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segunda-feira, 16 de junho de 2025

A Flotilha que virou navio fantasma na mídia nacional

 

Por Chico Sant’Anna*

Nas redes sociais foi possível acompanhar dia-a-dia a jornada de doze jovens que desejaram singrar as águas do Mediterrâneo para denunciar um genocídio que se perpetra contra o povo palestino na Faixa de Gaza. O barco partiu da Itália em 1º de junho para conscientizar sobre as condições de fome em Gaza. Mais do que levar donativos, alimentos, próteses ortopédicas infantis, a meta era elevar o conhecimento público sobre o sofrimento do povo palestino de Gaza, submetido há mais de uma década a um bloqueio injusto e desumano por Israel. Segundo dados do Escritório da ONU para Coordenação de Assuntos Humanitários (OCHA), 1,3 milhões de habitantes de Gaza dependem da ajuda internacional para sobreviver

Originalmente, era para ser outra embarcação. Entretanto, o barco Conscience, da coalizão internacional Flotilha da Liberdade, foi atacado por drones na madrugada da sexta-feira (2/5), na ilha de Malta. Os ativistas deram sequência em um veleiro de nome Madeleine. O nome é atribuído a uma pescadora artesanal palestina, que ainda busca no Mediterrâneo alimentos para seu povo. Mas chama a atenção o fato de Madalena ter sido a mais importante das mulheres que seguiram a jornada de Jesus Cristo, desde a Galiléia, e que ao lado de Maria presenciou a crucificação pelos romanos.

Grande mídia brasileira, praticamente, ignorou os dias
que sucederam à tomada de assalto pelos forças de Israel
da Flotinha da Liberdade, Nem a presença de uma brasileiro
dentre os ativistas presos motivou
uma cobertura de melhor qualidade.
A jornada de Madeleine não foi ignorada pelos militares de Israel. Relatos postados nas redes sociais pelos integrantes da jornada davam conta que ainda em águas internacionais foram alvo de ataques de drones que, segundo suas denúncias, lançavam sobre o veleiro Madelein líquidos químicos.

Faltando um dia para chegar a Gaza, novo ataque aéreo precedeu a tomada do barco. Embora estivessem em águas internacionais, todos foram detidos por forças de assalto israelenses. Desde então, o tema praticamente desapareceu na mídia brasileira, embora um dos tripulantes fosse o comunicador brasiliense Thiágo Ávila, um dos coordenadores da missão.

De diferentes nacionalidades, essa dúzia de Dons Quixotes colocou sob risco a própria integridade física para demover os moinhos da indiferença das grandes potencias internacionais. Queriam dar um grito em alto e bom som, capaz de ser ouvido nos cinco continentes. Sua missão pacifica: denunciar mundialmente o que se passa com dois milhões de palestinos, muitas mulheres e crianças, que lutam cotidianamente contra a fome e as balas. Ao lançar-se nessa jornada esperavam pautar na chamada mainstream media mundial um tenebroso tema que parece estar se naturalizando cotidianamente nas páginas de jornais, nas telas do telejornalismo e nas ondas radiofônicas.

A grande imprensa brasileira deu pouco ou quase nenhum espaço à missão dos pacifistas. Provavelmente Gandhi sofreu da mesma indiferença quando lutava pela independência da Índia, ocupada pelos britânicos. A cobertura da jornada foi praticamente inexistente. Apenas as redes sociais, em especial o Instagram, cobriam o cotidiano da Flotilha da Liberdade. O telejornal de maior audiência do Brasil, o Jornal Nacional da TV Globo, se limitou a dar uma “lapada” – termo que designa uma nota jornalística curta, com narração em off, no dia em que as tropas israelenses tomaram de assalto o pequeno veleiro.

Com correspondentes no mundo inteiro, inclusive em Israel, não trouxe nenhuma repercussão. Imagens disponíveis nas redes sociais, praticamente, não foram usadas. Um vídeo compartilhado pela Coalizão Flotilha da Liberdade (FFC) mostrou os ativistas sentados com coletes salva-vidas e as mãos levantadas ao ar enquanto as forças israelenses entravam no barco. Os passageiros podiam ser vistos jogando celulares ao mar.

No dia seguinte, o Jornal Hoje, da mesma emissora, se limitou a noticiar a libertação da ativista ambiental sueca Greta Thunberg, também presa pelas tropas israelenses. Nem mencionou o nome de Thiago Ávila. Israel foi inteligente em deportar a pessoa com maior visibilidade internacional, dessa maneira, contribuía para desmobilizar correspondentes das grandes agências internacionais.

A tática parece ter dado o resultado esperado. Dois dias depois, mesmo com a manutenção da prisão do brasiliense Thiago Ávila – agora em solitária – o tema não mais sensibilizava os gatekepers tupiniquins que, parece, desagendaram as notícias sobre os onze pacifistas que permaneceram presos. Nem mesmo as agendas e iniciativas oficiais do governo brasileiro, no Itamaraty e no Palácio do Planalto, sensibilizaram jornalisticamente as principais mídias brasileiras. Salva e honrada exceção do Correio Braziliense e, em parte o portal Metropoles, veículos da Capital Federal, onde nasceu e mora Thiago Ávila com sua família.

A postura da maioria dos veículos da imprensa brasileira rasga todos os livros de técnica jornalística. Ineditismo e proximidade geográfica são regrinhas básicas de noticiabilidade que se aprende nos manuais universitários. Além disso, ensino os especialistas, a seleção das informações a serem divulgadas deverem ser guiadas por valores sociais,[1] mas no interior da imprensa, os conteúdos são avaliados em função da origem dos fatos, da fonte que disponibiliza as informações e pode se dizer também em função de quem será incomodado com a difusão de determinado tema.[2] A ingerência externa no processo de newsmaking acontece com maior ênfase quanto aos aspectos de propriedade, de noticiabilidade, e de inclinação, o ângulo de abordagem da informação.[3]

O que se viu na jornada da Flotilha da Liberdade foi mais do que um caminhada pelo bem estar dos palestinos. Nas águas do Mediterrâneo uma segunda batalha se fez presente. A luta pela visibilidade pública. Ao se lançarem ao mar, os ativistas queriam interferir nos critérios de noticiabilidade, forçar a porta vigiada pelos gatekeeper. 

Para subverter o padrão de relações, garantir o êxito de ter selecionado um tema de seu interesse e obter a aparência midiática, alguns atores sociais elaboram estratégias bastante complexas. Tradicionalmente, se valem de uma técnica denominada pelos pesquisadores em Comunicação de image choque. Buscavam apelar aos sentimentos, às emoções, a sensibilidade e a simpatia do espectador/leitor/internauta. Tais técnicas visam dotar o discurso do sentido desejado, tocar dimensões sensoriais e cognitivas do cidadão comum e, por via de consequência dos meios de Comunicação.

A grande mídia brasileira, contudo, ignorou as regras das cartilha de jornalismo. Curiosamente, o site da BBC Brasil – veículo britânico – foi um dos principais a produzir e difundir noticiário denso, inclusive focando em ativistas não europeus que estavam a bordo.

Por que será que o é notícia para a BBC difundir para todos os continentes não sensibiliza a mídia nacional? Certamente não foi pela falta de matéria prima, de informações e mesmo de imagens, pois além das agências internacionais de notícias, a Coalizão Flotilha da Liberdade (FFC) cotidianamente disponibilizava material via plataformas de redes sociais. Não foram poucos os veículos que fizeram entrevistas com os ativistas nos dias que antecederam o ataque de Israel.

 Na grande maioria dos veículos da mídia nacional,
a prisão em solitária, a deportação e a chegada
de Thiago Ávila ao Brasil foram
fatos ignorados ou tratados como registros de menor
importância. Pior, ignorou-se as marcas
 e hematomas no corpo dele,
cicatrizes atribuídas a sessões de tortura
física a que teria sido submetido,
inclusive com uso de aparelhos de eletrochoque.
Imagens do Instagram de Thiago Ávila
A jornada de Thiago Ávila, que pela proximidade e pelo fato de ele ser um dos coordenadores, deveria ter sido melos acompanhada pela imprensa tradicional. Essa ignorou, na grande maioria, sua prisão solitária, a deportação e sua chegada ao Brasil. Pior, ignorou as marcas e hematomas em seu corpo que parecem indicar tortura física com uso de aparelhos de eletrochoque.

Mesmo as emissoras de TV e grande parte da imprensa local da Capital Federal - exceto casos especiais como o do Correio Braziliense - onde vive Thiago Ávila e onde estão os órgãos federais e a Embaixada de Israel, pouco ou nada informaram sobre os desdobramentos pós prisão por Israel.

Será que essa invisibilidade proporcionada pela imprensa brasileira fruto de uma eventual postura de maior simpatia a Israel do que aos Palestinos? Porquê ignorar ações que se opõe ao Estado Judeu? Serão interesses econômicos? Xenofobia? Lucratividade?

Não tenho a resposta, mas num mundo em que a circulação de informação é cada vez mais um ação de poder político e econômico, como numa luta de David contra Golias, os pequenos, recomenda o sociólogo francês Olivier Voirol, recorrer cada vez mais a métodos de obtenção de visibilidade, formas de criação de eventos, que perturbem os arranjos político midiáticos em vigor.[4]


* Jornalista Profissional, Mestre em Comunicação pela Universidade de Brasília e Doutor em Ciências da Informação e da Comunicação pela Universidade de Rennes 1, na França

[1] FERRY, Jean-Marc, (1991). Les transformations de la publicité politique. In: Hermes, N° 4, Le nouvel espace public, pp. 15 – 26, Paris, CNRS, p.25.

[2] MATHIEN, Michel, (1992). Les journalistes et le système médiatique, Paris, Hachete, p. 180-81.

[3] RIEFFEL, Rémy, (1984). L’élite des journalistes, Paris, PUF, p 130

[4] VOIROL, Olivier, (2005). Les luttes pour la visibilité – Esquisse d’une problématique. In : Visibilité/Invisibilité, Réseaux vol. 23, n° 129-130, pp 89-121, Paris, FT R&D/Lavoisier. p.103.

terça-feira, 22 de outubro de 2024

Jornalismo: Brasil, Israel e a pós-verdade


O Exército Brasileiro negociava a compra de 36 unidades de um tipo de
blindado voltado para a artilharia pesada,  de uma empresa israelense,
mas a negociação  foi suspensa após um impasse diplomático.
O momento de polarização política vivido pelo Brasil desde 2009 criou um novo movimento jornalístico: a pós-verdade. É uma atualização de um velho ditado corrente na imprensa que diz:

— Não deixe que a realidade fique entre você e uma grande manchete.



Por Pedro Paulo Rezende


Claro, era uma brincadeira, mas deixou de ser.

A pós-verdade e o excesso de criatividade viraram armas dos jornalistas de direita. A maioria deles, aliás, já abusava de fake news desde a campanha eleitoral de 2018. Por outro lado, os militantes de esquerda atuam nos fóruns de WhatsApp pedindo ações mais contundentes e completamente fora da realidade contra o Ocidente, como o corte de relações diplomáticas com Israel e os Estados Unidos.

Podemos analisar isto na campanha jornalística para tentar reverter a decisão do governo de congelar o processo de aquisição pelo Comando do Exército de 36 obuseiros de 155 mm autopropulsados sobre rodas (Programa VBCOAP 155 SR) — vencido pela empresa israelense ELBIT, que ofereceu o ATMOS em uma versão específica para o Brasil. O motivo para a decisão é que as relações entre Brasil e o Estado de Israel nunca estiveram em um patamar tão baixo.

Antes de tomar a decisão, o presidente da República, Luíz Inácio Lula da Silva, ouviu o ministro das Relações Exteriores, embaixador Mauro Vieira, e o assessor especial de Assuntos Internacionais (e ex-ministro da Defesa), embaixador Celso Amorim. É preciso ressaltar que ambos fazem uma distinção entre o governo do Estado judeu, hoje nas mãos de Benjamin (Bibi) Netanyahu — um radical supremacista —, e o país. Por isto, as relações diplomáticas com Israel não foram cortadas.

O congelamento da licitação, decidido depois de várias ações hostis do governo de Israel, não chega a prejudicar o programa do Comando do Exército de forma irremediável. Os termos do contrato preveem o envio de duas unidades para testes nas condições brasileiras antes de se firmar o documento definitivo. Caso as relações não se normalizem ainda haveria a possibilidade de se contratar, em análise pelo Tribunal de Contas da União (TCU), o segundo colocado — o Zuzana, da empresa eslovaca Excalibur.

Este quadro inspirou um jornalista de direita (condenado por fake news) para lançar uma pós-verdade: as Forças Armadas nacionais irão retirar todos os equipamentos comprados de empresas israelenses de seus navios, viaturas e aviões para substituí-los por equipamentos chineses e russos, o que paralisaria Marinha, Exército e Aeronáutica. Ele se aproveitou de um fato real para, com criatividade, lançar uma fake news. O comandante do Exército, general de exército Tomás Miguel Miné Ribeiro Paiva, irá visitar a República Popular da China onde poderá assinar acordos de cooperação entre os dois países.

Há uma grande distância entre os dois pontos, o que apenas demonstra o grau de loucura causado pela radicalização política do país.

Crise

Não faltaram artigos contrários ao presidente Luíz Inácio Lula da Silva quando ele denunciou, em fevereiro, o massacre da população civil em Gaza pelas Forças de Defesa de Israel. A declaração foi dura e comparou os bombardeios israelenses às ações de Hitler contra os judeus. Na época, os meios de comunicação nacionais classificaram a fala como um apoio velado ao terrorismo e ignoraram as contínuas declarações anteriores em que ele responsabilizou o Hamas pelas 1.280 mortes de civis no ataque cometido em território israelense no dia 8 de outubro de 2023.

Em resposta, o ministro das Relações Exteriores de Israel, Israel Katz, impôs um constrangimento ao então embaixador brasileiro, Frederico Meyer. Em lugar de uma reprimenda fechada, como é comum na diplomacia, escolheu o Museu do Holocausto, em Jerusalém, como palco. O evento foi público, o que contraria as regras internacionais. O chanceler israelense ainda declarou o presidente Lula “persona non grata”.

A reação internacional mostrou quem estava certo. Na Organização das Nações Unidas (ONU), a maioria dos países se alinhou com a posição brasileira, que reconhece a existência da Autoridade Palestina como governo legítimo da Cisjordânia e de Gaza e considera as ações de Israel em Gaza como crime de guerra. O Tribunal Penal Internacional (TPI) condenou Bibi Netanyahu à prisão, junto com quase todo o gabinete de governo formado pela coalizão de direita israelense.

Militontos

Para a direita radical, os interesses de Brasil e Israel se confundem. Os radicais conservadores gostariam que o Ministério das Relações Exteriores endossasse in totum as ações do primeiro-ministro do Estado judeu, Bibi Netanyahu, que determinam a eliminação de civis por ataques aéreos indiscriminados. Para esta turma, o presidente Luíz Inácio Lula da Silva não poderia denunciar o genocídio de 50 mil palestinos (26 mil deles crianças) e deveria seguir cegamente as determinações de Telavive (não reconhecemos Jerusalém como capital).

É bom lembrar que boa parte dos militontos da direita brasileira é formada por religiosos neopentecostais que acreditam ser o Estado de Israel a concretização de profecias bíblicas que afirmam que o Terceiro Templo será reconstruído e servirá de palco para a nova vinda do Messias. A segunda parte do texto, que não é canônico (surgiu nos Estados Unidos ao final do século 19), mas é amplamente aceito pelas Assembleias de Deus, normalmente não é citada: o templo será destruído e a maioria dos judeus será exterminada em uma guerra onde a Cristandade vencerá e o restante da população hebraica se converterá a Cristo.

O grau de loucura dos militontos vai mais além e chega ao cúmulo de afirmar que o presidente da Federação Russa, Vladimir Putin (conservador e ligado à Igreja Ortodoxa Russa) é um representante do comunismo internacional e que a República Popular da China quer colonizar o Brasil.

É preciso ressaltar que a “militôncia” de esquerda não fica muito atrás. Em um fórum de discussão no WhatsApp, um participante afirmou que a posição neutra do presidente Luís Inácio Lula da Silva sobre as eleições da Venezuela deveria resultar na retirada do Brasil do BRICS Plus, como se fosse possível expulsar do bloco um membro fundador. Outra bobagem comum é a teoria da conspiração de que o atual governo estaria prestes a assinar um acordo para integrar a Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN) e se afastaria da China, nosso maior mercado, e da Rússia.

Até a queda no banheiro do presidente Lula ganhou uma versão conspiratória: a de que ele fingiu o acidente para não participar diretamente da Cúpula de Kazan que reunirá os países do BRICS. É normal nestes casos que o paciente fique, no mínimo, 48 horas em observação. Além disto, o avião presidencial sofreu uma pane e se encontra em reparos na Cidade do México. O substituto fabricado pela Embraer possui uma autonomia inferior e exigiria mais escalas.

Em função dos dois grupos, criei uma versão atualizada de O samba do crioulo doido, de Stanislaw Ponte Preta: O funk do militonto mentalmente perturbado. Precisamos nos afastar destas visões para não perdermos a sanidade.

A verdade

Em qualquer país que se preze, a diplomacia está acima das autoridades militares. É preciso lembrar que foi o governo israelense que levantou a voz de maneira desproporcional e, além disto, em represália, dificultou a saída de cidadãos brasileiros de Gaza. Para o Itamaraty, fica difícil fazer negócios com um vendedor que dá caneladas por baixo da mesa.

Este histórico foi ignorado pelo Comando do Exército ao escolher o ATMOS proposto pela empresa israelense Elbit como vencedor da concorrência.

O ministro da Defesa, José Múcio, ignorou este ponto e saiu a campo para tentar reverter a decisão do presidente da República. Além disto, criticou o Itamaraty por impedir a venda de material excedente do Exército Brasileiro para a República Federal da Alemanha (que seria repassado para a Ucrânia, que está em guerra com a Federação Russa). Os diplomatas da Divisão de Produtos de Defesa (DIPROD) — junto com os técnicos da Secretaria de Produtos de Defesa (SEPROD) do Ministério da Defesa — impediram o negócio. Afinal de contas a neutralidade absoluta em conflitos é uma das bases da política externa nacional desde os tempos de José Maria Paranhos Jr., o Barão do Rio Branco.

O ministro José Múcio disse que a recusa era ideológica. Alegou que o negócio, que envolvia a venda de 60 mil projéteis antiaéreos de 35 mm ao preço de US$ 20 milhões, foi negado porque prejudicaria a compra de fertilizantes e diesel da Rússia. No entanto, ele se esqueceu de mencionar que o Itamaraty negou uma proposta de Moscou para recomprar as doze células de helicópteros Mil Mi-35 (de fabricação russa) encostados pela Força Aérea Brasileira, por US$ 25 milhões a unidade.

Hoje, a diplomacia israelense está sob o controle de colonos que ocupam ilegalmente terras atribuídas pela Organização das Nações Unidas (ONU) ao futuro Estado Palestino. Para sobreviver politicamente, Bibi Netanyahu (indiciado por corrupção) necessita ampliar conflitos, o que explica os ataques ao Irã, ao Líbano e à Síria. O primeiro-ministro israelense se apoia em uma base parlamentar formada por defensores do Grande Israel, que incluiria a limpeza étnica em Gaza e na Cisjordânia. É uma tragédia de grandes proporções e a posição do governo brasileiro se justifica e está acima da ideologia.

sexta-feira, 3 de maio de 2024

A “desoneração da folha” e o jornalismo em proveito próprio

 


Por Chico Sant’Anna[1]

A cobertura que a sociedade brasileira vem sendo obrigada a consumir sobre a chamada “desoneração da folha” nos leva a questionar que tipo de jornalismo está sendo ofertado. Pessoalmente, arrisco a dizer que seria um “jornalismo de interesse”, no qual os meios de comunicação buscam sensibilizar a opinião pública e, consequentemente, pressionar o parlamento e o governo a conceder o benefício de redução da contribuição previdenciária a um seleto grupo de 17 segmentos da economia nacional, dentre eles, a própria imprensa, em especial as emissoras de rádio e TV. Um jornalismo em proveito próprio.

Essa não seria a primeira vez que isso ocorre na esfera pública brasileira. Para citar um caso mais recente, o processo de privatização das empresas de telefonia e telecomunicações. Como várias das empresas jornalísticas tinham interesse econômico nessa privatização, em especial da Embratel, responsável à época por transmitir os sinais de rádio e TV, a cobertura sempre foi simpática ao processo, mesmo diante das denúncias de irregularidades que culminaram com a demissão do então ministro das Comunicações, Mendonça de Barros.

Há uns três anos, cotidianamente, a imprensa bate na mesma tecla. E apesar da insistência no tema, a abordagem editorial não é nem honesta, nem ampla o suficiente para o cidadão, o contribuinte, e muito menos, plural. Em nenhum momento, por exemplo, é dito qual a diferença dos valores a serem arrecadados por um método e pelo outro. A imprensa tão ciosa em reduzir o déficit público; que defendeu reformas previdenciárias que levaram ao arrocho dos trabalhadores, se cala sobre os efeitos dessas regras contributivas no caixa do INSS.

Contrato com o leitor

No jornalismo tradicional existiria um contrato com o leitor estipulando a responsabilidade das informações transmitidas serem autênticas. A noção de “contrat communicationnel”, desenvolvida pelo linguista francês e especialista em Análise do Discurso, Patrick Charaudeau[2], vincula implicitamente o jornalista ao leitor, determina um elo à veracidade, se não à verdade dos fatos, que não se faz presente na publicidade e na literatura. Embora o autor tenha se referido ao profissional, ao individuo, creio que a avaliação deve ser estendida ao meio de comunicação ao qual está vinculado, uma vez que trabalha sob normas editoriais, na maioria das vezes, feitas sob medida para atender ao grupo econômico que mantém a mídia, em questão.

Na mesma linha, Eugênio Bucci[3], afirma que a atividade jornalística tem como cliente o cidadão, o leitor, o telespectador. Nesse sentido, o jornalista se obriga – em virtude da qualidade do trabalho que vai oferecer – trazer a informação mais transparente e para isso, ouvir, por exemplo, lados distintos que tenham participação numa mesma história. Ouvir todos os envolvidos, buscar a verdade, fazer as perguntas mais incômodas para as suas fontes em nome da busca da verdade é um dever de todo jornalista.

Meu pirão primeiro

Reduzir os gastos com encargos sociais tem sido uma rotina das empresas midiáticas nacionais. Historicamente, muitas delas se apresentam ou se apresentaram, como inadimplentes costumaz para com o INSS. Grandes grupos, como o Jornal do Brasil, Manchete, Gazeta Mercantil, Tupi, dentre outros, ao falirem deixaram rombos impagáveis da Previdência Social – inclusive de valores que foram debitados do trabalhador - e também do FGTS. Sempre se valeram de “criatividade” para burlar essa responsabilidade patronal. Primeiro, foi a eternização dos free lancers, que ganhou a paradoxal alcunha de frelancer fixo. Ou seja, a informalidade permanente. Contrataram via empresas terceirizadas ou cooperativas de trabalho, que comiam parcela importante do salário do profissional. Por fim, investiram na transformação do trabalhador pessoa física em pessoa jurídica, em empresa, mesmo que fosse empresa de uma só pessoa.

As mudanças de legislação fomentadas pelos governos de Michel Temer e Jair Bolsonaro trouxeram mais segurança jurídica – termo que a mídia adora – permitindo que esse formato de contrato, até então considerado burla da legislação trabalhista, fosse reconhecido pelo STF. Dependendo das letrinhas do contrato como PJ - que deixa de ser trabalhista e passa a ser de relação comercial -, não haverá direitos tradicionais como Licença Gestante, de Saúde, 13º salário, FGTS, férias e até mesmo limites de jornadas de trabalho e pagamentos de hora extra, ou adicionais noturno, insalubridade ou periculosidade.

Nenhum desses detalhes é exposto pela mídia nacional ao contribuinte-espectador, em especial aos trabalhadores celetistas, que correm o risco de perderem no futuro mais benefícios securitários na hipótese de novo rombo na Previdência. A imprensa que é tão ciosa pelo chamado controle das contas públicas não revela em quanto isso pode impactar o equilíbrio orçamentário.

Empregos

O argumento pra defender tal benesse é o da geração de empregos e aumento de renda. Mesmo assim, não vem a público quanto novos empregos foram gerados e quanto o salário médio cresceu além da inflação nesses 17 setores, desde a concessão dessa isenção fiscal em 2012. Buscam sensibilizar informando que são os segmentos que mais empregam e ameaçam com demissões ou redução de salários se não forem atendidos. Nesse ponto, a comunicação governamental também falha. Deveria botar os detalhes em público.

Entretanto, a se pegar o setor jornalístico, segundo dados da Federação Nacional dos Jornalistas – Fenaj, a redução dos gastos previdenciários não resultou assim em mais empregos ou melhores salários, pelo menos não na mídia. Apesar do benefício da desoneração da folha, o mercado de trabalho formal de jornalistas encolheu 21% em nove anos (2013-2021) Mesmo o espectador mais desatento perceberá que grandes nomes do telejornalismo já não mais estão na telinha. Até nas novelas e na transmissão de eventos desportivos a faces e vozes são novas, algumas até então desconhecidas. Não sei que impacto isso tem dado no Ibope.

Segundo a presidente da Fenaj, Samira de Castro[4], com base em estudo do Dieese, houve um “um visível enxugamento dos empregos com carteira assinada, sobretudo nos veículos jornalísticos tradicionais”, a chamada mainstream media. Não consegui a variação da renda média do jornalista, no mesmo período. Mas a renda média em 2021 apresentava um rendimento (salários mais adicionais e gratificações) de R$ 5.745,30, bem modestos para um segmento empresarial que tanto fatura



[1] Jornalista, pesquisador científico, PhD em Ciências da Informação e Comunicação, pela Universidade de Rennes 1 - França e Mestre em Comunicação pela Universidade de Brasília.

[2] CHARAUDEAU, Patrick. (1997). Le discours d’information médiatique – La construction du miroir social. Paris, Nathan

[3] BUCCI, Eugênio, (2006). Jornalistas & assessores de imprensa, profissões diferentes requerem códigos de ética diferente. In: Observatório da imprensa, Ano 11 – nº 397 – edição eletrônica de 5/9/2006, Disponível em http://observatorio.ultimosegundo.ig.com.br/artigos.asp?cod=397JDB001

[4] In: Fenaj – News letter de 03/01/2024: Mesmo com desoneração da folha, mercado de trabalho formal de jornalistas encolhe 21% em nove anos

sexta-feira, 22 de abril de 2022

Papa Francisco puxa orelha dos jornalistas

Bergoglio se suma a los jefes de Estado — él también lo es —
que culpan al mensajero de los hechos negativos.
La fuerte acusación del papa Francisco a los periodistas del mundo. El sumo pontífice usó el término "coprofilia" para definir uno de los cuatro pecados en los que, según su él, suelen caer los medios de comunicación.


Por Hugo Machin Fajardo (@MachínFajardo), publicado originalmente em español no site colombiano Las 2 Orillassob o título Periodistas bajo condena papal

 


Dice el papa Francisco— porque también es el jefe espiritual de millones de católicos—  que «los periodistas —así en genérico— suelen caer en «pecados», que de ser ciertas esas acusaciones constituirían delitos en dos casos, y deshonestidades en otros dos, como «la  desinformación, calumnias, difamación, coprofilia». Este último calificativo se traduce en atracción fetichista por los excrementos. Ni más, ni menos.

Ocurre que Bergoglio-Francisco cuando vierte opiniones sobre su prójimo habla desde esa doble condición, por lo que ofrece la dificultad de que la lógica reacción de los agredidos, en este caso los periodistas, pueda interpretarse como una ofensa hecha a millones de personas que profesan el catolicismo. Él lo sabe, y se escuda en ellos.

La religiosidad latinoamericana comprende muchas otras maneras de expresarse también: budismo, chamanismo, islamismo, judaísmo, pentecostalismos, protestantismos, santería, además de las diferentes manifestaciones de la religión popular.

La libertad religiosa es reconocida como uno de los «cimientos de la sociedad democrática» por la Corte Interamericana de DH en sentencia del 5 de febrero de 2001 (La última tentación de Cristo vs Chile).

La Declaración Americana de Derechos y Deberes del Hombre (DADDH), suscrita en 1948 en Bogotá, en su artículo 3°, proclamó el derecho a la liberta religiosa.

También la Convención Americana sobre Derechos Humanos (CADH) proclama la no discriminación religiosa (Arts.1 y 27, incisos1 y 2); la libertad religiosa, declarando la dimensión positiva y negativa de dicha libertad (Arts.12, incisos 1 y 2); la libertad de asociación religiosa (Art.16°). En síntesis, el sistema interamericano de DH garantiza el respeto a la libertad religiosa y el principio de no discriminación e igualdad de todas les creencias religiosas o no. La religiosidad de la persona es un derecho humano.

Y cabe mencionar especialmente el artículo 13° de la CADH que prohíbe el discurso de odio religioso, que Bergoglio aplica al revés cuando acusa y estigmatiza ante millones de sus seguidores a los trabajadores de la prensa.

Como Jefe de Estado, Bergoglio, quizás imbuido de la tradición peronista de hostigar a la prensa, se suma a los presidentes, ex presidentes y dictadores —Trump, Bolsonaro, Rafael Correa, López Obrador, Bukele, Daniel Ortega, Maduro, Cristina F. de Kirchner—, que culpabilizan, censuran y persiguen a periodistas por las situaciones negativas, o que les cuestionen, informadas por los medios de comunicación. Hechos por los cuales no poca veces los periodistas pagan con sus vidas ejercer el oficio de informar u opinar.

Especialmente sarcástico suena el principal del Vaticano si tenemos en cuenta que sobre la mayor tragedia del último tiempo como es la guerra de agresión desatada por Rusia contra Ucrania, Bergoglio no ha sido capaz de responsabilizar con nombre y apellido a Vladimir Putin por haber invadido a un vecino, drama que hoy registra crímenes de guerra, crímenes de lesa humanidad, torturas, desaparición forzada, violación de mujeres, desplazamiento forzado para millones de ucranianos, millones de niños expuestos a graves riesgos, la destrucción material de un país y perjuicios económicos y comerciales para el mundo.

Las imágenes y testimonios aportados desde suelo ucraniano por esos periodistas cuestionados por Bergoglio —algunos de los cuales murieron por informar en tanto decenas de corresponsables siguen en riesgo—  permiten a la opinión publica tener elementos para discernir aquella realidad. La agresión del papa Francisco supone un contraste muy fuerte entre quienes arriesgan su vida por informar y quien se limita a decir que «todos somos culpables» de la guerra, o a besar una bandera ucraniana y condenar a la masacre de Bucha sin mencionar a los culpables. Claro que siempre es algo mejor respecto a su antecesor Eugenio Pacelli (Pío XII) que bendijo las armas de Mussolini y se mantuvo ajeno al Holocausto.

Solamente en Latinoamérica, la segunda región con más periodistas asesinados, en 2021 murieron 14 periodistas y en lo que va del 2022, solo en México, —uno de los países más católicos de la región— suman ocho los periodistas asesinados en impunidad.

No es el mejor contexto para atacar desde el poder —y Bergoglio vaya si lo tiene— a quienes únicamente poseen su computadora o celular para desempeñarse y, paralelamente, ser tan benigno con los criminales.

Quizás, no es posible saberlo, la información documentada y confrontada que aportan periodistas y medios de prensa sobre el abuso sexual clerical contra menores en el mundo, genere ese encono en quien, respecto a esa otra tragedia humana, poco ha hecho en sus casi diez años de pontificado.

Precisamente, en estos días en que tuvo lugar la invectiva papal, el periódico El País de Madrid — diario leído por más de un millón de lectores y el más consultado digitalmente en habla hispana— ha sido premiado por su trabajo de información y documentación acerca del abuso sexual clerical sobre menores, destacado por el jurado por «el valor fundamental de una investigación de largo aliento, sobre unos hechos ocultos y ocultados durante décadas, dando voz a personas adultas quebradas por las terribles experiencias de la infancia». Asimismo, resalta que es «una investigación que impacta en la vida de las personas, moviendo a los poderes públicos y a la Iglesia a iniciar sus propias investigaciones». Por último, ha valorado la participación de los ciudadanos quienes, a través de un correo habilitado por el diario, «han nutrido una contabilidad de más de 600 casos de abusos con más de 1.200 víctimas».


sábado, 19 de setembro de 2020

TV Mulheres Jornalistas recebe o Jornalista Chico Sant'Anna no programa Debate Político

Tive a grata oportunidade de ser entrevistado por Melissa Rocha no programa Debate Político MJ, na TV Mulheres Jornalistas, O tema da conversa: Desafios do jornalismo no cenário atual. Conversamos sobre transparência no governo atual, liberdade de imprensa, o clima de desconfiança em relação à mídia, blogs e a ascensão de veículos independentes.

📢Você pode assistir ao programa no Portal Mulheres Jornalistas e no  Youtube. Ou, então, aqui mesmo nesse blog.  

Entrem lá e deem uma força pra essa mulherada que está renovando o jornalismo brasileiro.


sábado, 25 de janeiro de 2020

Como combater a desinformação- a estratégia global da fake news


As redes sociais permanecem como um mundo de penumbra, onde nem sempre é possível identificar autores e seus propagadores. É um mundo sem impressão digital. Não sabemos de fato quem está teclando e não há regras claras sobre o seu uso.



Por Márcia Turcato, jornalista


A máxima “informação é poder” foi atualizada para “desinformação é poder”.  A desinformação é uma estratégia global e concorre com a ética na informação. A desinformação integra o arcabouço das convicções ideológicas e para combatê-la um importante passo a ser dado é deixar de chamá-la de fake news. Uma notícia, por definição, não é falsa, ela foi apurada com ética por um jornalista profissional. Falsas são as narrativas publicadas em portais que, embora pareçam ser sítios de notícia, publicam conteúdo sem responsabilidade social com o objetivo de prejudicar a capacidade de avaliação da audiência.
Conhecidas como fake news, as versões distorcidas da informação se apropriam de algum traço de realidade de forma a conferir credibilidade às teses de grupos de ideologia indefensável.  A desinformação imita o jornalismo na forma, mas não nos procedimentos. São criados personagens e inventados fatos para construir mentiras estratégicas para que pareçam verídicas e ganhem impulso nas redes sociais e, com isso, conquistar a simpatia de cidadãos de boa fé. Os algoritmos são uma armadilha da web.
Em alguns casos, o discurso não é alterado mas é feita edição das imagens, modificando a velocidade dos frames, ou o áudio da gravação, para que o protagonista aparente estar alterado e perca credibilidade junto a plateia. Outra face da manipulação tecnológica que precisamos enfrentar.
Embora já exista um esboço de controle, as redes sociais permanecem como um mundo de penumbra, onde nem sempre é possível identificar autores e seus propagadores. É um mundo sem impressão digital. Não sabemos de fato quem está teclando e não há regras claras sobre o seu uso. No entanto, é preciso reconhecer a importância da comunicação digital na sociedade e a popularização, a baixo custo, da produção de conteúdo que ela proporciona.
Apesar disso, a falta de transparência da rede, por exemplo, originou o caso Cambridge Analytica, onde o direcionamento da publicidade -de forma ilícita- junto aos consumidores de conteúdo, interferiu no resultado das eleições dos Estados Unidos. Ou, ainda, a manipulação das informações na Grã-Bretanha, que resultou na Brexti e, mais recentemente, a desinformação intencional durante o processo eleitoral de 2018 no Brasil, massivamente reproduzida nas redes sociais orgânicas ou robotizadas.
Fato semelhante ocorre com a publicidade em geral, direcionada nas redes sociais, de produtos, serviços e de ideologia. Publicidade que é feita sob a forma de informação, enganando a audiência. Todas essas situações, embora distintas no formato, têm semelhança na origem: valem-se da estratégia da desinformação ou da sonegação da informação. A sonegação da informação tem sido adotada por instituições públicas, especialmente no Brasil, apesar da existência da Lei de Acesso à Informação.
O caso mais recente, ainda em construção, será dado pelo Facebook. O fundador da plataforma, Mark Zuckerberg, anunciou a criação do Facebook News, uma aba no portal onde serão publicadas informações selecionadas pelo próprio FB e que privilegiam a mídia local. Parece uma iniciativa honesta, mas o que é mídia local? Precisamos de uma nova definição para mídia local diante do crescimento de portais ditos de notícia mas que não seguem os preceitos da construção da informação e proliferaram no Brasil a partir de 2018, na onda conservadora impulsionada pela estratégia da desinformação.

Proposta

Diante desses fatos, sugiro a formação de um grupo temático que discuta o que é informação, identifique as estratégias de desinformação em circulação no Brasil, suas conexões no mundo da web, e atue para encontrar caminhos que exponham essa rede global da desinformação como uma ferramenta de manipulação ideológica. Para isso é fundamental discutir os temas relacionados a desinformação, regulação do uso das redes sociais, informação e poder, desinformação e governabilidade, informação e ética e deepweb (web profunda, que não pode ser acessada por mecanismos de buscas).
A Comunidade Europeia avançou muito nessa área e criou mecanismos que buscam identificar e minimizar os efeitos da desinformação na sociedade. Algumas dessas estratégias podem ser debatidas e adotadas.
A criação de uma frente em defesa da informação, com foco na “desinformação”, pode abrir o debate e propor uma agenda pública que analise os seguintes aspectos:

  1. No período eleitoral, ter um comitê que monitore a circulação de informação falsa junto ao TSE com força para retirar a informação do ar em até 24 h.
  2. Penalizar portais que divulguem informações falsas.
  3. Reunir com as agências de publicidade para discutir sobre conteúdos direcionados.
  4. Reunir com os veículos de comunicação social para orientar sobre transparência.
  5. Melhorar a capacidade das instituições brasileiras para identificar e denunciar casos de desinformação.
  6. Criar um sistema de alerta rápido de combate à desinformação.
  7. Incentivo a criação de grupos de checagem da informação.
  8. Mobilizar o setor privado sobre os prejuízos da desinformação.


quarta-feira, 2 de janeiro de 2019

Opinião: Jornalismo, verdades e ideologia

Posse de Bolsonaro. Foto de Jonas Pereira.
"Não posso mencionar um governo que tenha sido favorável à imprensa. Por vezes, ela é reprimida, hostilizada; por vezes, comprada."

Por José Tirésias

É natural o antagonismo entre imprensa e governo. E isso diz um pouco sobre as ambiguidades do site com nome derivado. São forças com papéis diferentes em um sistema político. Mas os espaços nunca são claramente delimitados.

Isso é o bê-a-bá.

Assim, sempre se estabelece um jogo de poder, cujo ingrediente complicador da atualidade são as tais "redes sociais".

Não me lembro de um governo, desde quando comecei a acompanhar a vida política, nem li sobre isso em livros de histórias...Não posso mencionar um governo que tenha sido favorável à imprensa. Por vezes, ela é reprimida, hostilizada; por vezes, comprada.

O atual governo e muitos de seus seguidores repetem o velho discurso de que a imprensa é inimiga das transformações em curso e está mancomunada com o 'ancien régime'.  E avisa que pode se comunicar diretamente com a população, o que deixaria o jornalismo sem função.

Como tudo na história humana, parece que em um determinado momento o que é "novo" vai engolir tudo o que é "velho" e estabelecer uma supremacia sem precedentes. Mas os sistemas humanos são cíclicos e tendem a acomodações, já que a mudanças constante é de índole revolucionária e, portanto, insustentável por prazos muito longos, como prova a história.

O atual governo é reformista - não revolucionário, apesar de um certo conjunto de declarações e atos. Não é impossível que a imprensa como a conhecemos encolha. Na verdade, isso tem se dado, mas o que é mais notável é a segmentação por meio de processos que se fundem com os das novas possibilidades midiáticas. Em 2013, houve quem acreditasse que a Mídia Ninja tinha substituído a mídia convencional. Esta soube, em parte se recompor. Ainda que menor, está muito mais qualificada do que os Ninjas, que permanecem no seu amadorismo.

Da mesma fora, acreditou-se que os novos atores políticos "horizontais, sem lideranças, bla bla blá" tinham vindo para varrer de cena os políticos tradicionais. Nada disso. É claro que ficou algo da ação fluida da mobilização em rede, mas tudo em benefício do que é mais tradicional com cara de moderninho.

Vamos passar por reformas de corte conservador. Até onde essa tendência se sustentar em mundo com seus ciclos muito curtos.

O momento não é de pluralismo. Sopram outros ventos, de um outro quadrante ideológico, que se diz não ideológico para dissimular sua ideologia. Jornalistas com suas ideologias têm atuado em regimes de todos os tipos desde que existe imprensa. Há até aquela frase que atribuem a Roberto Marinho em conversa com um militar: "deixe que dos meus comunistas cuido eu".

Essencial sempre será defender a liberdade de imprensa e combater a ideia de que agora ninguém mais precisa de jornalismo porque temos as redes sociais, onde macaquear e palrar é a tônica. Imprensa apura e se responsabilizar pelo que apura e publica. Por mais respeitável que seja a opinião de cada cidadão, ficar empoleirado no Facebook ou no Whatsapp repetindo memes não contribui para a construção de um julgamento político capaz de orientar a trajetória de um país rumo a um desenvolvimento em sentido amplo.

Essa deve ser uma das batalhas fundamentais do jornalismo. Mostrar que é insubstituível, na essência, embora possa encontrar formatos novos. O arremedo de informação e opinião deve ser constantemente confrontado com visão objetiva, de um lado, e argumentação fundamentada, do outro, esteja o jornalista em seu domínio propriamente dito, ou junto à massa das redes sociais.

Sem saudade do "ancien régime" nem adesão ao "new establishment", já que a situação do "antiestablshiment" apenas prepara o advento de um novo, o jornalista tem de procurar ser justo e crítico. De modo a sobreviver a esta e às próximas ondas ideológicas.

quinta-feira, 8 de março de 2018

A mídia não ouve as mulheres

Embora mais da metade dos jornalistas no Brasil sejam do sexo feminino, na hora de definir as fontes de informações, a mídia “esquece” as mulheres. Elas representaram apenas 24% das pessoas ouvidas, lidas ou vistas em jornais, televisão e rádio

Publicado anteriormente no Misto Brasília
O jornalista especializado em temas científicos Ed Yong percebeu há dois anos que suas reportagens continham uma distorção. Inspirado pela autora Adrienne LaFrance, sua colega na revista The Atlantic, que examinou o desequilíbrio de gênero em seus textos, ele analisou seu próprio trabalho e descobriu que, nas 23 reportagens que havia escrito desde janeiro, apenas 24% das pessoas citadas eram mulheres. Era preciso mudar sua forma de trabalhar.
"Eu acho que a tarefa dos jornalistas não é apenas refletir sobre o que está acontecendo na sociedade. Eles também têm a responsabilidade de se manifestar sobre essas questões", diz Yong à Agência DW.
"Nós criamos um mundo ao nosso redor por meio das histórias que escrevemos, além de informar sobre esse mundo. Adrienne expressou isso muito bem em seu texto quando constatou que estava contribuindo ativamente para um mundo em que as vozes das mulheres eram subestimadas. E suas contribuições, minimizadas. Esse não é um mundo no qual eu quero viver e com o qual quero contribuir."
Embora mais de metade da população mundial seja do sexo feminino, mulheres e meninas são sub-representadas na mídia. Os homens não apenas dominam o setor de imprensa, estabelecendo os objetivos editoriais, produzindo reportagens e expressando suas opiniões como especialistas: eles também são os protagonistas das histórias contadas.
As conclusões de Yong sobre seu próprio trabalho refletem a situação nos meios de comunicação em todo o mundo.
As mulheres também representaram apenas 24% das pessoas ouvidas, lidas ou vistas em notícias de jornais, televisão e rádio em 2015, de acordo com um relatório do Projeto de Monitoramento Global de Mídia (GMMP, na sigla em inglês) que abordou a desigualdade de gênero no noticiário.
A proporção se manteve a mesma de um relatório anterior do GMMP publicado em 2010. Ela também é comparável com outros estudos sobre a representação das mulheres na mídia. As estatísticas são semelhantes na própria Deutsche Welle.
Faltam realmente especialistas? - A jornalista americana Lauren Bohn enfrenta o desequilíbrio de gênero na mídia desde que se mudou para o Egito e começou a cobrir o Oriente Médio. Enquanto a Primavera Árabe varria a região, ela ficou impressionada com a falta de mulheres nas reportagens sobre as revoltas.
"Embora existissem tantas mulheres que pudessem opinar na Praça Tahrir ou na Síria ou na Tunísia, por algum motivo em minhas próprias reportagens – mesmo eu sendo tão consciente –, a maioria das pessoas citadas eram homens. E a maioria desses homens citados não eram apenas homens brancos, mas geralmente estavam em Washington ou em Nova York”, diz.
A partir daí ela começou a se esforçar para incluir mais mulheres em seu trabalho. Mas logo descobriu que buscar mulheres como fontes simplesmente não era suficiente.
"Lembro-me de perguntar a opinião de uma mulher egípcia, que tinha um doutorado de uma escola de elite ocidental e que tinha feito pesquisas de campo em toda a região, e ela me disse: ‘Esta não é minha área de especialização'. Lembro-me de responder: ‘Se essa não é sua área de especialização, não sei de quem então é essa área de especialização'.”
"Por outro lado, sempre que eu recorria a um homem, ele se prontificava não apenas a me fornecer opiniões, mas também para dar um ponto de vista condescendente, como se estivesse pronto para escrever um livro sobre um assunto que havia surgido apenas uma hora antes”.
Essas ideias levaram Bohn e o pesquisador turco-americano Elmira Bayrasli a iniciar o Foreign Policy Interrupted, um programa de bolsas de estudo e uma plataforma educacional que busca mudar a proporção de homens para mulheres falando sobre questões de política externa na mídia.
O programa reúne jornalistas e especialistas, editores, produtores, grupos de reflexão e organizadores de conferências e oferece treinamento de mídia e workshops sobre escrita e publicação de reportagens. O boletim semanal do grupo coloca em destaque o trabalho feito por mulheres e dissipa argumentos como, por exemplo, que não há especialistas em Coreia do Norte.
Quinze minutos a mais - Yong decidiu corrigir a relação homem-mulher em seu trabalho acompanhando seu progresso em uma planilha, enquanto buscava as pessoas certas, as mulheres certas, para incluir em suas reportagens. Isso acabou demandando um pouco mais de tempo, contou ele, foram mais ou menos 15 minutos extras para procurar especificamente por mulheres a serem incluídas nas reportagens. Mas, segundo Yong, isso não foi difícil. Após quatro meses de esforço extra, ele conseguiu aumentar a proporção de vozes femininas para 50%.
"Eu acho que os homens deveriam assumir a responsabilidade por coisas como esta de forma séria. Se você considera que os homens superam em número as mulheres nas redações e contam com todos os tipos de vantagens estruturais na mídia, assim como o fato de que as fontes masculinas são mais numerosas que as femininas, parece lógico apontar que os homens têm uma responsabilidade maior de corrigir esse desequilíbrio”.
Além da responsabilidade, o tema também deveria ser de interesse dos homens, afirma Lauren Bohn.