, elas convertem emoções, desejos e a intimidade do indivíduo em mercadorias digitais.

            Nas redes sociais prevalece a banalização da intimidade com um grau extremo de mercantilização da vida íntima no capitalismo contemporâneo. Há uma lógica de mercantilização que transforma a vida íntima em commodity. E, nesse contexto, não é o corpo que está à venda, mas o tempo psíquico, o afeto, o desejo de reconhecimento e a autoimagem performada.

            As explicações para o que ocorre podem ser encontradas tanto em Marx como em formas mais ampliadas de pensadores como Zuboff, Fuchs, Bauman e Han.

            Em A Comunicação Social Eletrônica na Constituição de 1988, defendi que as redes sociais digitais, por sua natureza de difusão pública e alcance massivo, devem ser compreendidas como meios de comunicação social eletrônica — e, por isso, sujeitas ao regime jurídico de regulação previsto no art. 222, § 3.º, da Constituição de 1988. Esse dispositivo, embora positivado na Constituição, é uma norma de eficácia limitada, pois depende de lei específica regulamentadora para fixação dos parâmetros de eficácia jurídica – aplicabilidade, exigibilidade ou executoriedade normativa. Isso justifica a insistência para que seja elaborada uma norma regulamentadora das redes sociais digitais.

            Enquanto isso, em linha complementar, em Que Tal Retirar o Véu dos Algoritmos das Platafor­mas Digitais? , defendi que os algoritmos, ao operarem como filtros invisíveis da in­formação, es­truturam o debate público e têm interferido na formação da opinião e, por isso, também de­veriam estar su­jeitos a princípios constitucionais como transparência, pluralismo e controle democrático.

            Há mais de 15 anos, em uma entrevista concedida à revista do Fórum Nacional pela Democratização da Comunicação (FNDC), manifestei o meu receio de que a Internet viesse a ser dominada pelas grandes corporações multinacionais.

            Hoje estamos em um cenário pior do que ter a Internet controlada pelas corporações. Há uma constatação mais ampla: nas redes sociais, a subjetividade humana está convertida em mercadoria. A vida íntima, os afetos, o desejo de reconhecimento e até mesmo o ócio das pessoas estão sendo empacotados nas chamadas redes sociais em formatos digitalmente comercializáveis.

            Shoshana Zuboff definiu tudo isso como capitalismo de vigilância, conceito desenvolvido inicialmente em seu artigo “Big other: surveillance capitalism and the prospects of an information civilization” (Journal of Information Technology, 2015), e posteriormente aprofundado no livro The Age of Surveillance Capitalism: The Fight for a Human Future at the New Frontier of Power (2021).

            Para mim, é uma alienação contemporânea que pode ser compreendida também à luz de Marx, em Manuscritos Econômico-Filosóficos e O Capital – Livro 1, onde o pensador alemão denuncia a perda do “ser genérico” do trabalhador sob o regime da mais-valia. Nesse ambiente digital das redes sociais não apenas o conteúdo é alienado: o próprio sujeito é transformado em capital simbólico e emocional, explorado pelas plataformas das redes sociais que lucram com sua atenção, seu afeto e seus dados pessoais.

            Já Christian Fuchs denomina esse fenômeno play labour (trabalho-lazer) - “expressão de um novo espírito/ideologia do capitalismo” - em sua obra Social Media: A Critical Introduction (2014), explicando que o trabalho invisível da interação nas redes, embora pareça lazer, alimenta um sistema que extrai valor sem remuneração.

            As “liquidezes” de Zygmunt Bauman, em Vida para Consumo (2008) e Amor Líquido (2008), também observam que, na modernidade líquida, a identidade se dissolve em performances adaptáveis. “Os membros da sociedade de consumidores são eles próprios mercadorias de consumo, e é a qualidade de ser uma mercadoria de consumo que os torna membros autênticos dessa sociedade”, afirma Bauman. São as “comunidades de ocasião” construídas em torno de eventos, lives,  influencers.

            Byung-Chul Han radicaliza esse ponto em Psicopolítica (2014) e A Sociedade do Cansaço: o neoliberalismo e as novas técnicas de poder (2015). O sujeito de desempenho tornou-se explorador e explorado de si mesmo. “É quantificável, mensurável e controlável.” Vive sob a coação de maximizar sua presença, sua imagem, seu engajamento.

            Hoje, nas redes sociais tudo é espetáculo, a política virou meme, a dor virou conteúdo, e a existência virou interface. A direita brasileira – que continua reacionária - compreendeu isso. Aprendeu a operar nesse ecossistema emocional, onde o carisma vale mais que o conteúdo, e a viralidade mais que a coerência ou a verdade. Onde a lógica opaca e mercantilizada tem servido como canal de desinformação, radicalização e manipulação política, como nos episódios envolvendo o apoio indireto que dão ao atual presidente norte-americano. Há uma instrumentalização do espaço digital das redes sociais incompatível com uma regulação verdadeiramente democrática.

            Por outro lado, até recentemente, a esquerda brasileira parecia estar presa a uma lógica discursiva racional, falava, mas não engajava. Sabia, mas ainda pouco tinha conseguido reverberar. No entanto, hoje, os dados são mais claros: a imposição estapafúrdia de uma sobretaxa do presidente norte-americano contra as exportações brasileiras detonou uma reação em cadeia. O episódio não apenas amplificou exponencialmente a presença da esquerda nas redes sociais, como ecoou globalmente – com cobertura crítica nos grandes jornalões nacionais e estrangeiros que destacaram o caráter predatório da medida e expuseram os interesses da direita brasileira que a articularam.

            Nas plataformas das redes sociais, o crescimento de inserções positivas foi explosivo: menções positivas à esquerda e ao Governo brasileiro dispararam, vinculando a crise comercial ao projeto da direita mundial de desmonte soberano. Virou caso emblemático de como uma ofensa econômica pode, quando bem contestada, converter-se em capital político digital. Qual foi a diferença desta vez? A esquerda soube transformar números frios – os bilhões de dólares em perdas – em narrativa bem conduzida sobre defesa da soberania e da resistência do povo brasileiro.

            Pela primeira vez em anos, nas redes sociais, a esquerda brasileira não apenas reagiu – mas ditou os termos do debate, convertendo uma agressão política e econômica em capital político digital. Vejo que a regulação democrática das plataformas das redes sociais se torna urgente. O ambiente informacional contemporâneo exige regras. Regras que submetam os algoritmos à Constituição Federal de 1988, como propus em meus trabalhos anteriores. Regras que impeçam que a liberdade de expressão seja capturada por modelos de negócio que favorecem o ódio, o extremismo e a manipulação. Regras de auditoria algorítmica, por exemplo. Precisamos resgatar a fala como espaço de alteridade, a escuta como ato político, e a comunicação como direito — não como mercadoria.

            Quando o “eu” se transforma em ativo comercial, o risco não é apenas a alienação individual — é a desfiguração do espaço público e da democracia. Regular as plataformas é reumanizar o debate. É restituir ao cidadão a dignidade da palavra. E à política, o compromisso com o bem comum.

 

* Engenheiro eletrônico e advogado.

terça-feira, 14 de fevereiro de 2023

Classificados do Facebook vira banquete para golpistas

Diversas são as formas dos espertalhões tentar levar o seu dinheiro de forma fácil. Veja, a seguir, como identificar e como evitar esses golpes. 

Por Caroline de Oliveira/Atitude News

É perceptível o movimento de migração de pessoas mais jovens do Facebook para outras redes sociais, é nítido também que o Facebook tenha atraído e mantido um público de pessoas adultas com mais de 50 anos.

A rede social criada por Mark Zuckerberg há 19 anos, passou por diversas mudanças desde sua criação e tem investido bastante nos recursos de comunidades e marketplace. Recursos que são muito utilizados para concentrar pessoas de determinadas regiões para compra e venda de produtos novos e usados em diversas categorias.

De modo geral, pessoas honestas anunciam produtos verdadeiros, negociam e cumprem os acordos de negociação, porém, há uma grande quantidade de golpes sendo aplicados nesses classificados ou comunidades. O número de vítimas nessas fraudes pode ser justificado pelo perfil atual de usuários da plataforma, que em grande parte, podem não ter tanta intimidade com tecnologias e também uma certa ingenuidade.

Muitos desses golpes usam a engenharia social para fazer do possível interessado uma vítima, e diferentemente de sites ou lojas onde o usuário pode consultar a reputação, nesses casos, os criminosos aplicam as fraudes por WhatsApp, telefone ou através de chat do próprio Facebook, dificultando  a identificação do golpe através de buscas, pois não há um padrão e pode ser  apresentado de forma diferente.

Falamos com Alessandro Fontes, especialista de segurança digital e co-fundador do Site Confiável que listou os principais golpes de classificados do Facebook e também deu dicas para evitar essas fraudes:

Vagas de emprego

Como funciona?

O texto e as propostas sempre podem mudar, mas de modo geral, muitas dessas vagas oferecem ganhos extras para trabalhar de casa ou vagas com alto salários, inclusive até usam o nome de grandes empresas.

Como evitar?

Evite confiar em vagas de emprego anunciadas em classificados, mas se mesmo assim você desejar saber mais detalhes sobre a oportunidade , vá até a empresa verdadeira e pergunte sobre as vagas anunciadas. E lembre-se que não faz sentido algum você pagar por taxa de curso, exame ou qualquer outro valor que seja solicitado.

Dinheiro a receber

Como funciona?

FGTS, auxílio emergencial, resgates, Bolsa Família, heranças, saldos em conta, direitos adquiridos, são várias as formas de atrair vítimas para esse tipo de golpe, afinal quem não quer receber um dinheiro esquecido por aí, não é mesmo? O golpe, que já é popular em correntes de WhatsApp, circula também por classificados do Facebook para atrair vítimas. Além do risco de prejuízo financeiro, há também a possibilidade de captura de dados através de links ou até mesmo solicitação desses dados via texto pelos criminosos. Essas informações pessoais, que supostamente seriam necessárias para a consulta ao benefício, podem ser utilizadas para criar contas em bancos digitais e até mesmo para hackear suas redes sociais.

Como evitar?

Viu uma oferta como essa? Não interaja. Se mesmo assim você ficar curioso para saber se tem algum tipo de benefício para receber, vá até o órgão oficial que estaria ligado a esse benefício. Se a proposta for através de link, você pode consultar o link no www.siteconfiavel.com.br para saber o tempo de vida do site, reputação e possíveis vulnerabilidades de segurança.

Propostas para remoção do nome dos órgãos de proteção ao crédito

Como funciona?

Com textos que procuram por pessoas negativadas, com score baixo ou nome no serasa, as propostas sugerem que você deixe seu número ou entre em contato com um especialista que irá te ajudar a limpar seu nome ou melhorar sua pontuação de crédito. Uma das formas de gerar o prejuízo é criar uma proposta de negociação de dívida ou pedir um valor para esse serviço.

Como evitar?

Normalmente não é assim que as empresas fazem negociações de dívidas, mas se mesmo assim você ficar em dúvida, você pode ligar diretamente ao Serasa ou ao banco com o qual você tem a dívida e perguntar sobre a possível negociação. Jamais envie dinheiro a terceiros ou empresas desconhecidas.

Pedidos de ajuda

Como funciona?

O brasileiro é sempre muito solidário, mas infelizmente, sabendo disso, alguns criminosos criam situações bem tristes para pedir dinheiro via pix. Existem, claro, pessoas que realmente precisam de ajuda e que usam essas plataformas para pedir um auxílio, mas você precisa ficar atento.

Como evitar?

Evite fazer esse tipo de doação, há muitos relatos de golpes. Se você ficou comovido(a) com a história, oriente a pessoa a procurar a assistência social da sua cidade e se quiser fazer uma doação procure uma família que realmente precise, fale com alguma ONG que possa te orientar ou use o site www.praquemdoar.com.br, que é uma ferramenta que mapeia iniciativas de impacto social sérias por todo país.

Venda de iPhone barato

Como funciona?

Por ser um item popular e desejado, criminosos postam para venda smartphones da Apple, descrevendo os produtos como novos, de vitrine e até usados por preços muito abaixo do praticado, junto a isso algumas informações como: baixa disponibilidade ou tempo limitado para comprar, que são gatilhos mentais para convencer a vítima a enviar um sinal financeiro, para que supostamente eles "reservem" o produto para o comprador.

Como evitar?

Considere sempre a possibilidade de que o golpista possa utilizar dados de uma loja ou pessoa que realmente exista para criar uma prova social. Ou seja, jamais envie dinheiro antecipado ou parte do valor sem antes receber e conferir a mercadoria em mãos e isso vale para outros itens também, o iPhone é um dos exemplos.

Venda de carro

Como funciona?

Um dos golpes mais populares no processo de compra e venda de carros e que também pode ser aplicado em imóveis, é o chamado "golpe do intermediário", que é bem complexo e que faz muitas vítimas. O criminoso conecta um vendedor real com um comprador de verdade para aplicar o golpe. Ou seja, é muito difícil perceber, e qualquer um pode ser vítima se não ficar atento aos mínimos detalhes.

Na prática o fraudador busca por anúncios no próprio marketplace ou sites de vendas de carros, clona o anúncio e divulga o mesmo carro com preço abaixo do valor de mercado. A vítima, atraída pelo preço, inicia a conversa com o "intermediário" que se passa pelo vendedor, envia detalhes sobre o carro, vídeos, documentos e faz o cliente acreditar que está em uma negociação verdadeira para pedir algum tipo de adiantamento para "segurar" a venda para ele. Há relatos, inclusive, de encontros entre comprador e vendedor sem que eles percebam que estavam falando com intermediário. Nesses casos, o criminoso orienta ambos a não tratarem de valores na negociação e após o encontro e análise do veículo, o golpista segue solicitando dinheiro durante o acordo online.

Como evitar?

Desconfie de preços muito abaixo do praticado pelo mercado, se tiver um encontro com vendedor, verifique os documentos, peça o número de celular do vendedor para confirmar se é com ele mesmo que você está conversando e pergunte o valor do veículo para saber se bate o valor que você tinha visto no anúncio, e por fim, pague apenas na condição de ter o veículo transferido para seu nome. Se estiver vendendo, fique atento a falsos comprovantes de transferência via pix ou DOC/TED.

terça-feira, 31 de janeiro de 2023

Pesquisa aponta indução dos algoritmo do Instagram a transtornos alimentares em mulheres

Decréscimo da autoestima e insatisfação corporal surgem da pressão por padrões de beleza. Quanto maior o engajamento na rede social também maior é a influência negativa

Da Ascom do Uniceub

O Instagram é uma rede social que vai além da informação dinâmica. A vitrine social mostra pessoas, lugares e situações como sinônimo de pertencimento social, sucesso e felicidade plena. Por vezes, distorce a imagem da realidade e acaba frustrando homens e mulheres, sobretudo o público feminino. Com base nos efeitos psicológicos causados pela rede, a estudante de Psicologia do Centro Universitário de Brasília (CEUB), Stephanie Popoff, realizou uma pesquisa com 118 mulheres de 18 a 54 anos e usuárias assíduas do Instagram, para identificar a relação entre o uso da rede como comportamento de risco associado aos transtornos psicológicos e alimentares em jovens adultas.

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Os resultados são impactantes: das 118 mulheres entrevistadas, 83,9% relataram ter tido diagnóstico de transtornos psiquiátricos, sendo os transtornos de ansiedade os mais prevalentes na amostra 51,5%, seguidos por transtornos de humor 24,2%. Outras 14,1% participantes afirmaram ter diagnóstico de transtornos alimentares. “A utilização excessiva de alguns conteúdos recomendados pelo algoritmo do Instagram pode influenciar para o surgimento de transtornos alimentares, considerando que a insatisfação corporal é um fator de risco para a manifestação de transtornos alimentares”, explica Stephanie.

Orientador do projeto e professor de Psicologia do CEUB, Daniel Barbieri destaca que pelo fato da rede social estar integrada à vida das pessoas, provoca diferentes graus de engajamento, de modo que as pessoas consideram uma parte significativa da vida e se importam com as reações. “As pessoas que postam muitas informações são diretamente afetadas pelas reações estabelecidas – o que se relaciona à autoestima das mulheres com maior engajamento nas redes sociais”, considera. “Mulheres que são mais engajadas no Instagram podem passar o dia inteiro sofrendo publicações de outros engajamentos”, alerta Daniel.

A partir da interpretação dos dados, as informações pessoais - fotos, momentos históricos – são aquelas mais sujeitas a gerar os julgamentos estéticos e alimentares. “De fato, as redes sociais são interessantes em vários contextos, por possibilitar a comunicação entre as pessoas, mas tem uma faceta perigosa, que é potencialmente danosa à saúde mental”, considera Daniel. De forma complementar, a estudante de Psicologia do CEUB arremata: “O mais crítico é porque a rede opera como propagadora de determinados ideais de beleza que, muitas vezes, são insustentáveis ou até mesmo inexistentes”.

Maior engajamento e menor autoestima

A pesquisa da aluna do CEUB se propôs a investigar de que maneira o uso do Instagram está relacionado à autoestima e a satisfação corporal de mulheres adultas, tendo em vista que a plataforma utiliza estritamente a imagem corporal como ferramenta de interação entre os usuários. Também buscou correlacionar o uso exacerbado do Instagram como comportamento de risco associado aos transtornos alimentares em jovens adulta.

Para essa apuração, a pesquisadora entrevistou 118 mulheres adultas, de 18 a 54 anos e usuárias assíduas do Instagram por meio de três questionários distintos. Entre pontuações que significam “discordo totalmente e concordo totalmente” as mulheres responderam sobre os conteúdos preferidos e se sentem pressionadas por determinados tipos de padrão.

quinta-feira, 12 de maio de 2022

Como criar roteiro para mininovelas de até um minuto no Kwai


Diretores e produtores participantes do projeto TeleKwai dão dicas para desenvolver um roteiro e produzir vídeos curtos originais e de qualidade.


Por Gabriela Menezes, da RPMA Comunicação


O Kwai, aplicativo de criação e compartilhamento de vídeos curtos, tem conquistado cada vez mais o público no Brasil com suas mininovelas. Com o lançamento do programa TeleKwai no país, a plataforma oferece aos usuários um novo formato de dramaturgia com mininovelas e minisséries produzidas na vertical. O projeto é exclusivo da plataforma para agências, produtoras e criadores de conteúdo parceiros, que criam vídeos originais de diferentes gêneros, do drama à ficção científica. Mas o formato também pode ser explorado por qualquer usuário no app, e para isso é importante criar histórias que envolvam a audiência do começo ao fim. 

Um roteiro bem produzido facilita a produção do conteúdo e pode deixar os vídeos com mais personalidade e dinamismo. Pensando nisso, o Kwai reuniu algumas dicas valiosas para quem quer produzir um bom vídeo em formato de mininovela ou minissérie, preparadas por dois participantes do TeleKwai: o ator e diretor Felipe Reis, que possui cinco canais (Distopia, Meu chapa, Guru, Fala Comigo, Câmera de Insegurança e Golpistas!) no app, e o diretor de conteúdo da DR Produtora, Phil Rocha, que gerencia os canais O Lado Obscuro, A Nossa História, Histórias de Amor, Mensagem Inesperada e Abra o Coração na plataforma. 

Confira as dicas a seguir:

Primeiros passos

Antes de produzir qualquer conteúdo, é preciso planejar seu roteiro. Uma boa forma de fazer isto é responder às seguintes  perguntas:

· Qual será o conteúdo?

O primeiro passo é definir o assunto da sua mininovela. Se vai seguir o gênero drama, terror, LGBTQIA+, romance, histórias que sejam motivacionais com uma lição de moral, se vai ser uma nova receita, ou até mesmo retratos do seu cotidiano.

· Qual o formato?

Serão episódios aleatórios ou uma série? Se for uma minissérie é muito importante definir que cada episódio precisa terminar em um momento que gere curiosidade nas pessoas para que elas queiram ver a continuação dessa história.

· Qual o público que você quer que assista a seus vídeos?

É importante distinguir a  faixa etária, identidade de gênero e localização dos usuários que gostaria que tivessem acesso e vissem seus vídeos. Assim fica mais fácil pensar em assuntos que possam virar tema para os roteiros.

· Como?

De que forma o conteúdo será feito? Estabeleça a duração do vídeo, se ele será feito de forma narrada, com efeitos especiais, com a inserção de animações, com a participação de outros criadores, etc.

Crie um Storytelling

Depois de responder a essas quatro questões, o próximo passo é criar um storytelling, ou seja, uma breve descrição das cenas e do que acontecerá entre elas. Descreva o que irá aparecer em cada cena, qual cenário será utilizado (uma parede branca ou um local aberto, por exemplo), quem serão os personagens do vídeo, quais serão os ingredientes da   receita ou a maquiagem do tutorial de beleza. Lembre-se que é uma narrativa que precisa ter começo, meio e fim.

De acordo com Felipe Reis, para criar roteiros de ficção e mininovelas, mais do que uma ideia, é preciso uma história, com um bom personagem e principalmente um excelente conflito. “O conflito da trama normalmente vai contra o protagonista, impedindo ele de alcançar o seu objetivo, é isso que vai deixar sua história interessante. Não precisa ser uma ideia mirabolante, muitas vezes, uma ideia simples, aquela que a gente não se perde para contar, acaba rendendo grandes histórias”.

Para Phil Rocha, também é importante estabelecer estratégias para elaborar um roteiro eficiente. “É essencial estudar o formato do conteúdo antes de começar a produzir para entender a linguagem e as principais características de cada estilo. A adequação do que irá abordar ou a mensagem da produção que irá manter o público interessado durante todo o vídeo. Além disso, é preciso ser criativo e utilizar os recursos disponíveis da melhor maneira possível”, explica.

Para se destacar no feed do Kwai, o vídeo deve começar de uma maneira muito impactante, e isso irá chamar atenção de quem está rolando a tela. “Existem algumas artimanhas para a gente poder chegar nesse resultado. Uma delas é, por exemplo, começar o vídeo com uma frase bem marcante, que pode ser usada mais para frente usando o recurso de flashbacks. Digamos que iremos contar uma história de assassinato e lá no final a personagem vai falar para o assasino ‘não acredito que você matou tal pessoa’, o vídeo com essa frase no começo irá despertar a curiosidade e fará os usuários assistirem até o final”, completa Phil.

Nas mininovelas também é importante definir onde cada episódio deve terminar. A trama com final aberto tem que dar a entender que será resolvida no próximo capítulo. Isso irá atiçar a curiosidade de quem está assistindo.

Por fim, produza!

É muito importante revisar o roteiro por completo e fazer uma leitura em voz alta para ter uma percepção melhor de como ficarão as falas e as cenas dentro do vídeo. Após isso, seu conteúdo estará pronto para ser gravado e publicado. “Uma dica importante é fazer uma leitura com os atores que vão participar da cena antes de gravar, assim cada um pode adaptar o texto para falar de uma forma mais natural. Nessa leitura você já vai perceber o que funciona e o que não funciona”, finaliza Felipe Reis.

Sobre o Kwai

Um dos aplicativos gratuitos mais populares do Brasil, o Kwai permite que o público crie seu próprio conteúdo e compartilhe vídeos online de forma fácil, inclusiva e acessível, em um universo interativo que possibilita a conexão de pessoas. Com a missão de tornar a vida das pessoas mais felizes, o Kwai acredita que todos os pequenos momentos da vida merecem ser compartilhados. O app está disponível nos sistemas iOS e Android, na App Store e no Google Play . Saiba mais em: kwai.com.

 

 

sexta-feira, 22 de abril de 2022

Fakes news: como checar se uma informação é falsa ou verdadeira?

 

No Brasil, o WhatsApp é o principal veículo de divulgação de desinformação. Isso acontece porque o usuário continua recebendo mensagens nesta rede social mesmo que esteja sem pacote de dados. A pessoa recebe uma mensagem/vídeo apelativo como, por exemplo: mulher chorando, sem identificação de nome e local, dizendo que foi agredida por militante de partido político de esquerda e que ainda foi roubada, ela pede justiça e pede que o vídeo seja compartilhado.

Por Fátima Sousa* e Márcia Turcato*
  

Informações falsas, informações deturpadas, boatos e promessas não são um fenômeno nascido no que se convencionou chamar de fake news. Elas existem há muito tempo e têm por objetivo desacreditar alguém, ou empresas, ou instituições ou governos ou, ainda, obter ganhos financeiros. Já as promessas, geralmente feitas em época de campanha eleitoral, têm o objetivo de conquistar o eleitor com informações de interesse daquele público-alvo. Essas promessas não se concretizam. As redes sociais, por sua rapidez de comunicação e, no Brasil, especialmente o WhatsApp, catapultaram o raio de ação das fakes news.

Notícia é coisa séria

Por definição, a notícia/news não poderia vir acompanhada da expressão fake/falsa, popularizada pelo ex-presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, que escolheu a imprensa não alinhada para atacá-la com a expressão “fake news”. A notícia é uma informação apurada por um jornalista, ouvindo as partes relacionadas no tema, e publicada em um veículo de comunicação que tem nome, endereço e CNPJ. A notícia pode ter sido mal apurada, ou conter algum erro. Mas, falsa, ela não será. Além disso, quem se sentir prejudicado com a informação divulgada, sabe a quem recorrer. No mínimo, pode enviar uma carta ao veículo pedindo retratação, correção ou direito de resposta.

No caso da desinformação intencional, na maior parte das vezes, não há a quem recorrer. A desinformação é divulgada em rede social sob perfil falso, quem desinforma não se identifica e não há anexos ou links que possam confirmar aquele conteúdo. Mas o conteúdo é apelativo, tem emoção, e essa emoção é a isca que fará com que a desinformação seja compartilhada.

A mentira tem apelo emocional

No Brasil, o WhatsApp é o principal veículo de divulgação de desinformação. Isso acontece porque o usuário continua recebendo mensagens nesta rede social mesmo que esteja sem pacote de dados. A pessoa recebe uma mensagem/vídeo apelativo como, por exemplo: mulher chorando, sem identificação de nome e local, dizendo que foi agredida por militante de partido político de esquerda e que ainda foi roubada, ela pede justiça e pede que o vídeo seja compartilhado. Esse é um caso típico, não informando onde o caso aconteceu, o vídeo pode ser utilizado em todo o país, porque pode ter sido em qualquer lugar. É perfeito. Tem emoção e tem uma vítima indefesa. O que fazer?

Já sabemos que esse vídeo tem elementos comuns de uma fake news. Mas, se houver dúvida, podemos checar. Primeiro, “jogue” essa história no Google pra saber se algum veículo de imprensa tem essa “história”. Se não encontrar nada, procure nos sites dedicados a checagem de informações.

Você percebe que precisará, no mínimo, fazer uma busca na web. Se você não tiver internet, não conseguirá fazer. É disso que se valem aqueles que disseminam fake news. Sabem que a maioria das pessoas não irá checar a informação porque não está familiarizada com esse mecanismo ou porque ela não tem internet. Mesmo fakes news que estejam acompanhadas de links, como forma de dar um aparente suporte à mentira, publicam links de sites não respeitáveis, ou links “quebrados”. Na dúvida, ou se você não conseguir checar uma informação, não compartilhe.

As mentiras sofisticadas

Há outras formas de embrulhar uma mentira para presente. Circula na internet um vídeo de um suposto diretor científico de um laboratório farmacêutico. Essa pessoa diz que foi diretor por dois anos da área de pesquisa do laboratório, ele fala algumas coisas sobre a pandemia e como ela é natural e vai sumir e não recomenda a vacina contra covid-19.

Esse vídeo circula desde 2020. O laboratório já desmentiu esse “diretor”, que na verdade foi um simples funcionário do laboratório, mas o vídeo ainda circula na rede porque ele tem elementos de credibilidade: uma pessoa vestida com jaleco, identificada como pesquisador de um laboratório famoso e falando corretamente sobre a pandemia. Para checar, essa desinformação exige mais trabalho. É necessário pesquisar no Google e no portal do laboratório. Também há recurso de fazer pesquisa por tema nos portais de checagem.

Há também as mentiras que se apoiam em algum traço de verdade. São desinformações que se apropriam de algum trecho de texto, áudio ou vídeo para concluir algo completamente diferente. Há, ainda, áudios e vídeos que têm seu tempo alterado para que a voz ou a imagem da pessoa pareça bêbada ou drogada. Também há vídeos que acrescentam elementos à imagem de alguém.  Isso aconteceu com Manuela D’ávila, que recebeu “olheiras” e “tatuagens” (de Guevara e Fidel) que a caracterizaram como alguém drogada e de extrema esquerda. Ou seja, uma pessoa perigosa e não confiável.

Sites de checagem

A checagem de um conteúdo exige muita pesquisa, principalmente se ele for novo e ainda não constar do “menu” dos sites de checagem. Abaixo, os principais sites de checagem no Brasil (a maioria trabalha em parceria com portais estrangeiros):

  • Agência Lupa
  • Aos Fatos
  • Fato ou Fake
  • Projeto Comprova 

Algumas instituições públicas também têm serviço de checagem, como TSE, Fiocruz, STF e CNJ. A maioria orienta o interessado por um número de WhatsApp.


* Fátima Sousa é Enfermeira sanitarista, professora associada do Departamento de Saúde Coletiva, da Faculdade de Ciências da Saúde, da Universidade de Brasília.
* Márcia Turcato é Jornalista e Escritora

terça-feira, 14 de setembro de 2021

Livro: Jornalista analisa a violência contra as mulheres

Cuidado e Autocuidado entre Mulheres Ativistas no mundo online – estimulando (novas) subjetividades em tempos de pandemia e violência é resultado do pós-doutorado da autora. O volume nos brinda com as experiências que vem sendo realizada nas rodas de cuidado e de autocuidado entre mulheres ativistas organizadas pela ong Cfemea e nos conclama a lutar para a implementação de Políticas Nacionais de Cuidado. 


Por Cristina Gobbi*

O livro produzido pela pesquisadora Cosette Castro e prefaciado pela socióloga Guacira Oliveira trata de um tema sensível, atual e necessário. Traz os conceitos das pedagogias do feminicídio e da secundarização, revela a invisibilidade e a naturalização da violência de todos os tipos, que vem sendo copiosamente ampliada e reforçada pela cultura do ódio e a invisibilidade feminina.

Demonstra que a violência estrutural contra as mulheres, convertida em agressões físicas, psicológicas, sociais, domésticas, familiar, institucional, racista, etc., refletem as desigualdades não superadas e que são brutal e cotidianamente marcadas no corpo, na memória, na vida e nos sentimentos do grupo. 

Trata dos desafios do cuidado e do autocuidado nas rodas de cuidado presencial e virtual, trazendo como as tecnologias digitais podem ajudar na ressignificação dos laços sociais, fraternos e afetivos, e no incentivo ao cuidado coletivo sob o ponto de vista das mulheres, em especial no momento de isolamento social da Covid-19 que atravessamos. 

Reflete sobre a igualdade de gênero e o direito à diversidade, amparados no respeito à pluralidade racial, de corpos, sexualidade e de gerações, situando o movimento de mulheres como um espaço de resistência, onde o cuidado coletivo e o autocuidado são ‘um ato político’.

Resultado do pós-doutorado em Psicologiada autora, o volume nos brinda com as experiências que vem sendo realizada nas rodas de cuidado e de autocuidado entre mulheres ativistas organizadas pela ong Cfemea e nos conclama a lutar para a implementação de Políticas Nacionais de Cuidado.

O e-book Cuidado e Autocuidado entre Mulheres Ativistas no mundo online – estimulando (novas) subjetividades em tempos de pandemia e violência pode ser acessado, lido, descarregado e compartilhado gratuitamente no site da Ria Editorial (clique aqui), no  Google Play (clique aqui) e também no Google Livros (clique aqui).

 

*Professora da pós-graduação em Comunicação da Unesp. 

sábado, 13 de março de 2021

Um blog pra ouvir e falar com quem cuida


"Somos um país que está envelhecendo rapidamente e parte das cuidadoras familiares também precisam de cuidado. Mas pouco se fala sobre isso", lembra Ana Castro, outra jornalista de larga trajetória, aposentada, e também uma das coordenadoras do Coletivo.


Por Cosette Castro

Desde o dia 05 de março, um novo blog está disponível na internet. O Blog Coletivo Filhas da Mãe está hospedado na página do Correio Braziliense – clique aqui pra acessá-lo. Ele é fruto de um coletivo criado, no final de 2019, como uma rede de apoio a cuidadoras e cuidadores familiares de pessoas com demências e Alzheimer.

" Nossa proposta é olhar para quem cuida. O cuidado familiar é gratuito, invisível, pesado  e solitário", afirma  Cosette Castro, jornalista, psicanalista e pesquisadora, uma das coordenadoras do Coletivo. Segundo o IBGE, no Brasil 96% do cuidado de pessoas com demências e Alzheimer não remunerado é feito por mulheres. Muitas delas parentes: filhas, irmãs, sobrinhas.

Nas segundas, quartas e sextas-feiras o público poderá ler textos sobre envelhecimento, demências e Alzheimer, cuidado e autocuidado e também acompanhar dicas que facilitem a vida de cuidadoras e cuidadores familiares.

"Somos um país que está envelhecendo rapidamente e parte das cuidadoras familiares também precisam de cuidado. Mas pouco se fala sobre isso", lembra Ana Castro, outra jornalista de larga trajetória, aposentada, e também uma das coordenadoras do Coletivo.

Desde seu surgimento, o Coletivo Filhas da Mãe vem realizando várias ações para chamar a atenção sobre as demências, entre elas o Alzheimer - o tipo de demência mais conhecido - e também para promover o cuidado e autocuidado entre cuidadoras e cuidadores.

Em 2020, por exemplo, o Coletivo criou o Bloco das Filhas da Mãe e saiu pelas ruas de Brasília com a marchinha "Ninguém Solta a Mão de Ninguém".

Com a chegada da pandemia, o Coletivo incentivou cuidadoras e cuidadores de todo o país a contarem suas histórias através do celular no Projeto Filhas da Mãe Contam Histórias. A cada dia, durante 30 dias, uma história diferente – mas que tinha muito em comum com as demais -foi publicada, reunindo depoimentos de oito estados brasileiros

Em 2021, o Coletivo Filhas da Mãe realizou o III Sarau Virtual de música, prosa, poesia e afeto para homenagear o carnaval que não houve e lançou a marchinha " Vacina Sim!".

"É preciso recuperar a alegria, mesmo falando sobre temas sérios e dolorosos", diz Cosette Castro. Ela  conta que o Coletivo Filhas da Mãe está presente no mundo digital. Além do Blog, também está no Facebook (coletivo filhas da mãe), no Instagram (@blocofilhasdamãe), possui canal no YouTube (filhas da mãe). E em março lançou o Blog Coletivo Filhas da Mãe.

Ana Castro e Cosette Castro, uma gaúcha e uma bahiana, radicadas no Planalto Central, assinam os textos semanais e revelam que, em breve, terão convidadas e convidados escrevendo no Blog. " É uma construção coletiva, inclusive nas sugestões de temas", afirma Ana Castro, que possui longa experiência em blogs. 

sexta-feira, 29 de janeiro de 2021

Opinião: Quem vai botar o guizo no Twitter?

Por Hugo Machín Fajardo*, publicado originalmente em Espanhol, sob o título ¿Quién le pone el cascabel a Twitter?, no portal Las2Orillas

Justino Jiménez de Aréchaga (1910-1980) escribió a principio de los cincuenta que el otorgamiento a privados de concesiones para el usufructo del espectro radioeléctrico uruguayo se había transformado en una entrega de "ducados fructíferos" que el gobierno de turno otorgaba a sus amigos políticos.

A mediados del siglo pasado la radiotelefonía, iniciada en Uruguay en 1922, era el medio de comunicación masivo por excelencia, más que la televisión.

El teórico y catedrático uruguayo del derecho, maestro de juristas, refería a que a partir de que la radiotelefonía demostró su poder y su potencial económico, los propietarios de las emisoras uruguayos durante décadas eran las mismas familias. De ahí su metáfora medioeval.

Los sectores políticos y sociales sistemáticamente excluidos de esa repartición, rechazaron tal discriminación antidemocrática proveniente de quien debería velar con imparcialidad por los intereses de todos los uruguayos, y no solamente de los de sus amistades. Antidemocrático, además, porque el espectro radioeléctrico era (es) de toda la sociedad y no del gobierno de turno.

Esa situación no varió con la llegada de la televisión en la década de los sesenta que, como es sabido en Uruguay, los permisos para operar canales de aire repitieron el esquema de concesiones radiales. Algo que no cambió durante la dictadura (1973 - 1985) sino que, por el contrario, los militares antes de abandonar el poder hicieron uso de esa discrecionalidad para otorgar frecuencias radiales a sus amigos.

Durante la administración Lacalle (1990-1995) el otorgamiento de la televisión por cable siguió el mismo patrón de adjudicación cuasi familiar en Montevideo, y de correligionarios blancos o colorados en las diferentes ciudades del interior.

La disputa del éter. En los años previos al triunfo electoral de la izquierda (2004) surgieron las radios comunitarias, que en realidad eran mayoritariamente de militantes de izquierda, que legítimamente defendían el derecho ciudadano a tener sus propias emisoras. La tecnología lo permitía y el poder político lo retaceaba. Fueron emisoras de alcance barrial que comenzaron a funcionar sin autorización administrativa.

El proceso lo seguí de cerca, pues en la Asociación de la Prensa Uruguaya (APU) recibía — pese a alguna otra mirada sindical de reojo— a los dirigentes de ese movimiento que abogaba por trabajar sin recibir remuneración. Un imposible solamente sobrellevable con apoyo financiero extra a esas radios comunitarias. Estaban en una disyuntiva de hierro: no podía ser radios comerciales, pues perdían el carácter "comunitario", y al mismo tiempo, deberían efectuar sus labores sin profesionales. Complicado.

En la primera década del siglo XXI en cinco países —Bolivia, Chile, Ecuador, Uruguay y Venezuela— se logró el reconocimiento legal de las radios comunitarias.

Cito el caso porque uno de aquellos dirigentes de radios comunitarias, defensor acérrimo de la libertad de expresión, cuando sobrevino un gobierno de izquierda en Uruguay, sería uno de los principales impulsores de un proyecto restrictivo de la libertad de prensa que para el republicanismo uruguayo era difícil de aplicar, y terminó archivado.

Fue un fenómeno generalizado en aquellos países donde a la par de los gobiernos denominados progresistas, proliferaron proyectos legislativos o intentos parecidos de darle al Estado un mayor o menor control sobre la libertad de prensa. Así fue en Argentina, Bolivia, Ecuador, Uruguay —con diferente peripecia— hasta la "Misión Comunicación" en Venezuela, cuyo objetivo decretado fue la "expresión concreta de democratización de la comunicación en Venezuela y promover el desarrollo de la contra hegemonía cultural". La realidad de aquellos enunciados es que Venezuela hace años que es un clásico en materia de violaciones al derecho a la información, agresiones a periodistas, limitaciones al acceso a la información y criminalización de la actividad de la prensa. Que incluye desconocimiento de sentencias de la Corte Interamericana de Derechos Humanos que determinan la devolución a sus legítimos propietarios los medios de prensa confiscados.

La tecnología manda. La tecnología digital ha sido implacable en todo sentido. Tanto las legítimas reivindicaciones de democratizar la comunicación afectada por monopolios empresariales, como los excesos autoritarios de quienes al llegar al poder traicionaron sus antiguos reclamos libertarios, se han visto sacudidos por el formidable cambio que supuso la irrupción de las redes sociales (RRSS) en sus múltiples plataformas: Facebook, YouTube, Instagram, TikTok, Twitter, etc. y aplicaciones de mensajería instantánea: WhatsApp, WeChat, FacebookMessenger, Skype, etc.

De pronto, quien tuviera un celular pudo recibir y reenviar al universo digital informaciones, opiniones, fotografía, videos, chismografía, vida personal, estados de ánimo, obsesiones, etc. Todo por los mismos canales, con la supuesta misma importancia y con la consiguiente saturación de impacto.

Sucedió la inevitable: el estómago se impuso a la mente en muchos casos. Las RRSS combinaron lo maravilloso que supuso la muerte de la distancia y la interacción instantánea, con la explicitación de lo peor del ser humano.

Los antivalores más insospechados, los que una persona razonable difícilmente se atrevería a exponer en un ámbito compartido con semejantes, tuvieron vía libre para ser emitidos desde la a veces rabiosa soledad del cibernauta. Con el agravante de que el algoritmo— verdadero digitador— le hace creer al cliqueador que el mundo real es esa burbuja de tuits enviados y recibidos en que vive. Al punto que en junio del 2020 la propia empresa Twitter intentó acotar el leo y reenvío compulsivo y tratar de evitar los retuits en los que no se le da contexto, con los recordatorios "los titulares no cuentan toda la historia" y "puedes leer el artículo en Twitter antes de retuitearlo". El intento buscó evitar que se compartan irreflexivamente noticias falsas o engañosas.

Según la información proporcionada por Twitter, después de tres meses de prueba, la plataforma digital señaló que gracias a esta función, un 40% de usuarios abre los artículos completos antes de compartir después de ver el recordatorio.

Estas empresas privadas — vía internet— desplegaron un menú de posibilidades comunicacionales con base a soportes personales. El celular, el PC, el portátil, la tableta, se volvieron los instrumentos de comunicación y se pasó a que cada aparato personal recibiera y emitiera en vivo y en directo lo que fuera, como fuera y donde fuera.

¿Se volvió obsoleta la enseñanza sesentista del canadiense Marshall McLuhan (1911-1980) — "el medio es el mensaje"— o sigue vigente y ¿"el medio (aún) es el mensaje"?

"Demasiadas personas saben demasiado las unas sobre las otras. Nuestro nuevo ambiente obliga al compromiso y a la participación. Cada uno de nosotros está ahora irrevocablemente envuelto en la vida de los demás, y es responsable de ellos", evoca la chilena Teresa Ayala Pérez, doctora Didáctica de la Lengua y la Literatura, en su trabajo Marshall Mcluhan, las redes sociales y la Aldea Global.

"Amenazan a la demcoracia". Ni cortos ni perezosos, los políticos para quienes la prensa era hasta entonces un contrapeso molesto a su demagogia, cuando no a sus falsedades, vieron en esas RRSS la gran oportunidad. Muchos — no solo Trump— las utilizaron para diseminar su opinión sin recibir como contrapropuesta el interrogante periodístico, el análisis o la opinión de los profesionales de la información. Las RRSS aparecieron como la "forma directa" de comunicación entre el líder, sus seguidores y— lo que exacerbó el ambiente— sus contradictores espantados y furiosos ante el rostro de piedra de Presidentes tuiteros.

No es menor la responsabilidad de esto último en las consabidas grietas sociales que hoy se viven en varios países.

La reacción profesional de la prensa fue disímil. En general, se optó por repetir lo que ese líder diseminaba a troche y moche. De hecho, se retroalimentó todo lo que decía: lo legítimo y la basura.

Algo que acompañó a las RRSS desde hace años fue la creación de los "bot"—programa informático que reitera tareas automáticamente— cuyo efecto distorsionador de la realidad y fabricador de noticias falsas fue medido, entre otras investigaciones, por la realizada por la Fundación Knight de Estados Unidos.

El estudio examinó más de 10 millones de tweets de 700.000 cuentas vinculadas a más de 600 cuentas falsas y sitios de noticias sobre conspiración. "La investigación identificó grupos de cuentas de Twitter que se vincularon a estos sitios repetidamente, a menudo de formas que parecían coordinadas o incluso automatizadas".

Esta deformación de la realidad fruto de servicios de inteligencia de diferentes países, sumado a operaciones internas en determinados países, lleva a los autores Francis Fukuyama, Barak Richman y Ashish Goel, a afirmar en un reciente informe publicado por la revista Foreing Affairs que: "Las plataformas de Internet causan daños políticos que son mucho más alarmantes que cualquier daño económico que generen. Su verdadero peligro no es que distorsionen los mercados; es que amenazan la democracia".

Golpistas. Entonces llegó el 6 de enero del 2021 y a raíz del intento de asalto al Capitolio de EE. UU., alentado por el ya expresidente Trump, las RRSS reaccionaron cerrando las cuentas del golpista.

Surgen diferentes temas para analizar. Y que en este texto obviamente no se dilucidan, apenas si se plantean algunos:

1. El universo digital no pertenece a la comunidad de naciones. Ergo, no hay una censura en el cierre de una cuenta perteneciente a una empresa privada. Nadie propietario de una empresa de comunicación puede ser obligado a insertar en sus contenidos aspectos contrarios a sus valores. Excepción hecha cuando se da un fenómeno de difamación o calumnia en que los estados democráticos tienen mecanismos legales para que al ciudadano ofendido se le ampare en el ejercicio del derecho de respuesta. Así son las cosas en el sistema democrático.

2. Las RRSS, a diferencia de los medios periodísticos serios, no poseen un código de ética profesional. Por eso pueden contener información u opiniones muy útiles y válidas seguidas del disparatario. Google ha aceptado censurar a los usuarios bajo regímenes totalitarios en aras de no perder el negocio. Cierto es que en mayo del 2020 Mark Zuckerberg ensayó que comisión de personalidades Junta de Supervisión (Oversight Board) tendría "el poder de cambiar las políticas y revisar de fondo las decisiones sobre contenido de la red social, incluyendo Facebook, Instagram, grupos, perfiles e incluso políticas de anuncios". Pero esa articulación va para largo…

3. El intento de golpe de Estado —que tuvo su etapa final en el Capitolio de Washington— disparo la reacción de los propietarios de los sitios más utilizados por Trump y sus 88 millones de seguidores. Hubo clausura y no solamente del todavía Presidente de EE. UU.: miles de cuentas de delirantes del QAnon también fueron cerradas. En 2016 había cuentas que le adjudicaban a Hilary Clinton prácticas satánicas que fueron parte de una operación de la inteligencia rusa de acuerdo a la investigación de Knight ya citada. Y esas cuentas al 17 de enero del 2021 siguen operativas.

4. Cabe preguntarse por qué los dueños de las RRSS no habían reaccionado antes, cuando el daño que estaba produciendo Trump con sus declaraciones anticientíficas sobre la estrategia anti COVID-19, generó miles de muertes de estadounidense. ¿Es que servía más al negocio de las RRSS mantener un vector homicida "al aire" para aumentar los seguidores en general? Esa respuesta está pendiente por parte del Zuckerberg y otros propietarios de las RRSS. No se necesita un doctorado en ética para discernir que Trump profirió disparate tras disparate respecto a la pandemia: dijo que "en un par de días" los contagios iban "a bajar a casi cero (…) Va a desaparecer. Un día, como un milagro, desaparecerá (…) Hemos hecho un trabajo bastante bueno”, alardeó en febrero de 2020. Se negó a utilizar tapabocas durante meses, siguió organizando actos masivos; afirmó que "un medicamento para la malaria cura el COVID-19 (…) El virus no tiene la menor posibilidad contra nosotros. Ninguna nación está tan preparada o es más resistente que Estados Unidos", el 11 de marzo, para contradecirse días después: "Siempre consideré que era algo serio", el 17 de ese mismo mes. "No me veo (...) portando mascarilla. Quizá cambie de opinión", sostuvo el 3 abril, para agregar "veo que el desinfectante lo elimina (al virus) en un minuto. ¡Un minuto! Y ¿existe una forma de que podamos hacer algo parecido, mediante una inyección para limpiar casi todo? Es algo (el virus) que penetra en los pulmones, y podría por eso ser interesante intentarlo (…) Supongamos que golpeamos el cuerpo con una luz tremenda, ultravioleta o simplemente muy potente. Y supongamos que se puede meter luz en el cuerpo, a través de la piel o de alguna otra manera. Creo que hay que probarlo" sostuvo el 24 abril. Para agregar veinticinco días después: "Cuando tenemos muchos casos no considero que eso sea algo malo, considero de alguna manera que es una buena cosa".

Su irresponsabilidad, que hace pensar en homicidio culposo masivo, la llevó al plano electoral personal cuando tres días antes de su debate con Joe Biden y de confirmarse su contagio de COVID-19 se burló de su contendor: "Tengo mascarilla, tengo una aquí mismo, pero no la uso como él, que cada vez que lo ves tiene una mascarilla". ¿Estaría contagiado Trump cuando debatió con su oponente?

La historia registrará las imágenes de Nueva York cuando se hacían entierros masivos de víctimas del coronavirus en gigantescas fosas comunes, como si la ciudad hubiera sufrido un bombardeo y Trump seguía fabricando una realidad diferente mediante las redes sociales que entonces no actuaron.

*Jornalista uruguaio radicado na Colômbia

 

sábado, 19 de setembro de 2020

TV Mulheres Jornalistas recebe o Jornalista Chico Sant'Anna no programa Debate Político

Tive a grata oportunidade de ser entrevistado por Melissa Rocha no programa Debate Político MJ, na TV Mulheres Jornalistas, O tema da conversa: Desafios do jornalismo no cenário atual. Conversamos sobre transparência no governo atual, liberdade de imprensa, o clima de desconfiança em relação à mídia, blogs e a ascensão de veículos independentes.

📢Você pode assistir ao programa no Portal Mulheres Jornalistas e no  Youtube. Ou, então, aqui mesmo nesse blog.  

Entrem lá e deem uma força pra essa mulherada que está renovando o jornalismo brasileiro.