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segunda-feira, 16 de junho de 2025

A Flotilha que virou navio fantasma na mídia nacional

 

Por Chico Sant’Anna*

Nas redes sociais foi possível acompanhar dia-a-dia a jornada de doze jovens que desejaram singrar as águas do Mediterrâneo para denunciar um genocídio que se perpetra contra o povo palestino na Faixa de Gaza. O barco partiu da Itália em 1º de junho para conscientizar sobre as condições de fome em Gaza. Mais do que levar donativos, alimentos, próteses ortopédicas infantis, a meta era elevar o conhecimento público sobre o sofrimento do povo palestino de Gaza, submetido há mais de uma década a um bloqueio injusto e desumano por Israel. Segundo dados do Escritório da ONU para Coordenação de Assuntos Humanitários (OCHA), 1,3 milhões de habitantes de Gaza dependem da ajuda internacional para sobreviver

Originalmente, era para ser outra embarcação. Entretanto, o barco Conscience, da coalizão internacional Flotilha da Liberdade, foi atacado por drones na madrugada da sexta-feira (2/5), na ilha de Malta. Os ativistas deram sequência em um veleiro de nome Madeleine. O nome é atribuído a uma pescadora artesanal palestina, que ainda busca no Mediterrâneo alimentos para seu povo. Mas chama a atenção o fato de Madalena ter sido a mais importante das mulheres que seguiram a jornada de Jesus Cristo, desde a Galiléia, e que ao lado de Maria presenciou a crucificação pelos romanos.

Grande mídia brasileira, praticamente, ignorou os dias
que sucederam à tomada de assalto pelos forças de Israel
da Flotinha da Liberdade, Nem a presença de uma brasileiro
dentre os ativistas presos motivou
uma cobertura de melhor qualidade.
A jornada de Madeleine não foi ignorada pelos militares de Israel. Relatos postados nas redes sociais pelos integrantes da jornada davam conta que ainda em águas internacionais foram alvo de ataques de drones que, segundo suas denúncias, lançavam sobre o veleiro Madelein líquidos químicos.

Faltando um dia para chegar a Gaza, novo ataque aéreo precedeu a tomada do barco. Embora estivessem em águas internacionais, todos foram detidos por forças de assalto israelenses. Desde então, o tema praticamente desapareceu na mídia brasileira, embora um dos tripulantes fosse o comunicador brasiliense Thiágo Ávila, um dos coordenadores da missão.

De diferentes nacionalidades, essa dúzia de Dons Quixotes colocou sob risco a própria integridade física para demover os moinhos da indiferença das grandes potencias internacionais. Queriam dar um grito em alto e bom som, capaz de ser ouvido nos cinco continentes. Sua missão pacifica: denunciar mundialmente o que se passa com dois milhões de palestinos, muitas mulheres e crianças, que lutam cotidianamente contra a fome e as balas. Ao lançar-se nessa jornada esperavam pautar na chamada mainstream media mundial um tenebroso tema que parece estar se naturalizando cotidianamente nas páginas de jornais, nas telas do telejornalismo e nas ondas radiofônicas.

A grande imprensa brasileira deu pouco ou quase nenhum espaço à missão dos pacifistas. Provavelmente Gandhi sofreu da mesma indiferença quando lutava pela independência da Índia, ocupada pelos britânicos. A cobertura da jornada foi praticamente inexistente. Apenas as redes sociais, em especial o Instagram, cobriam o cotidiano da Flotilha da Liberdade. O telejornal de maior audiência do Brasil, o Jornal Nacional da TV Globo, se limitou a dar uma “lapada” – termo que designa uma nota jornalística curta, com narração em off, no dia em que as tropas israelenses tomaram de assalto o pequeno veleiro.

Com correspondentes no mundo inteiro, inclusive em Israel, não trouxe nenhuma repercussão. Imagens disponíveis nas redes sociais, praticamente, não foram usadas. Um vídeo compartilhado pela Coalizão Flotilha da Liberdade (FFC) mostrou os ativistas sentados com coletes salva-vidas e as mãos levantadas ao ar enquanto as forças israelenses entravam no barco. Os passageiros podiam ser vistos jogando celulares ao mar.

No dia seguinte, o Jornal Hoje, da mesma emissora, se limitou a noticiar a libertação da ativista ambiental sueca Greta Thunberg, também presa pelas tropas israelenses. Nem mencionou o nome de Thiago Ávila. Israel foi inteligente em deportar a pessoa com maior visibilidade internacional, dessa maneira, contribuía para desmobilizar correspondentes das grandes agências internacionais.

A tática parece ter dado o resultado esperado. Dois dias depois, mesmo com a manutenção da prisão do brasiliense Thiago Ávila – agora em solitária – o tema não mais sensibilizava os gatekepers tupiniquins que, parece, desagendaram as notícias sobre os onze pacifistas que permaneceram presos. Nem mesmo as agendas e iniciativas oficiais do governo brasileiro, no Itamaraty e no Palácio do Planalto, sensibilizaram jornalisticamente as principais mídias brasileiras. Salva e honrada exceção do Correio Braziliense e, em parte o portal Metropoles, veículos da Capital Federal, onde nasceu e mora Thiago Ávila com sua família.

A postura da maioria dos veículos da imprensa brasileira rasga todos os livros de técnica jornalística. Ineditismo e proximidade geográfica são regrinhas básicas de noticiabilidade que se aprende nos manuais universitários. Além disso, ensino os especialistas, a seleção das informações a serem divulgadas deverem ser guiadas por valores sociais,[1] mas no interior da imprensa, os conteúdos são avaliados em função da origem dos fatos, da fonte que disponibiliza as informações e pode se dizer também em função de quem será incomodado com a difusão de determinado tema.[2] A ingerência externa no processo de newsmaking acontece com maior ênfase quanto aos aspectos de propriedade, de noticiabilidade, e de inclinação, o ângulo de abordagem da informação.[3]

O que se viu na jornada da Flotilha da Liberdade foi mais do que um caminhada pelo bem estar dos palestinos. Nas águas do Mediterrâneo uma segunda batalha se fez presente. A luta pela visibilidade pública. Ao se lançarem ao mar, os ativistas queriam interferir nos critérios de noticiabilidade, forçar a porta vigiada pelos gatekeeper. 

Para subverter o padrão de relações, garantir o êxito de ter selecionado um tema de seu interesse e obter a aparência midiática, alguns atores sociais elaboram estratégias bastante complexas. Tradicionalmente, se valem de uma técnica denominada pelos pesquisadores em Comunicação de image choque. Buscavam apelar aos sentimentos, às emoções, a sensibilidade e a simpatia do espectador/leitor/internauta. Tais técnicas visam dotar o discurso do sentido desejado, tocar dimensões sensoriais e cognitivas do cidadão comum e, por via de consequência dos meios de Comunicação.

A grande mídia brasileira, contudo, ignorou as regras das cartilha de jornalismo. Curiosamente, o site da BBC Brasil – veículo britânico – foi um dos principais a produzir e difundir noticiário denso, inclusive focando em ativistas não europeus que estavam a bordo.

Por que será que o é notícia para a BBC difundir para todos os continentes não sensibiliza a mídia nacional? Certamente não foi pela falta de matéria prima, de informações e mesmo de imagens, pois além das agências internacionais de notícias, a Coalizão Flotilha da Liberdade (FFC) cotidianamente disponibilizava material via plataformas de redes sociais. Não foram poucos os veículos que fizeram entrevistas com os ativistas nos dias que antecederam o ataque de Israel.

 Na grande maioria dos veículos da mídia nacional,
a prisão em solitária, a deportação e a chegada
de Thiago Ávila ao Brasil foram
fatos ignorados ou tratados como registros de menor
importância. Pior, ignorou-se as marcas
 e hematomas no corpo dele,
cicatrizes atribuídas a sessões de tortura
física a que teria sido submetido,
inclusive com uso de aparelhos de eletrochoque.
Imagens do Instagram de Thiago Ávila
A jornada de Thiago Ávila, que pela proximidade e pelo fato de ele ser um dos coordenadores, deveria ter sido melos acompanhada pela imprensa tradicional. Essa ignorou, na grande maioria, sua prisão solitária, a deportação e sua chegada ao Brasil. Pior, ignorou as marcas e hematomas em seu corpo que parecem indicar tortura física com uso de aparelhos de eletrochoque.

Mesmo as emissoras de TV e grande parte da imprensa local da Capital Federal - exceto casos especiais como o do Correio Braziliense - onde vive Thiago Ávila e onde estão os órgãos federais e a Embaixada de Israel, pouco ou nada informaram sobre os desdobramentos pós prisão por Israel.

Será que essa invisibilidade proporcionada pela imprensa brasileira fruto de uma eventual postura de maior simpatia a Israel do que aos Palestinos? Porquê ignorar ações que se opõe ao Estado Judeu? Serão interesses econômicos? Xenofobia? Lucratividade?

Não tenho a resposta, mas num mundo em que a circulação de informação é cada vez mais um ação de poder político e econômico, como numa luta de David contra Golias, os pequenos, recomenda o sociólogo francês Olivier Voirol, recorrer cada vez mais a métodos de obtenção de visibilidade, formas de criação de eventos, que perturbem os arranjos político midiáticos em vigor.[4]


* Jornalista Profissional, Mestre em Comunicação pela Universidade de Brasília e Doutor em Ciências da Informação e da Comunicação pela Universidade de Rennes 1, na França

[1] FERRY, Jean-Marc, (1991). Les transformations de la publicité politique. In: Hermes, N° 4, Le nouvel espace public, pp. 15 – 26, Paris, CNRS, p.25.

[2] MATHIEN, Michel, (1992). Les journalistes et le système médiatique, Paris, Hachete, p. 180-81.

[3] RIEFFEL, Rémy, (1984). L’élite des journalistes, Paris, PUF, p 130

[4] VOIROL, Olivier, (2005). Les luttes pour la visibilité – Esquisse d’une problématique. In : Visibilité/Invisibilité, Réseaux vol. 23, n° 129-130, pp 89-121, Paris, FT R&D/Lavoisier. p.103.

quinta-feira, 20 de março de 2025

Mangue Jornalismo: uma experiência sergipana por uma outra comunicação

Diante da conjuntura local sergipana, a Mangue Jornalismo estabeleceu um tripé que a sustenta: a) independência editorial e financeira de governos, empresas privadas, grupos religiosos e partidos políticos; b) publicação de uma reportagem por dia de temas locais que são atravessados pelos direitos humanos; c) transparência completa de suas ações jornalísticas, administrativas e financeiras, inclusive se submetendo a um controle público de um conselho de leitoras e leitores da Mangue.


Bem longe dos grandes centros nacionais, no quase invisível menor estado do Brasil, uma experiência de um outro jornalismo vem sendo realizada. Na esteira do surgimento de mídias independentes nos últimos anos, brotou em Aracaju, capital de Sergipe, a Mangue Jornalismo, um pequeno coletivo de jornalistas com o propósito de propor uma relação comunicativa no tratamento das informações de modo diferenciado e potente.

“Tinha concluído o mestrado e o doutorado em Comunicação e o caminho quase natural seria a universidade. Entretanto, optei por exercer essas formações acadêmicas de modo mais coletivo, convidando comunicadores para a vivência de um jornalismo radicalmente independente e de qualidade, incidindo no sistema de mídia local, na formação de jovens jornalistas e de leitores e produzindo impacto político”, diz Cristian Góes, fundador da Mangue.

Print da página web do Mangue
Jornalismo, que também
 pode ser acessado no celular
No final do ano de 2022, alguns jornalistas liderados por Cristian criaram o Centro de Estudos em Jornalismo e Cultura Cirigype, organização sem fins lucrativos que preparou a chegada em 19 de abril do portal Mangue Jornalismo (www.manguejornalismo.org). A Mangue surge precedida de estudos e planejamento, com identificação das dificuldades e potencialidades.

Para entender o jornalismo da Mangue é preciso olhar o contexto local. A imprensa local - emissoras de rádio e tv, jornais e sites - ou é controlada por grupos políticos ou religiosos ou do governo. Geralmente, todos estão juntos e formam um sistema só, sendo muito bem remunerado pelo poder público. “Nessas condições não há jornalismo, não tem apuração nem vozes críticas. A sociedade recebe publicidade travestida de notícias. A omissão e inversão de temas e acontecimentos favorece o sistema político e econômico local”, informa Cristian.

Diferentemente de outros estados, em Sergipe não existia mídia independente, ou seja, havia um vácuo em que uma camada mais crítica da sociedade local não tinha acesso a um jornalismo com mínima apuração, ético e que revelasse questões que o sistema local não queria abertas. Para atender essa demanda reprimida, a Mangue Jornalismo surge tendo por base uma política editorial assentada na defesa e promoção dos direitos humanos.

O nome Mangue faz referência a Sergipe que, como grande parte do litoral nordestino, foi um grande mangue, sendo destruído desde as invasões europeias do século XVI. “Mangue é lugar de produção e reprodução da vida diversa, plural, das sobrevivências conectadas, um lugar de potência de vida. Mangue aponta para discussão em torno da sua importância nas mudanças climáticas e exige um compromisso do jornalismo. Mangue em cidades como a nossa aponta para resistência, insistência, existência sempre ameaçada pelo capital”, justifica Ana Paula Rocha, repórter e gestora de projetos da Mangue

Mangue jornalismo: reunião do Conselho
de Interlocutores Externos,
analisando, criticando, sugerindo pautas.

Diante da conjuntura local, a Mangue Jornalismo estabeleceu um tripé que a sustenta: a) independência editorial e financeira de governos, empresas privadas, grupos religiosos e partidos políticos; b) publicação de uma reportagem por dia de temas locais que são atravessados pelos direitos humanos; c) transparência completa de suas ações jornalísticas, administrativas e financeiras, inclusive se submetendo a um controle público de um conselho de leitoras e leitores da Mangue.

 “Isso mesmo, não aceitamos receber verbas de publicidade de governos nem de empresas privadas, focamos em reportagens de temáticas que são silenciadas em Sergipe e estabelecemos uma proximidade maiores com nossa audiência com a instalação do conselho de interlocutores externos da Mangue, que se reúne de três em três meses para avaliar de modo crítico o jornalismo e as ações da Mangue. É uma ação de profunda escuta da Mangue”, resume Cristian Góes, doutor em Comunicação e Sociabilidade pela Universidade Federal de Minas Gerais.

A sobrevivência da Mangue tem ocorrido com o apoio direto (Pix) de leitores, assinantes, participação de editais internacionais de fomento ao jornalismo independente e parcerias públicas pontuais - sem contrapartida - com sindicatos de trabalhadores.

 “Nesses quase dois anos, a evolução da Mangue foi algo extraordinário e muito além do que nós tínhamos projetado. Hoje, somos realidade na imprensa local, com incidência no estado, principalmente em razão da insistência em trazer um material jornalístico investigativo, de impacto, de qualidade”, conta Paulo Marques, jornalista e gestor de artes e tecnologia da Mangue.

Nesse curto período, além do site com reportagens publicadas diariamente, de segunda a sexta, a Mangue ainda tem outros produtos, como a newsletter semanal gratuita Catado da Mangue; a Agenda Mangue Cultural (publicada toda sexta); o ebook de download gratuito “Água: um direito humano essencial não pode ser privatizado” (2024, sobre a luta pela privatização da água em Sergipe); a Revista Paulo Freire, produzida em parceria com o Sindicato dos Professores Públicos de Sergipe.

A Mangue também produz e entrega o minicast Caldinho de Sururu, que é semanal, com temas de destaque da semana; o minicast Antessala, que é quinzenal sobre bastidores das reportagens e só para assinantes; Charges (tirinhas) publicadas no Instagram; e o livro impresso exclusivo da Mangue Jornalismo intitulado: “Borracha na cabeça: o golpe e a ditadura militar em Sergipe” (2024).

Para a Mangue, o jornalismo não é um mero espaço de divulgação de acontecimentos, mas um lugar de relação, formação e de incidência na vida das pessoas, da cidade, na agenda da sociedade. Pela Mangue, por exemplo, já passaram vários estagiários de jornalismo - uma contribuição direta com a formação de novos jornalistas.

Em 2024, quase não houve nada que lembrasse os 60 anos do Golpe Militar em Sergipe e a Mangue publicou durante o ano 19 reportagens sobre o tema com foco local, bem como um livro com bom impacto/incidência local sobre o tema, movimentando a cena política.

Em maio de 2024, por exemplo, a Mangue denunciou com exclusividade que Sergipe era o único estado fora do Sistema Nacional de Promoção da Igualdade Racial. Três dias depois da reportagem, o governo do estado assinou a adesão ao sistema.

Desde o nascimento, a Mangue não descansa em denunciar a altíssima letalidade policial em Sergipe, que executa uma política pública de morte alegando-se “confronto”. Quando a Mangue começou a divulgar esses casos, com grande repercussão e sem recuar, sinalizou que continuaria atenta e divulgando esse escândalo. “Essa vigilância, compromisso e coragem do jornalismo salva vidas. O fato é que, depois que começamos a divulgar isso, ocorreu uma redução oficial no número de mortes em confronto. Não sei, mas tenho a impressão de que com o nosso trabalho talvez acabamos salvando pelo menos uma ou duas vidas. É para isso que a Mangue existe”, constata Paulo Marques.

Paulo apresenta dados coletados e monitorados pelo Google Analytics. Nos últimos 12 meses, foram mais de 85 mil usuários ativos e 165 mil visualizações no site. A rede social principal (Instagram) da Mangue saiu de pouco mais de 6 mil seguidores para 11,2 mil. A conversão de assinaturas em nossa newsletter (Catado da Mangue) chegou a 500%.

Cristian Góes revela que a Mangue já teve 15 jornalistas, mas hoje só conta com cinco e a equipe divide as contas e o saldo mensal. “O grande desafio é a sustentabilidade, fazer com que muita gente que apoia a Mangue também seja responsável pelo financiamento da organização. As pessoas dizem: ‘gosto demais do jornalismo de vocês, amo o trabalho da Mangue’, bom mas é preciso virar a chave e apoiar com algum recurso. O que a gente arrecada hoje é suficiente para pagar as contas, mas ainda não é possível remunerar nosso trabalho. Esse é um enorme desafio”, afirma.

quarta-feira, 28 de agosto de 2024

EBC: jornalistas aprovam paralisação para 3/9


Por Chico Sant'Anna

Se as deliberações se confirmarem, na terça-feira, dia 3, os radiovintes não ouvirão o tradicional "Em Brasília, 19 horas".  Os jornalistas decidiram  por uma paralisação de um diam em resposta a posição da direção da Empresa Brasil de Comunicação (EBC) tentar contornar a obrigação do respeito à jornada de trabalho de cinco horas diárias e limite de 30 semanais, conforme prevê a CLT. Reunidos em assembleia em Brasília, Rio de Janeiro e São Paulo, os profissionais entenderam a postura da EBC como um "ataque" à categoria dos jornalistas, e assim decidiram, por unanimidade, fazer uma paralisação de 24h na próxima terça (03/09), que pode se alongar a depender da resposta da EBC e do governo Federal. 

A greve é uma reação à decisão da empresa de atacar a jornada especial da categoria, prevista na Seção XI da CLT desde 1943, ainda com Getúlio Vargas. Ao elaborar o novo Plano de Cargos e Remunerações (PCR), a direção rebaixou os salários da carreira dos jornalistas na empresa em comparação a outros grupos de trabalhadores, criando um critério de remuneração por hora. Na prática, ao burlar a CLT, nos considera trabalhadores de jornada parcial, punindo a categoria pelo direito histórico da profissão. A luta dos jornalistas da EBC é por um PCR isonômico entre as diferentes carreiras, e, ao mesmo tempo, defendemos todos os ganhos econômicos que a proposta de PCR da empresa estabeleceu para os demais trabalhadores e trabalhadoras da EBC.

O ataque da EBC, portanto, é contra toda categoria dos jornalistas, não apenas aos que hoje trabalham na empresa. A Associação Brasileira de Imprensa (ABI) e a Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj) já se manifestaram contra a proposta por entenderem que ela fere os direitos nacionais dos trabalhadores.  Leia aqui: https://abre.ai/kTr6

Hoje, os jornalistas recebem o mesmo salário de outros trabalhadores com nível superior, mas, com a proposta da Diretoria, eles passariam a ter uma remuneração básica 12% menor. O ataque da empresa pública de comunicação nacional contra seus jornalistas abre margem para as empresas privadas seguirem pelo mesmo caminho. Saiba mais aqui

Esperamos que o ministro Paulo Pimenta – que deve voltar à Secom nos próximos dias – corrija esse grave erro da direção da EBC. Afinal, a defesa do trabalho da imprensa, que o governo diz respeitar, se restringe à liberdade dos barões da mídia ou se estende também para a classe trabalhadora? 

A próxima terça-feira terá uma absoluta paralisação do jornalismo dos veículos públicos - Agência Brasil; TV Brasil; Rádios Nacional, da Amazônia, Alto Solimões e MEC, além da Radioagência Nacional - e também nos estatais Canal Gov, Agência Gov e a Voz do Brasil.

sexta-feira, 3 de maio de 2024

A “desoneração da folha” e o jornalismo em proveito próprio

 


Por Chico Sant’Anna[1]

A cobertura que a sociedade brasileira vem sendo obrigada a consumir sobre a chamada “desoneração da folha” nos leva a questionar que tipo de jornalismo está sendo ofertado. Pessoalmente, arrisco a dizer que seria um “jornalismo de interesse”, no qual os meios de comunicação buscam sensibilizar a opinião pública e, consequentemente, pressionar o parlamento e o governo a conceder o benefício de redução da contribuição previdenciária a um seleto grupo de 17 segmentos da economia nacional, dentre eles, a própria imprensa, em especial as emissoras de rádio e TV. Um jornalismo em proveito próprio.

Essa não seria a primeira vez que isso ocorre na esfera pública brasileira. Para citar um caso mais recente, o processo de privatização das empresas de telefonia e telecomunicações. Como várias das empresas jornalísticas tinham interesse econômico nessa privatização, em especial da Embratel, responsável à época por transmitir os sinais de rádio e TV, a cobertura sempre foi simpática ao processo, mesmo diante das denúncias de irregularidades que culminaram com a demissão do então ministro das Comunicações, Mendonça de Barros.

Há uns três anos, cotidianamente, a imprensa bate na mesma tecla. E apesar da insistência no tema, a abordagem editorial não é nem honesta, nem ampla o suficiente para o cidadão, o contribuinte, e muito menos, plural. Em nenhum momento, por exemplo, é dito qual a diferença dos valores a serem arrecadados por um método e pelo outro. A imprensa tão ciosa em reduzir o déficit público; que defendeu reformas previdenciárias que levaram ao arrocho dos trabalhadores, se cala sobre os efeitos dessas regras contributivas no caixa do INSS.

Contrato com o leitor

No jornalismo tradicional existiria um contrato com o leitor estipulando a responsabilidade das informações transmitidas serem autênticas. A noção de “contrat communicationnel”, desenvolvida pelo linguista francês e especialista em Análise do Discurso, Patrick Charaudeau[2], vincula implicitamente o jornalista ao leitor, determina um elo à veracidade, se não à verdade dos fatos, que não se faz presente na publicidade e na literatura. Embora o autor tenha se referido ao profissional, ao individuo, creio que a avaliação deve ser estendida ao meio de comunicação ao qual está vinculado, uma vez que trabalha sob normas editoriais, na maioria das vezes, feitas sob medida para atender ao grupo econômico que mantém a mídia, em questão.

Na mesma linha, Eugênio Bucci[3], afirma que a atividade jornalística tem como cliente o cidadão, o leitor, o telespectador. Nesse sentido, o jornalista se obriga – em virtude da qualidade do trabalho que vai oferecer – trazer a informação mais transparente e para isso, ouvir, por exemplo, lados distintos que tenham participação numa mesma história. Ouvir todos os envolvidos, buscar a verdade, fazer as perguntas mais incômodas para as suas fontes em nome da busca da verdade é um dever de todo jornalista.

Meu pirão primeiro

Reduzir os gastos com encargos sociais tem sido uma rotina das empresas midiáticas nacionais. Historicamente, muitas delas se apresentam ou se apresentaram, como inadimplentes costumaz para com o INSS. Grandes grupos, como o Jornal do Brasil, Manchete, Gazeta Mercantil, Tupi, dentre outros, ao falirem deixaram rombos impagáveis da Previdência Social – inclusive de valores que foram debitados do trabalhador - e também do FGTS. Sempre se valeram de “criatividade” para burlar essa responsabilidade patronal. Primeiro, foi a eternização dos free lancers, que ganhou a paradoxal alcunha de frelancer fixo. Ou seja, a informalidade permanente. Contrataram via empresas terceirizadas ou cooperativas de trabalho, que comiam parcela importante do salário do profissional. Por fim, investiram na transformação do trabalhador pessoa física em pessoa jurídica, em empresa, mesmo que fosse empresa de uma só pessoa.

As mudanças de legislação fomentadas pelos governos de Michel Temer e Jair Bolsonaro trouxeram mais segurança jurídica – termo que a mídia adora – permitindo que esse formato de contrato, até então considerado burla da legislação trabalhista, fosse reconhecido pelo STF. Dependendo das letrinhas do contrato como PJ - que deixa de ser trabalhista e passa a ser de relação comercial -, não haverá direitos tradicionais como Licença Gestante, de Saúde, 13º salário, FGTS, férias e até mesmo limites de jornadas de trabalho e pagamentos de hora extra, ou adicionais noturno, insalubridade ou periculosidade.

Nenhum desses detalhes é exposto pela mídia nacional ao contribuinte-espectador, em especial aos trabalhadores celetistas, que correm o risco de perderem no futuro mais benefícios securitários na hipótese de novo rombo na Previdência. A imprensa que é tão ciosa pelo chamado controle das contas públicas não revela em quanto isso pode impactar o equilíbrio orçamentário.

Empregos

O argumento pra defender tal benesse é o da geração de empregos e aumento de renda. Mesmo assim, não vem a público quanto novos empregos foram gerados e quanto o salário médio cresceu além da inflação nesses 17 setores, desde a concessão dessa isenção fiscal em 2012. Buscam sensibilizar informando que são os segmentos que mais empregam e ameaçam com demissões ou redução de salários se não forem atendidos. Nesse ponto, a comunicação governamental também falha. Deveria botar os detalhes em público.

Entretanto, a se pegar o setor jornalístico, segundo dados da Federação Nacional dos Jornalistas – Fenaj, a redução dos gastos previdenciários não resultou assim em mais empregos ou melhores salários, pelo menos não na mídia. Apesar do benefício da desoneração da folha, o mercado de trabalho formal de jornalistas encolheu 21% em nove anos (2013-2021) Mesmo o espectador mais desatento perceberá que grandes nomes do telejornalismo já não mais estão na telinha. Até nas novelas e na transmissão de eventos desportivos a faces e vozes são novas, algumas até então desconhecidas. Não sei que impacto isso tem dado no Ibope.

Segundo a presidente da Fenaj, Samira de Castro[4], com base em estudo do Dieese, houve um “um visível enxugamento dos empregos com carteira assinada, sobretudo nos veículos jornalísticos tradicionais”, a chamada mainstream media. Não consegui a variação da renda média do jornalista, no mesmo período. Mas a renda média em 2021 apresentava um rendimento (salários mais adicionais e gratificações) de R$ 5.745,30, bem modestos para um segmento empresarial que tanto fatura



[1] Jornalista, pesquisador científico, PhD em Ciências da Informação e Comunicação, pela Universidade de Rennes 1 - França e Mestre em Comunicação pela Universidade de Brasília.

[2] CHARAUDEAU, Patrick. (1997). Le discours d’information médiatique – La construction du miroir social. Paris, Nathan

[3] BUCCI, Eugênio, (2006). Jornalistas & assessores de imprensa, profissões diferentes requerem códigos de ética diferente. In: Observatório da imprensa, Ano 11 – nº 397 – edição eletrônica de 5/9/2006, Disponível em http://observatorio.ultimosegundo.ig.com.br/artigos.asp?cod=397JDB001

[4] In: Fenaj – News letter de 03/01/2024: Mesmo com desoneração da folha, mercado de trabalho formal de jornalistas encolhe 21% em nove anos

terça-feira, 27 de junho de 2023

Europa propõe espionar os jornalistas

 


A nova regulamentação foi proposta pela Comissão Europeia em setembro de 2022, com seu rascunho inicial indicando que os governos europeus poderiam instalar spyware nos dispositivos dos jornalistas para supostamente garantir a segurança nacional ou para investigar "crimes sérios", como terrorismo, tráfico de seres humanos e de armas, exploração de crianças, estupros e homicídios.

Publicado originalmente pelo portal Sputnik News

A Lei de Liberdade de Imprensa europeia prevê a instalação de spyware nos telefones dos jornalistas em nome da "segurança nacional".

A Sputnik se reuniu com alguns observadores internacionais para discutir como a disposição corresponde à liberdade e aos princípios básicos europeus.

"Não há um motivo legítimo para espionar os jornalistas", afirmou Lucy Komisar, uma jornalista investigativa de Nova York, à Sputnik. "Esta lei visa pessoas identificadas como jornalistas, não como espiões, terroristas ou criminosos. O jornalismo não é um crime, a menos que Julian Assange faça isso. O verdadeiro motivo é proteger os funcionários governamentais dos jornalistas que relatam suas políticas inadequadas, abusos e corrupção", enfatizou.

A nova regulamentação foi proposta pela Comissão Europeia em setembro de 2022, com seu rascunho inicial indicando que os governos europeus poderiam instalar spyware nos dispositivos dos jornalistas para supostamente garantir a segurança nacional ou para investigar "crimes sérios", como terrorismo, tráfico de seres humanos e de armas, exploração de crianças, estupros e homicídios.

Diante da situação, a Federação Europeia de Jornalistas, representando mais de 300 mil membros, denunciou a intenção europeia como um "golpe à liberdade de imprensa". "Desde o século XVIII, quando os jornais começaram a circular, o sigilo das fontes tem sido sacrossanto", afirmou à Sputnik o professor Ellis Cashmore, ao comentar as consequências que a nova regra poderia causar.

"Os jornalistas têm, por gerações, respeitado isso e se recusado resolutamente a revelar suas fontes. [...] É um princípio extremamente importante na imprensa", destacou.

Também insatisfeita com as medidas europeias, a imprensa britânica se manifestou, afirmando que a lei proposta não só vai infringir a liberdade de imprensa como também vai abalar ainda mais a confiança pública na grande mídia ocidental.

Por sua vez, Lucy Komisar voltou a enfatizar que a lei, proposta pelas autoridades, não visa proteger as nações europeias, mas sim elas próprias, com medidas típicas de governos repressivos, onde os jornalistas devem usar telefones indetectáveis, computadores sem Internet e ter encontros secretos com suas fontes. "A democracia é distorcida quando os cidadãos são privados de obterem as informações que precisam para realizarem escolhas informadas", alertou Komisar.

Em diversas ocasiões, os governos europeus demonstraram seus esforços em ocultar a verdade em seus respectivos países, prendendo jornalistas que tentam mostrar fatos reais, e não apenas histórias criadas para iludir o povo, e "bloqueando" informações que não satisfazem seus governos ou que possam comprometê-los.

sábado, 19 de setembro de 2020

TV Mulheres Jornalistas recebe o Jornalista Chico Sant'Anna no programa Debate Político

Tive a grata oportunidade de ser entrevistado por Melissa Rocha no programa Debate Político MJ, na TV Mulheres Jornalistas, O tema da conversa: Desafios do jornalismo no cenário atual. Conversamos sobre transparência no governo atual, liberdade de imprensa, o clima de desconfiança em relação à mídia, blogs e a ascensão de veículos independentes.

📢Você pode assistir ao programa no Portal Mulheres Jornalistas e no  Youtube. Ou, então, aqui mesmo nesse blog.  

Entrem lá e deem uma força pra essa mulherada que está renovando o jornalismo brasileiro.


sábado, 25 de janeiro de 2020

Como combater a desinformação- a estratégia global da fake news


As redes sociais permanecem como um mundo de penumbra, onde nem sempre é possível identificar autores e seus propagadores. É um mundo sem impressão digital. Não sabemos de fato quem está teclando e não há regras claras sobre o seu uso.



Por Márcia Turcato, jornalista


A máxima “informação é poder” foi atualizada para “desinformação é poder”.  A desinformação é uma estratégia global e concorre com a ética na informação. A desinformação integra o arcabouço das convicções ideológicas e para combatê-la um importante passo a ser dado é deixar de chamá-la de fake news. Uma notícia, por definição, não é falsa, ela foi apurada com ética por um jornalista profissional. Falsas são as narrativas publicadas em portais que, embora pareçam ser sítios de notícia, publicam conteúdo sem responsabilidade social com o objetivo de prejudicar a capacidade de avaliação da audiência.
Conhecidas como fake news, as versões distorcidas da informação se apropriam de algum traço de realidade de forma a conferir credibilidade às teses de grupos de ideologia indefensável.  A desinformação imita o jornalismo na forma, mas não nos procedimentos. São criados personagens e inventados fatos para construir mentiras estratégicas para que pareçam verídicas e ganhem impulso nas redes sociais e, com isso, conquistar a simpatia de cidadãos de boa fé. Os algoritmos são uma armadilha da web.
Em alguns casos, o discurso não é alterado mas é feita edição das imagens, modificando a velocidade dos frames, ou o áudio da gravação, para que o protagonista aparente estar alterado e perca credibilidade junto a plateia. Outra face da manipulação tecnológica que precisamos enfrentar.
Embora já exista um esboço de controle, as redes sociais permanecem como um mundo de penumbra, onde nem sempre é possível identificar autores e seus propagadores. É um mundo sem impressão digital. Não sabemos de fato quem está teclando e não há regras claras sobre o seu uso. No entanto, é preciso reconhecer a importância da comunicação digital na sociedade e a popularização, a baixo custo, da produção de conteúdo que ela proporciona.
Apesar disso, a falta de transparência da rede, por exemplo, originou o caso Cambridge Analytica, onde o direcionamento da publicidade -de forma ilícita- junto aos consumidores de conteúdo, interferiu no resultado das eleições dos Estados Unidos. Ou, ainda, a manipulação das informações na Grã-Bretanha, que resultou na Brexti e, mais recentemente, a desinformação intencional durante o processo eleitoral de 2018 no Brasil, massivamente reproduzida nas redes sociais orgânicas ou robotizadas.
Fato semelhante ocorre com a publicidade em geral, direcionada nas redes sociais, de produtos, serviços e de ideologia. Publicidade que é feita sob a forma de informação, enganando a audiência. Todas essas situações, embora distintas no formato, têm semelhança na origem: valem-se da estratégia da desinformação ou da sonegação da informação. A sonegação da informação tem sido adotada por instituições públicas, especialmente no Brasil, apesar da existência da Lei de Acesso à Informação.
O caso mais recente, ainda em construção, será dado pelo Facebook. O fundador da plataforma, Mark Zuckerberg, anunciou a criação do Facebook News, uma aba no portal onde serão publicadas informações selecionadas pelo próprio FB e que privilegiam a mídia local. Parece uma iniciativa honesta, mas o que é mídia local? Precisamos de uma nova definição para mídia local diante do crescimento de portais ditos de notícia mas que não seguem os preceitos da construção da informação e proliferaram no Brasil a partir de 2018, na onda conservadora impulsionada pela estratégia da desinformação.

Proposta

Diante desses fatos, sugiro a formação de um grupo temático que discuta o que é informação, identifique as estratégias de desinformação em circulação no Brasil, suas conexões no mundo da web, e atue para encontrar caminhos que exponham essa rede global da desinformação como uma ferramenta de manipulação ideológica. Para isso é fundamental discutir os temas relacionados a desinformação, regulação do uso das redes sociais, informação e poder, desinformação e governabilidade, informação e ética e deepweb (web profunda, que não pode ser acessada por mecanismos de buscas).
A Comunidade Europeia avançou muito nessa área e criou mecanismos que buscam identificar e minimizar os efeitos da desinformação na sociedade. Algumas dessas estratégias podem ser debatidas e adotadas.
A criação de uma frente em defesa da informação, com foco na “desinformação”, pode abrir o debate e propor uma agenda pública que analise os seguintes aspectos:

  1. No período eleitoral, ter um comitê que monitore a circulação de informação falsa junto ao TSE com força para retirar a informação do ar em até 24 h.
  2. Penalizar portais que divulguem informações falsas.
  3. Reunir com as agências de publicidade para discutir sobre conteúdos direcionados.
  4. Reunir com os veículos de comunicação social para orientar sobre transparência.
  5. Melhorar a capacidade das instituições brasileiras para identificar e denunciar casos de desinformação.
  6. Criar um sistema de alerta rápido de combate à desinformação.
  7. Incentivo a criação de grupos de checagem da informação.
  8. Mobilizar o setor privado sobre os prejuízos da desinformação.


quarta-feira, 10 de outubro de 2018

Documentário: Repórter-fotográfico relembra a proclamação da Constituição de 1988

“Foi um exercício pleno de cidadania, de amor cívico esse processo de construção dessa relação povo-Congresso, povo-ruas, povo-poder”.


Por Lorena Silva


Na sexta, 05/10, a Constituição brasileira completou 30 anos e a TV Senado exibiu o episódio da série Testemunha da História com um personagem que viu muito de perto o desfecho da Assembleia Nacional Constituinte. Fernando Bizerra, um fotógrafo conhecido nos bastidores do Congresso, estava no Plenário do Senado quando Ulysses Guimarães deu a última coletiva antes da promulgação da carta.
Depois de 20 meses de trabalho intenso, fotógrafos e jornalistas finalmente puderam ver os primeiros exemplares da nova Constituição. Fernando Bizerra conta em detalhes o clima daquele encontro e como os fotógrafos quebraram o protocolo e tiraram de Ulysses o sorriso que se tornaria símbolo da Constituinte.
Bizerra também relembra uma foto histórica das mulheres reunidas para um registro da bancada feminina na instalação da  ANC. Ele fala da influência das parlamentares na elaboração da carta e dos momentos que marcaram sua memória nesse importante período da redemocratização do Brasil.
 Esse é o sétimo episódio da série Testemunha da História que traz o relato de jornalistas, fotógrafos(as) e parlamentares  sobre fatos marcantes da história recente do país. São pessoas que estiveram nos corredores, nos plenários, nas salas ou no cafezinho do Congresso quando grandes decisões e reviravoltas políticas aconteceram. Cada programa é narrado por um desses(as) personagens no cenário onde ele(a) presenciou um determinado fato histórico. O foco da série é o período da Assembleia Nacional Constituinte, que foi instalada em 1987 com a missão homérica de reescrever a constituição. Os próximos episódios serão com os deputados constituintes Aécio Neves, Rose de Freitas, Paulo Paim, Lídice da Mata, Benedita da Silva e o senador constituinte Edison Lobão.

Sinopse: Fernando Bizerra, fotógrafo conhecido nos bastidores do Congresso, estava no Plenário do Senado quando Ulysses Guimarães deu a última coletiva antes da promulgação da nova Constituição. Fernando Bizerra conta em detalhes o clima desse encontro e como os fotógrafos quebraram o protocolo e tiraram de Ulysses o sorriso que se tornaria símbolo da Constituinte.

Testemunha da História com Fernando Bizerra já está disponível no YouTube: Confira abaixo o vídeo com Fernando Bizerra


domingo, 12 de março de 2017

Dos gabinetes aos grotões, a arte de fazer Jornalismo.

Como setorista do Planalto, Lima Rodrigues cobriu visitas presidenciais ao exterior, como a da foto, no encontro de FHC e George Bush. Hoje, se especializou no jornalismo rural.
Do Salão Verde do Congresso Nacional aos confins da Amazônia, o repórter Lima Rodrigues, que também foi redator dos programas humorísticos de Chico Anísio, mostra na prática que é possível se destacar no jornalismo nacional sem estar nas grandes capitais. Também há notícia nos grotões do Brasil e falta gente para cobri-las.
Após vasta experiência de cobertura política em Brasília, o jornalista Lima Rodrigues, 57, resolveu mudar de cidade e de área e foi para o Pará, onde produz e apresenta há mais de cinco anos o programa independente Conexão Rural na RBATV, Band, canal 30, em Parauapebas, no sudeste do Estado, considerada a capital do minério. O programa é sucesso de audiência. Uma prova disso é que ele recebeu o título de “Jornalista do Ano” em abril de 2013, referente ao ano de 2012.
Com essa bagagem, Lima Rodrigues é convidado agora para falar de sua trajetória a jornalistas Brasil afora. Na agenda desse mês de março está o Road-Show para Jornalistas 2017, que acontece nesse mês de março em diferentes cidades dos Estados de Minas Gerais e São Paulo.  
Natural de Marabá (PA), Lima Rodrigues - que também é poeta cordelista e já escreveu em literatura de cordel as biografias de várias personalidades, incluindo os ex-presidentes Lula e Dilma Rousseff; Luiz Gonzaga, Dominguinhos; entre outras - atuou em Brasília por mais de 30 anos, na antiga Radiobrás, hoje Empresa Brasil de Comunicação e foi correspondente em Brasília de outras emissoras, incluindo as rádios Bandeirantes e Eldorado, de São Paulo.
Seu campo de atuação foi Palácio do Planalto e Congresso Nacional, além de ministérios, como o da Agricultura, além de atuar na comunicação institucional de órgãos públicos, como o Superior Tribunal de Justiça, onde exerceu o cargo de diretor do Núcleo de Rádio.
 “Cobri os principais fatos políticos em Brasília, começando pela campanha das Diretas Já para presidente da República em 1984; a disputa interna dentro do PDS entre Paulo Maluf e Mário Andreazza, a escolha de Tancredo Neves pelo Colégio Eleitoral para ser o primeiro presidente civil, após o regime militar; a doença e a morte de Tancredo; a posse do presidente José Sarney; a Assembleia Nacional Constituinte, as CPIs do Congresso, entre elas a do PC, o impeachment de Fernando Collor, enfim, fiz cobertura jornalística no Congresso Nacional e no Palácio do Planalto do governo Sarney até o governo Lula, incluindo viagens por todo o Brasil e dez viagens ao exterior e em 2010 trabalhei no Comitê Oficial da então candidata Dilma Rousseff”, disse ele, que em 1993/1994 presidiu o Comitê de Imprensa da Câmara dos Deputados. Apesar de todo esse currículo, Lima Rodrigues diz que cometeu erros em Brasília “ao pedir demissão de bons empregos na hora errada”.
Em fevereiro de 2011, resolveu ir para Imperatriz (MA). “Aí fui fazer um trabalho para a Cooperativa de Garimpeiros de Serra Pelada lá em Curionópolis e em Serra Pelada, no Pará, e acabei ficando por lá. Primeiro, colaborei com blogs e jornais locais e uma emissora de rádio e depois, em 18 de dezembro de 2011, resolvi colocar no ar, na Rede TV em Parauapebas o programa Conexão Rural. 

Terno e gravata
“Gostava de andar de terno e gravata no Palácio do Planalto e no Congresso Nacional, cujas dependências comecei a frequentar a partir da década de 1980, mas há mais de cinco anos só ando de calça jeans, camisa comum e de botinas. Minha redação é no campo, percorrendo as fazendas do sul e sudeste do Pará, de domingo a domingo. Amo o que faço e adoro o mundo rural”, destacou Lima Rodrigues.
O programa foi ganhando força e em novembro de 2012 fui para a  TV Bandeirantes, a RBATV,  e logo passei a viver e a me dedicar só ao Conexão Rural, no qual todo domingo às 9h, apresento as notícias do agronegócio, da agricultura familiar, do meio-ambiente, da cultura popular e abro espaço para os cantores regionais, incluindo a música sertaneja, a MPB e o forró pé de serra”, explica ele.
Com a experiência do Conexão Rural, Lima Rodrigues ganhou projeção e hoje é o único profissional da Região Norte convidado para falar num Road Show a jornalistas de agronegócio e economia das redações do Sul e Sudeste do Brasil.