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quinta-feira, 14 de novembro de 2024

Há 40 anos, mataram o Mário Eugênio

Perto da meia-noite de um domingo, Marão saía do Setor de Rádio e TV Sul de Brasília, após gravar seu programa de rádio. No térreo, enquanto abria a porta do carro para ir embora, foi atacado por indivíduos em dois veículos da segurança pública.

 

Por William França, publicado originalmente no Correio da Manhã - edição DF, coluna Brasilianas

Dia 11 de novembro, completaram-se 40 anos de um fato histórico que abalou Brasília: a morte do jornalista Mário Eugênio. Ele era um verdadeiro mito da reportagem policial. Escrevia no “Correio Braziliense” e tinha um programa diário da Rádio Planalto, o “Gogó das Sete”, líder de audiência.

Em 1984, no último ano da ditadura, ele teve coragem de denunciar um Esquadrão da Morte montado por militares do Exército e policiais do DF, que praticavam crimes diversos.

Mário Eugênio acabou recebendo um tiro de escopeta na cabeça e outros cinco tiros no corpo. Foram disparados pelo atirador de elite conhecido nos meios policiais como Divino 45.

Perto da meia-noite de um domingo, Marão saía do Setor de Rádio e TV Sul de Brasília, após gravar seu programa de rádio. No térreo, enquanto abria a porta do carro para ir embora, foi atacado por indivíduos em dois veículos da segurança pública.

Este colunista, à época estudante de Jornalismo no CEUB, era um ouvinte do programa. Acompanhou o noticiário pelo que a equipe do “Correio Braziliense” divulgava – embora, naquela época, não se soubesse tanto dos bastidores.

Hoje, sabe-se que a investigação do crime se deu pelos jornalistas do Correio. Rendeu perseguições, ameaças de morte e um trabalho de abafa por parte das autoridades da Secretaria de Segurança do DF e do Exército. Mas também rendeu um Prêmio Esso Nacional à equipe do jornal (o maior prêmio do Jornalismo brasileiro) e o Prêmio Herzog de Direitos Humanos, da Arquidiocese de São Paulo.

Toda essa história, rica em detalhes, está contada por um dos mais envolvidos em toda a apuração e resolução do crime, o jornalista Renato Riella. Então secretário-executivo de Redação do “Correio Braziliense”, ele chegou no local do crime quando Mário Eugênio ainda sangrava. “Brasilianas” reproduz o relato de Riella na versão digital da coluna.

 Acesse o link da coluna do jornal e boa leitura!

domingo, 2 de julho de 2023

Sede do Sindicato dos Jornalistas em João Pessoa (PB) é depredada

Local foi alvo de ataque criminoso; destruíram documentos, objetos e furtaram diversos itens num prejuízo estimado de R$ 50 mil

 

Por Chico Sant'Anna. Fotos de Dui Borges/RTC

A sede do sindicato dos jornalistas profissionais da Paraíba, em João Pessoa, foi completamente destruída após ser alvo de um arrombamento e vandalismo na madrugada da sexta-feira (30). Apesar das grades nas janelas e porta principal os meliantes, além de violar o acesso ao imóvel, que fica na Rua da Areira, bairro do Varadouro, destruíram documentos, objetos e furtaram vários itens. O local ficou completamente destruído.

A entidade informou que, dentre os objetos furtados ou destruídos, estão três aparelhos de ar condicionado, que eram utilizados para climatizar o auditório. Equipamentos caríssimos. O prejuízo estimado é de R$ 50 mil. O rol de danos envolve ainda os seguintes itens:

  • Som e microfone que eram utilizados para os eventos realizados no auditório;
  • Computador;
  • Levaram todas as cadeiras do auditório e rasgaram as duas poltronas;
  • Quebraram todas as tomadas existentes na sede e levaram as respectivas fiações;
  • Levaram a maioria das torneiras e deixaram quebradas as que não conseguiram tirar;
  • Quebraram quatro fechaduras no valor de R$ 250,00 cada uma;
  • Quebraram a parede da porta da Diretoria e Secretaria;
  • Retiraram as caixas de controle de energia;
  • Destruíram todo o teto do auditório e as respectivas luminárias;
  • Quebraram a parede que fica no final do auditório por onde tiveram acesso ao interior da sede;

Sem condições de funcionamento

O sindicato ficou sem condição de funcionar e cobra das autoridades ações contra a insegurança no Centro da Capital paraibana. O presidente da instituição, Land Seixas, relatou que este é o terceiro ataque registrado contra o imóvel somente neste mês. No entanto, desta vez, a ocorrência foi ainda mais devastadora e destrutiva. "Na madrugada de terça e quarta-feira, houve invasões em pequena escala, em que levaram algumas coisas. Agora, além de saquear o restante, destruíram completamente nossa sede, sentimos uma total falta de segurança” - lamentou ele.

segunda-feira, 9 de janeiro de 2023

Que jornalismo é esse?

Os canais all news, como a Globo News, BandNews e CNN Brasil, suspenderam suas programações rotineiras de domingo e passaram a transmitir em tempo real, com reportagens e análises, o que ocorria na Capital Federal. Este não foi, contudo, o comportamento dos canais abertos, que por serem gratuitos, possuem uma audiência muito maior. 


Por Chico Sant’Anna*

Nos ensinam os bons manuais de Jornalismo, que notícia boa é aquela que traz um fato inusitado, de grande interesse na sociedade e que chega rápido aos cidadãos consumidores de informação – preferencialmente em tempo real. Também é sabido que o que potencializa os meios de comunicação é a amplitude da audiência. Quanto maior, melhor, pois isso gera prestigio e retorno publicitário. Entretanto, a maioria dos canais de televisão aberta do país ignorou o que acontecia na tarde de 8 de janeiro de 2023, quando uma turba de terrorista decidiu ocupar e depredar as sedes dos Três Poderes na Capital da República.

Jornais, revistas, agências de notícias nacionais e estrangeiras, portais informativos, prontamente enviaram seus profissionais para o front da notícia. Vários deles, em especial foto e cine jornalistas, foram alvo de agressões físicas perpetradas pelos terroristas. Os canais all news, como a Globo News, BandNews e CNN Brasil, suspenderam suas programações rotineiras de domingo e passaram a transmitir em tempo real, com reportagens e análises, o que ocorria na Capital Federal. 

Este não foi, contudo, o comportamento dos canais abertos, que por serem gratuitos, possuem uma audiência muito maior. Deixar de noticiar em tempo real sobre esse delicado tema é uma ação de desinformação. Milhões de brasileiros que não possuiam tv paga ficaram sem saber o que se passava em Brasília.

Portanto, levar a informação sobre aquele fato inusitado, de interesse de todos os cidadãos brasileiros, mais do que cumprir com a missão social do Jornalismo, era fazer jus às concessões que tais grupos econômicos receberam da sociedade.

Importantes emissoras privadas de canal aberto ignoraram em suas programações o ato terrorista que se desenrolava na Praça dos 3 Poderes. 

Canais abertos

Às 17 horas, quando o quebra-quebra terrorista já se desenrolava há pelo menos umas duas horas. As redes sociais estavam plenas de vídeos de autoria dos próprios terroristas e também das forças de segurança. Esse material foi usado por alguns meios de comunicação como forma de superar a impossibilidade de ter equipes no palco dos acontecimentos. Na telinha, a TV Bandeirantes exibia Mastechef, no SBT, o programa no ar era o da Eliana; e a Record difundia Hora do Faro. Mesmo a TV Globo, em seu canal aberto, demorou a priorizar esse conteúdo. Somente às 17h19 a emissora deixou de veicular o Domingão do Luciano Huck e decidiu transmitir simultaneamente o conteúdo de sua coirmã Globo News. Buscamos saber os motivos de tal comportamento editorial com os responsáveis sobre o comando dos departamentos de Jornalismo de cada uma dessas emissoras. Indagamos se foi uma opção editorial, compromissos publicitários ou dificuldades técnico-operacionais, mas reinou o silêncio como resposta.

Emissoras do Senado e da Justiça não alteraram suas programações de fim de semana. TV Brasil manteve a programação, mas inseriu boletins informativos.

Canais públicos

As três casas de Poder invadida por terroristas são detentoras de canais próprios de rádio e TV: TV Brasil, TVs Senado e Câmara, TV Justiça. Não tivemos a oportunidade de avaliar a programação da TV Câmara, mas no Senado e na Justiça é como se nada estivesse acontecendo lá fora. Numa Irônica coincidência, a TV Senado exibia o programa Que Brasil é esse? Na tela, não era nenhuma reportagem ou análise dos fatos que se desenrolavam. No lugar de comentários dos parlamentares, ação que poderia ser enviada por celulares, era exibida uma entrevista com Fafá de Belém. A ironia involuntária também se fez presente na programação da TV Justiça: estava no ar uma entrevista com o Procurador Geral da República, Augusto Aras, no programa "Interesse Público".

Apenas a TV Brasil, canal público da Empresa Brasileira de Comunicação – EBC, alterou o conteúdo pré-programado para o fim de semana. As alterações se deram por meio da inserção de flashes (boletins informativos). Não houve uma interrupção total, como o ocorrido na TV Globo. Entre 16 e 18 horas, a TV Brasil veiculava o filme Insônia. Mais uma ironia do destino.

Os canais públicos foram igualmente procurados. O departamento de Jornalismo da TV Brasil informou que está elaborando um relatório completo sobre a programação veiculada. Não explicou ainda a opção editorial adotada. A secretaria de Comunicação do Supremo Tribunal Federal não retornou nossos questionamentos sobre o comportamento editorial da TV Justiça. Já a diretora da secretaria de Comunicação do Senado, Érica Ceolin, informou que chegou a mobilizar equipes de jornalistas para cobrirem em tempo real o que ocorria no Senado Federal, mas que ao chegarem na sede do Senado, a polícia legislativa da Casa, por questões de segurança, não autorizou que os profissionais entrassem para pegar os equipamentos. Até mesmo o supervisor técnico de plantão teve que se retirar. O Senado possui um amplo sistema de câmeras, algumas robôs, instaladas nas salas de Comissões, e outras de segurança, internas e externas – inclusive uma no topo do Anexo 1 – que poderiam ser operadas à distância e ter suas imagens transmitidas. Entretanto, segundo Erica Ceolin, não foi possível, sequer adentrar as instalações da emissora que fica no subsolo do Anexo 2 e a opção foi informar a sociedade pelo site da Agência Senado de Notícias.

Questionamentos

Os canais de televisão são concessões públicas. O concessionário privado tem a obrigação de bem informar a sociedade. A não transmissão em tempo real dos acontecimentos terroristas na Esplanada dos Ministérios, obriga-nos ao questionamento semelhante ao que é feito sobre a ação das forças de segurança do governo do Distrito Federal. Houve incompetência ou foi conivência? Por que as emissoras detentoras de tecnologia de ponta, helicópteros, drones, antenas de micro-ondas, câmeras instaladas em motos, ignoraram o ocorrido, talvez o fato mais importante do país desde a redemocratização? A pandemia da Covid mostrou que até mesmo com celulares é possível prover uma cobertura dos fatos.

Para a coordenadora do sindicato dos Jornalistas Profissionais do DF, Juliana Nunes, os episódios desse domingo evidenciaram a importância de se fortalecer a comunicação pública e governamental, bem como legislativa e judiciária. “Tudo para que a população seja devidamente informada e o patrimônio público, protegido. A sociedade brasileira precisa ter a correta dimensão dos crimes cometidos neste domingo” – complementa.

A história nos mostra que em vários momentos politicamente importantes do Brasil, as emissoras de televisão em transmissão aberta pecaram. Maior exemplo foi a campanha das Diretas Já e a reedição dos debates presidenciais entre Collor de Melo e Luís Inácio Lula da Silva. Algumas emissoras fizeram o mea culpa. Esperamos que o comportamento editorial adotado por diversos canais no fim de semana de 8 de janeiro não seja uma retomada do mau jornalismo. 

*Jornalista, documentarista, Doutor em Ciências da Informação e Comunicação, pela Universidade de Rennes 1, na França. Pesquisador associado ao Núcleo de Mídia e Política – Nemp, da Universidade de Brasília.

quarta-feira, 1 de junho de 2022

Câmara dos Deputados: Um dia de luta para a imprensa e pra cultura

A pedido da deputada Luisa Erundina (Psol-SP,
Câmara dos Deputados vai debater a segurança
dos jornalistas nas eleições de 2022.

As eleições de 2022 no Brasil serão realizadas em um contexto de crescentes ataques a jornalistas, comunicadores e violações da liberdade de imprensa, que tendem a se agravar durante a campanha. 


Por Márcia Turcato, de Brasília

 

A segurança dos jornalistas e a liberdade de imprensa durante o processo eleitoral de 2022 será tema de audiência pública na Comissão de Ciência e Tecnologia, Comunicação e Informática (CCTCI) da Câmara dos Deputados. A proposta da deputada Luíza Erundina (Psol/SP) e do deputado Gustavo Fruet (PDT/PR) foi aprovada nesta terça-feira (01/06).

Para justificar o pedido de audiência, os autores do requerimento apresentaram dados de agressão a jornalistas e a veículos de imprensa da Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj), da Associação Nacional de Jornalistas Investigativos (Abraji) e da associação internacional Repórteres sem Fronteiras.

Requerimento de Luisa Erundina é aprovado pela Comissão
 de Comunicação e Informática da Câmara Federal.
Foto Márcia Trucato
De acordo com a deputada Luiza Erundina, as eleições de 2022 no Brasil serão realizadas em um contexto de crescentes ataques a jornalistas, comunicadores e violações da liberdade de imprensa, que tendem a se agravar durante a campanha. Ela citou o levantamento feito pela Fenaj, entre 2019 e 2021, apontando que a violência contra jornalistas no Brasil somou 1.066 ocorrências – total superior à soma de todos os episódios já registrados pela entidade.

A Abraji, que realizou pesquisa semelhante em 2021, registrou 453 ataques contra comunicadores e meios de comunicação. Em 69% dos casos, a agressão foi provocada por agentes públicos, como ministros e o próprio presidente da República. Já o levantamento da associação Repórteres Sem Fronteiras, em parceria com o Instituto Tecnologia e Sociedade do Rio de Janeiro, registrou, somente entre março e junho de 2021, meio milhão de tweets contendo hashtags com ataques à imprensa nesta rede social.

Serão convidados para participar da audiência pública, que deve ocorrer ainda em junho, representantes da Fenaj, da Abraji, do Repórteres sem Fronteira, do Tribunal Superior Eleitoral, do Ministério Público Federal, da Secretaria Nacional de Direitos Humanos e do Twitter Brasil.

Artistas, cineastas e produtores culturais se fizeram presente
à Comissão de Cultura para sensibilizar os parlamentares.
Foto de Márcia Turcato.
Leis Aldir Blanc 2 e Paulo Gustavo

Logo após a reunião da CCTCI, foi a vez do setor cultural ter voz na Comissão de Cultura da Câmara dos Deputados. Em audiência pública conduzida pela deputada Jandira Feghali (PCdoB/RJ), artistas, cineastas, diretores, poetas e produtores discutiram a derrubada dos vetos do presidente da República às leis Aldir Blanc 2 e Paulo Gustavo. A apreciação dos vetos pela Câmara e Senado deve ocorrer na próxima semana. Segundo a deputada Jandira Feghali, os dois vetos devem ser derrubados porque o entendimento da maioria é que o setor cultural necessita de auxílio financeiro e que existe recurso para isto.

A lei Aldir Balnc 2 amplia o número de beneficiados pelo auxílio federal frente aos prejuízos impostos pela pandemia de covid-19, fixando um repasse de três bilhões de Reais para o setor cultural em todas as Unidades da Federação durante cinco anos. A segunda lei destina 3,86 bilhões de Reais a estados e municípios, sendo que 1,06 bilhão de Reais são para ações emergenciais.

A produtora cultural Rita Andrade (ao centro), de Brasília,
 integrante do Conselho Nacional de Cultura,
participou da reunião e destacou que a cultura
é o mais democrático dos setores produtivos
 porque todos têm acesso a acesso a ela.
A produtora cultural Rita Andrade, de Brasília,  integrante do Conselho Nacional de Cultura, participou da reunião e destacou que a cultura é o mais democrático dos setores produtivos porque todos têm acesso a acesso a ela, sendo quando assistem um filme na TV ou cinema, quando compram um livro ou vão a um show, por exemplo.

Participaram da audiência pública, entre outros, Fabrício Noronha, presidente do Fórum Nacional de Secretários e Dirigentes Estaduais de Cultura; Ana Castro, presidente do Fórum Nacional de Gestores de Cultura; Eduardo Barata, da Associação de Produtores de Teatro; Bianca de Felippes, da Gávea Filmes; Fred Maia, da Mídia Ninja; Célio Turino, criador dos Pontos de Cultura; e as atrizes Julia Lemmertz e Rose Campos.

sábado, 5 de outubro de 2019

A Liberdade de Imprensa e o Blog Gama Livre



Taciano Lemos edita o Gama Livre desde 2009. Diferentemente de muitos blogs
que circulam no ciber espaço, esse não tem rabo preso com ninguém, nem
está sujeito a verbas públicas de propaganda.
A falta de sutileza dos despersonalizados ofensores gratuitos da coragem do Gama Livre não consegue esconder a realidade que avulta em sobra ante a pequenez do discurso ofensor.


Por Salin Siddartha

O Blog Gama Livre e o seu editor, Taciano Lemos, vêm sendo alvos de ataque e ameaças por parte de pessoas que não prezam a liberdade de expressão alheia nem o sagrado respeito ao Estado de direito a que gente de bem deve submeter-se. A agressão à iniciativa do cidadão argumentar e expor pontos de vista próprios deixa a cidadania à margem da atuação cívica, em nome da arrogância do neofascismo que, infelizmente, está pontuando o cotidiano de nossa sociedade. É que os poderosos de plantão não veem com bons olhos os blogueiros independentes que exercem o sagrado dever de criticar os desmandos e omissões dos governantes. E, como a extrema-direita compensa sua incompetência argumentativa, sua falta de legitimidade intelectual que não pode marcar presença no terreno da crítica, seja no campo editorial seja no território das mídias tradicionais, usa a via das redes sociais para palrar vitupérios.
Para quem não negocia a dignidade, é preferível morrer a viver humilhado, e o acoitamento na covardia não se coaduna com o espírito combativo dos defensores das causas libertárias, e, nos tempos quando os soldados não são patriotas, os patriotas têm de ser soldados. É o caso de Taciano Lemos, um honesto militante da verdade que denuncia as violações, os erros, a falta de compostura, as mentiras e os atentados à honra nacional que o governo ultradireitista encastelado no Planalto e seus asseclas perpetram todos os dias. E, por essa razão, ele vem pagando o alto preço que lhe cobra a plebe ignara defensora da ideologia oficial.
A insignificância pensante dos despreparados fanáticos do bolsonarismo quer a população brasileira comportando-se como “carneirinha”, e os blogueiros brasileiros que se põem ao lado da defesa dos direitos da população correm risco de sofrer o cumprimento das ameaças que lhes assacam os medíocres que, sem capacidade de concatenar um raciocínio, partem para o insulto pessoal, brandindo o terrorismo psicológico típico das formas intimidatórias.
Há um ditado chinês que diz que “não consegue o elefante esconder-se atrás de um arbusto”. Assim também a falta de sutileza dos despersonalizados ofensores gratuitos da coragem do Gama Livre não consegue esconder a realidade que avulta em sobra ante a pequenez do discurso ofensor: no foco, fita-se fácil o contorno desgrenhado da tropa de Bolsonaro e a fórmula fácil de reduzir a meros grunhidos e palavras de baixo calão o que deveria ser um discurso concatenado. Mas Taciano e o seu Blog provam que o Brasil não está morto, que é possível resistir às milícias bandas por mais fortes que elas possam parecer. E Taciano Lemos resiste! E nós também resistimos junto com ele, em apoio mútuo.
Hoje, sexta-feira, 4 de outubro, à noite, haverá Ato Cultural em Apoio ao Blog Gama Livre e à Liberdade de Imprensa. Dependendo da hora em que você esteja lendo este artigo, pode ser que o evento já tenha acontecido. Não importa. O fundamental é sentir-se parte do corpo que reage ao insulto do neofascismo à normalidade democrática do nosso país.
Os soturnos corvos que voam na escuridão política do Brasil tentam calar a voz de quem não se submete às ameaças ou às seduções dos oligarcas. Também são inúmeros os “recados” para tentar amedrontar jornalistas que exercem seu dever diuturno de arautos da sociedade, contudo o direito de opinião não pode ser empeçado pelo medo do governante de ser exposto em sua nudez política ante a verdade dos fatos. Entrementes, não olvidaremos de prestar atenção aos sinais sutis ou ostensivos provindos de possível covardia ameaçadora à liberdade de formar e informar à população.
Sabemos que os bolsomimions são maus ouvintes e péssimos leitores: não gostam de escutar os outros falarem nem ler o que se escreve. Todavia, por maior que seja a ameaça ou o atentado, os seres humanos continuam agindo para mudar a injusta situação em que se vive, atuando em diversas frentes, desde a periferia das grandes cidades de nossa pátria, noticiando, lutando, apurando os fatos, recuperando a verdade, advogando, nos movimentos populares, criando e mudando o que tem de ser mudado, fazendo o enfrentamento em defesa do socioambientalismo, da economia sustentável, como ribeirinhos, indígenas e quilombolas, numa onda avassaladora coberta de heroísmo e heróis anônimos inspirados na implacabilidade da História.
É notável que, ao violar-se a liberdade de expressão de uma pessoa, viola-se o direito da sociedade como um todo. Então, não é a liberdade do blogueiro Taciano Lemos que se torna cerceada, mas a de todo brasileiro que, não tendo meios de declarar sua opinião, tem no Blog Gama Livre seu porta-voz. Não se pode transformar em cego, surdo e mudo aquele que enxerga e ouve bem a realidade e não tem receio de externar sua perplexidade ante a falta de seriedade de quem está no exercício do poder. Por isso, é bom que saibam os transgressores da verdade que estão arriscando-se muito ao ofender um verdadeiro herói – sim, herói, mas não indefeso, e, mesmo que o fosse, indefeso e desprovido de honra não são sinônimos.
Diversas situações históricas foram capazes de inspirar heroísmo no Brasil. Hoje, não tenho dúvidas ao afirmar que, tal qual o idiota que ergue uma grande pedra com as próprias mãos acima da cabeça para depois deixa-la cair sobre seus próprios pés, assim também o bolsonarismo tece em fios de arbítrio a roupa do heroísmo que cobrirá de honra pessoas como Taciano Lemos e blogs como o Gama Livre.

MEXEU COM UM! MEXEU COM TODOS!
Cruzeiro-DF, 4 de setembro de 2019
SALIN SIDDARTHA


segunda-feira, 24 de junho de 2019

STF vai decidir se São Paulo deve indenizar fotógrafo ferido pela PM paulista

Fotógrafo Sérgio Andrade da Silva
ficou cego do olho esquerdo
após ser atingido por uma bala de borracha.
O Supremo Tribunal Federal (STF) vai decidir sobre a responsabilidade civil do Estado em relação a profissional da imprensa ferido pela polícia, em situação de tumulto, durante cobertura jornalística. O repórter fotográfico Sérgio Andrade da Silva ficou cego do olho esquerdo após ser atingido por uma bala de borracha. A matéria teve repercussão geral reconhecida e é objeto do Recurso Extraordinário (RE) 1209429, interposto por um repórter fotográfico atingido no olho esquerdo bala de borracha, disparada pela Polícia Militar de São Paulo, enquanto cobria um protesto de professores na capital paulista em 18 de maio de 2000.
O recurso questiona acórdão do Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo (TJ-SP) que admitiu que a bala de borracha da corporação militar foi a causa do ferimento no olho do repórter, com sequela permanente na visão, durante registro de tumulto envolvendo manifestantes grevistas e policiais, mas reformou entendimento do juízo de primeira instância para assentar a culpa exclusiva da vítima. O TJ-SP concluiu pela improcedência do pedido de indenização por danos materiais e morais contra o Estado.
O repórter alega que a decisão constitui “verdadeiro salvo-conduto” à atitude violenta e desmedida da polícia em manifestações públicas, imposição de censura implícita ao inibir que sejam noticiadas ações dos agentes estatais, e risco à atividade da imprensa. Assevera ofendidos os princípios da cidadania e da dignidade da pessoa humana e os direitos à vida, à liberdade e à segurança. Argumenta ainda que houve, para além da responsabilidade objetiva, ao menos inadequação dolosa ou culposa por parte do agente policial.
O Estado de São Paulo, parte recorrida, aponta sensacionalismo na alegação de censura à profissão jornalística, a qual entende não demonstrada. Reafirma que, embora o repórter não tenha sido alvo dos disparos, assumiu o risco ao permanecer no confronto. A decisão do tribunal estadual, alega o estado, mediante análise das provas, afastou o nexo de causalidade, concluindo pela culpa exclusiva da vítima. Ainda segundo a argumentação do ente federado, o cidadão comum deve proteger-se no exercício da profissão.
Manifestação
Relator do recurso, o ministro Marco Aurélio manifestou-se pela existência de repercussão geral da matéria. “Está-se diante de tema a exigir pronunciamento do Supremo”, disse. A manifestação do relator foi seguida, por maioria, em deliberação no Plenário Virtual da Corte. O mérito do recurso será submetido a posterior julgamento pelo Plenário físico do STF.

sábado, 22 de junho de 2019

Polícia alagoana busca motoqueiros que atropelaram jornalista em manifestação



Caso vai ser levado ao Ministério Público Estadual e à Comissão de Direitos Humanos da OAB

Fonte: Sindjornal/AL

A jornalista alagoana Fátima Almeida, ex-presidente do Sindicato dos Jornalistas de Alagoas, foi propositalmente atropelada por motoqueiros quando participava na sexta-feira (14), da manifestação contra a Reforma da Previdência. A dirigente sindical submeteu-se a exame de corpo de delito, no Instituto Médico Legal (IML), dando continuidade às providências para identificação e responsabilização cível e penal dos motoqueiros que a atropelaram.

O fato foi registrado na Central de Flagrantes, no sábado (15), quando a jornalista formalizou a notícia crime e registrou boletim de ocorrência (B.O.), acompanhada pelo atual presidente do sindicato dos Jornalistas Profissionais do Estado de Alagoas (Sindjornal), Izaías Barbosa, da vice-presidente da Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj), Valdice Gomes, e do jornalista Flávio Peixoto, ex-presidente do Sindjornal.

Corpo de delito: Jornalista Fátima Almeida,
atropelada  por motoqueiros, passa por exame no IML
“Estamos aguardando o laudo do IML, para ingressar com representação no Ministério Público de Alagoas para o encaminhamento da denúncia  à Justiça alagoana”, assegurou a jornalista. O caso vai ser levado também à Comissão de Direitos Humanos da OAB/Seção de Alagoas. 
“Vamos acompanhar de perto esse caso para que os fatos sejam esclarecidos e os responsáveis punidos. Tudo o que ocorreu é muito grave. E há provas de que o incidente foi proposital. Não podemos deixar de cobrar essa investigação”, afirmou o presidente do Sindjornal.

Segundo Fátima, além de fotos, há um vídeo no qual um dos motoqueiros envolvidos no atropelamento aparece acompanhando a manifestação desde a concentração do ato na Praça do Centenário. Pessoas que estavam na manifestação e viram a ocorrência já se colocaram à disposição da jornalista para contribuir com a investigação, na qualidade de testemunhas.

“Fazemos questão de levar adiante essa ocorrência, até porque esse tipo de comportamento poderia ter resultado em uma tragédia, envolvendo inclusive mais vítimas.
O atropelamento aconteceu nas  proximidades do prédio da Embratel, descendo a Ladeira dos Martírios, no bairro do Farol. 
“Foram três motoqueiros. Eles cruzaram a via, aceleraram e vieram com tudo pra cima das pessoas”, relembra Fátima, que caiu,  chegou a ser arrastada e teve o braço e os dedos machucados.


sábado, 19 de janeiro de 2019

Cresce a violência contra jornalistas no Brasil

Os casos de agressões a jornalistas cresceram 36,36%, em relação ao ano de 2017. Foram 135 ocorrências de violência, entre elas um assassinato, que vitimaram 227 profissionais. 


A Federação Nacional dos Jornalistas (FENAJ) apresenta, amanhã, sexta-feira, seu Relatório da Violência contra Jornalistas e Liberdade de Imprensa no Brasil - 2018. O lançamento será no auditório do Sindicato dos Jornalistas no Município do Rio de Janeiro, às 14 horas.
O relatório da FENAJ revela que os casos de agressões a jornalistas cresceram 36,36%, em relação ao ano de 2017. Foram 135 ocorrências de violência, entre elas um assassinato, que vitimaram 227 profissionais. E os números mostram que esse incremento esteve diretamente relacionado à eleição presidencial e episódios associados a ela, como a condenação e prisão do ex-presidente Lula.
Eleitores/manifestantes foram os principais agressores, sendo responsáveis por 30 casos de violência contra os jornalistas, o que representa 22,22% do total. Entre esse grupo, os partidários do presidente eleito Jair Bolsonaro foram os que mais agrediram a categoria, somando 23 casos. Já os partidários do ex-presidente Lula, que não chegou a ser candidato, estiveram envolvidos em sete episódios.
A greve dos caminhoneiros (movimento com características de locaute) também contribuiu para alterar o perfil dos agressores. Com 23 casos (17,04% do total), os caminhoneiros ficaram sem segundo lugar na lista dos que cometeram atos de violência contra os jornalistas.
Caminhoneiros e eleitores/manifestantes foram os responsáveis pelo crescimento significativo do número de agressões físicas, agressões verbais, ameaças/intimidações e impedimentos ao exercício profissional.
Os jornalistas foram vítimas também de políticos, policiais, juízes, empresários, dirigentes/torcedores de times de futebol e populares. Além do assassinato, das agressões físicas e verbais, das ameaças/intimidações e dos impedimentos ao exercício profissional, houve ainda casos de cerceamento à liberdade de imprensa por decisões judiciais, censuras, atentados, prisão e práticas contra a organização sindical da categoria.
Para a presidenta da FENAJ, Maria José Braga, o crescimento da violência contra jornalistas é uma demonstração inequívoca de que grupos e segmentos da sociedade brasileira não toleram a divergência e a crítica e não têm apreço pela democracia. Segundo ela, é preciso medidas urgentes por parte do poder público e das empresas de comunicação para garantir a integridade dos profissionais.
Entre as medidas defendidas pela FENAJ, estão a criação de um protocolo de atuação das polícias em manifestações públicas e a garantia, por parte das empresas de comunicação, de adoção de medidas mitigatórias dos riscos para cada situação específica. “Essas medidas podem e devem variar. Em um caso pode ser necessário, por exemplo, a utilização de equipamentos de proteção individual. Em outro, pode ser melhor o jornalista não estar sozinho”, comenta.
Maria José também ressalta o crescimento das ameaças/intimidações e agressões verbais praticadas por meio das redes sociais. Para a ela, esses casos também são graves e precisam ser denunciados, para que os agressores sejam identificados e punidos.

terça-feira, 8 de março de 2016

DF: Jornalista lança livro que narra a própria morte

O livro Muito prazer, eu sou a morte, do jornalista e cineasta Jorge Oliveira, publicado pela Editora Chiado, será lançado nesta quarta-feira (9/03) no Carpe-Dien, da 104 Sul. Lançado em Portugal o ano passado, o livro tem sido bem recebido pela crítica lusitana e brasileira e está disponível nas principais livrarias do país.

O autor narra a sua morte. Isso mesmo, Jorge Oliveira conta como foi morto por pistoleiros em 1984, no Rio de Janeiro,  quando saia de casa para fazer a cobertura do carnaval no Sambódromo para o Jornal do Brasil.
Com 272 páginas recheadas de boas histórias jornalísticas e políticas, o livro é uma leitura imperdível para quem viveu a ditadura no Brasil, as aventuras jornalísticas no Rio e em Brasília, à época, e a boemia carioca.

Jorge Oliveira, ganhador de dois prêmios Esso de Jornalismo, revela com sagacidade nesse seu quarto livro como denunciou o Programa Nuclear Brasileiro que lhe valeu o primeiro Esso no Jornal de Brasília.  Descreve com muito humor passagens pelos botequins carioca, principalmente do Restaurante Lamas, no Flamengo, reduto da intelectualidade do Rio de Janeiro.  

Muito Prazer, eu sou a morte faz parte de uma trilogia que começou com Curral da Morte e se encerra com “Máfia das Caatingas” já concluído para ser lançado no final do próximo ano. O autor também tem uma carreira bem sucedida como cineasta. Seu último filme “Olhar de Nise”, que conta a história da psiquiatra Nise da Silveira tem feito uma carreira de sucesso no exterior e no Brasil. Perdão, Mister Fiel, seu outro documentário de repercussão, ganhou 14 prêmios no Brasil e no exterior. 


A história do Muito prazer, eu sou a morte tem como palco o Rio de Janeiro, onde Oliveira viveu boa parte da sua vida, e Maceió, onde nasceu e começou a carreira profissional como jornalista, e Brasília, onde mora hoje. O livro, uma mistura de ficção e realidade, está na sua segunda edição. Surpreende o leitor pelos detalhes da morte do autor, contadas pelo próprio, e a cremação do corpo em um forno do Rio de Janeiro quando Oliveira tinha 36 anos de idade e trabalhava no Jornal do Brasil. 

sábado, 6 de fevereiro de 2016

Violência na TV. O começo do fim para Datena e companhia?

Ministério Público pede, em SP, condenação de programa da TV Record que feriu direitos humanos, ao incitar PM ao assassinato. Estudo revela mais de 60 atentados diários à Constituição.

Por Helena Martins, especial para a Ponte Jornalismo


“Atira, meu filho; é bandido”. Essa foi uma das frases proferidas por Marcelo Rezende, do programa Cidade Alerta, da Rede Record, ao transmitir, ao vivo, uma perseguição policial a dois homens que seriam suspeitos de roubo. A ação culminou com um tiro disparado à queima roupa pelo integrante da Ronda Ostensiva Com Apoio de Motocicletas (Rocam) da Polícia Militar de São Paulo contra aqueles que, repetidas vezes, foram chamados de “bandidos”, “marginais” e “criminosos” pelo apresentador.
A cobertura, feita em junho do ano passado, foi objeto de representação elaborada pelo Intervozes – Coletivo Brasil de Comunicação e pela ANDI – Comunicação e Direitos ao Ministério Público Federal em São Paulo. As organizações apontaram que houve desrespeito à presunção de inocência e incitação à desobediência às leis ou decisões judiciais. No texto, foram descritas as cenas e também as leis desrespeitadas pelo canal, em especial a Constituição Federal, que veda a veiculação de conteúdos que violem direitos humanos e façam apologia à violência, e o Código Brasileiro de Telecomunicações, que determina que “os serviços de informação, divertimento, propaganda e publicidade das empresas de radiodifusão estão subordinados às finalidades educativas e culturais inerentes à radiodifusão” (Art. 38, d).
Agora, o Ministério Público Federal ajuizou ação civil pública contra a Rede Record e a União. O órgão pede que a emissora transmita uma retratação, por dois dias úteis, mostrando não compactuar com o comportamento hostil e com a incitação à violência perpetrada por Marcelo Rezende. Em caso de descumprimento, o grupo deverá pagar multa de R$ 97 mil por dia. O MPF requer ainda que a União cumpra com o seu dever e fiscalize o programa.
As medidas são importantes para enfrentar a perversidade praticada todos os dias pelos chamados programas policialescos. Não é mais possível calar diante de conteúdos midiáticos que se valem de uma concessão pública para ir ao ar e, então, violar direitos de forma sistemática, como comprova pesquisa realizada pela ANDI em colaboração com o Intervozes, a Artigo 19 e o Ministério Público Federal. O estudo (*)aponta que pelo menos 12 leis brasileiras e 7 tratados multilaterais são desrespeitados cotidianamente por esses programas, entre eles a Declaração Universal dos Direitos Humanos.
A análise de 28 programas veiculados por emissoras de rádio e televisão em dez estados diferentes, ao longo de 30 dias, constatou que 1.936 narrativas possuíam violações. Entre elas: 1.709 casos de exposição indevida de pessoa; 1.583 de desrespeito à presunção de inocência; 605 de violação do direito ao silêncio; 151 ocorrências de incitação à desobediência ou desrespeito às leis; 127 de incitação ao crime e à violência; 56 casos de identificação de adolescentes em conflito com a lei; 24 registros de discurso de ódio e preconceito; 18 ocorrências de tortura psicológica e degradante, entre outros crimes.
Os números servem para comprovar práticas que podem ser observadas praticamente sempre que ligamos o rádio e a TV, especialmente no período do almoço ou no turno da tarde, já que, por serem considerados jornalísticos, os tais policialescos não são submetidos à classificação indicativa – permanecendo, assim, facilmente acessíveis às crianças e aos adolescentes. Poucas são as emissoras que não aderiram à fórmula que combina exploração de sensações (a começar pela dor de quem passa por situações violentas), merchandising e populismo. A estética (e, portanto, a ética) deles penetra também os tradicionais programas jornalísticos, inclusive porque estes passaram, na última década, a buscar responder ao crescimento da audiência daqueles.
Como consequência, temos veículos que levam a praticamente todos os lares brasileiros discursos que criminalizam, sobretudo, setores cujos direitos são historicamente negados, como os jovens negros suspeitos de atos infracionais. Discursos que criam estereótipos sobre comunidades ou populações inteiras, que tratam a violência de forma superficial e que apresentam como resposta aos problemas a redução da idade penal e outras expressões do Estado penal.
Ao passo que este vem se tornando cada vez mais necessário para regular a vida em sociedade com base na força, na vigilância, na produção do medo e na exclusão, também cresce o papel dos meios de comunicação na produção do que Eugenio Raúl Zaffaroni chama de “criminologia midiática”. Esta constrói uma imagem do real na qual estão, em lados absolutamente opostos, as pessoas boas, vulneráveis, e a massa criminosa. Isso é feito, claro, por meio da fabricação do estereótipo do criminoso, de campanhas de ‘lei e ordem’, de ideias rígidas, como a suposta impunidade dos adolescentes que entram em conflito com a lei, entre outros artifícios.
A justificativa para a seletividade penal necessária à manutenção deste sistema excludente e opressor é, assim, construída e reforçada todos os dias. A retórica de que “bandido bom é bandido morto” é exemplo disso. Ademais, ao praticar populismo penal, apresentando, por exemplo, a privação de liberdade em um sistema penal falido como resposta à demanda de segurança, tais programas – e as emissoras responsáveis por eles – privam a sociedade de ter acesso a uma informação plural, contextualizada e completa. Ignoram, por exemplo, o fato de o Brasil ocupar hoje o patamar de terceiro País com a maior população carcerária – posição que galgou, sobretudo, nos últimos dez anos, quanto também vimos o crescimento da violência, o que deixa claro que a saída proposta é absolutamente equivocada.
A figura carismática, o tom apelativo, a apresentação de respostas fáceis e a tentativa de ocupar o papel do Estado como mediador de conflitos e detentor da possibilidade de aplicação do direito abrem caminhos para a eleição de parlamentares – e, em breve, possivelmente de mandatários de cargos no Executivo. Alçados à posição de representantes da sociedade, esses apresentadores muitas vezes passam a integrar a chamada “bancada da bala” e a adotar agendas conservadoras, em especial em relação à segurança pública e aos direitos humanos, contra os quais também rotineiramente são proferidos discursos inflamados no rádio e na TV.
Para enfrentar essa lógica, é necessária, de imediato, uma mudança de postura dos órgãos responsáveis pela fiscalização dos conteúdos veiculados pelas emissoras de rádio e televisão, em especial o Ministério das Comunicações (MiniCom). Hoje, o Ministério tem recuado de seu poder fiscalizador e sancionador. Além de não monitorar os programas, atua apenas diante de denúncias ou de casos com grande repercussão pública. Além disso, pesquisa mostra que, em diversos casos, houve omissão ou restrição da ação do órgão ao considerar apenas dois dispositivos legais do Código Brasileiro de Telecomunicações para analisar conteúdos, embora haja muitos outros relacionados à questão.
A postura omissa do MiniCom resulta em uma carta branca para práticas criminosas. Entre 2013 e 2014, apenas duas emissoras de TV foram multadas por violações cometidas por programas policialescos: a TV Band Bahia, multada em R$ 12.794,08, e a TV Cidade de Fortaleza, que pagou R$23.029,34. No primeiro caso, a apresentadora Mirella Cunha humilhou um suspeito negro por oito minutos. No segundo, dois programas da emissora veicularam o estupro de uma menina de nove anos de idade. Nas duas situações, a ação do Ministério ocorreu após denúncia e pressão por parte da sociedade civil.
No caso que envolve o apresentador Marcelo Rezende, essa permissividade mais uma vez ficou clara. Assim como o MPF, o MiniCom recebeu do Intervozes denúncia sobre a ocorrência de desrespeito à presunção de inocência e incitação à desobediência às leis ou decisões judiciais. Não obstante, em resposta encaminhada pelo Departamento de Acompanhamento e Avaliação de Serviços de Comunicação Eletrônica, o órgão disse que segue analisando denúncia, mas que o Poder Judiciário deveria ser procurado em busca de reparação. Segundo o comunicado, “só depois de ocorrer a condenação do culpado, é que o Ministério das Comunicações poderá, com a sentença condenatória transitada em julgado, instaurar processo administrativo contra a entidade detentora da outorga para executar o serviço de radiodifusão, ‘por abuso no exercício da liberdade de radiodifusão por ter sido este meio utilizado para prática de crime’.”.
Além do longo prazo para a sociedade ter retorno de algo que, pelas características da mensagem televisiva, tem forte impacto imediato, em geral as multas são irrisórias e não há uma campanha pública que mostre a ocorrência da sanção nem o problema cometido pela emissora. Assim, essas medidas acabam sendo insuficientes para desestimular práticas equivocadas. Essa situação torna ainda mais urgente a atuação crítica da sociedade e de órgãos com posicionamentos contundentes, como tem sido o Ministério Público Federal, em relação aos grupos midiáticos.
Nunca é demais lembrar que a liberdade de expressão e a liberdade de imprensa devem conviver harmonicamente com os demais direitos e podem, inclusive, ser fundamentais para a promoção deles, caso sejam utilizadas com esse fim. Diante de tudo isso e tendo em vista a complexa conjuntura vivenciada no Brasil, sobretudo no campo dos direitos humanos, defendemos algo que pode ser feito desde já, como ocorre em democracias consolidadas ao redor do mundo: não aceitar violações. Se não enfrentarmos coletivamente essa agenda, estaremos fadados a viver em uma sociedade paralisada pelo medo e sujeita à reprodução de discursos que ampliam desigualdades sociais e legitimam a exclusão de grupos populacionais por meio da criminalização, do encarceramento ou do extermínio.

segunda-feira, 25 de maio de 2015

Câmara dos Deputados: Comissão de Segurança Pública rejeita federalização de crimes contra jornalistas

De O Jornalista

A impunidade dos crimes cometidos contra jornalistas ganhou um belo incentivo. A Comissão de Segurança Pública e Combate ao Crime Organizado da Câmara dos Deputados decidiu ontem (20/05), rejeitar o Projeto de Lei Nº 191, de 2015 de autoria do deputado federal Vicentinho (PT/SP), que federaliza os crimes contra jornalistas não resolvidos em 90 dias, e aprovar um parecer contrário à proposta, apresentado pelo coronel deputado Alberto Fraga (DEM-DF).
Parlamentar do Democratas do Distrito Federal
apresentou parecer contrário à federalização
dos crimes contra jornalistas.
O coronel da PMDF, deputado Alberto Fraga (DEM-DF), autor do parecer contrário ao Projeto de Lei Nº 191, de 2015, argumentou que "a aprovação da federalização não contribuirá para uma melhor taxa de resolução de crimes, pois a Policia Federal não tem conseguido concluir as investigações e exercer de forma devida as funções que lhe são atribuídas pela Constituição Federal, dentre elas a de prevenir e reprimir o tráfico ilícito de entorpecentes e drogas afins, o contrabando e o descaminho, e de exercer as funções de polícia marítima, aeroportuária e de fronteiras".
A rejeição capitaneada pelo coronel deputado Alberto Fraga (DEM-DF) causou surpresa nas entidades de defesa dos jornalistas. 
Esperava-se que uma Comissão composta majoritariamente por ex-policiais tivessem plena consciência que a violência contra jornalistas é uma ameaça à democracia e a impunidade destes crimes inaceitável.
O parecer do deputado Alberto Fraga venceu contra o voto do Deputado Silas Freire e o parecer do deputado Laudivio Carvalho (PMDB/MG) que passou a constituir voto em separado. Participaram da decisão os seguintes deputados: José Priante - Presidente; Capitão Augusto, Marcos Reategui e Laudívio Carvalho - Vice-Presidentes; Adelmo Carneiro Leão, Alberto Fraga, Alexandre Leite, Cabo Daciolo, Cabo Sabino, Caetano, Delegado Edson Moreira, Delegado Waldir, Eduardo Bolsonaro, Eliziane Gama, Fábio Mitidieri, Fernando Monteiro , Gilberto Nascimento, Guilherme Mussi, Laerte Bessa, Major Olimpio, Moema Gramacho, Moroni Torgan e Pastor Eurico - Titulares; Aluisio Mendes, Lincoln Portela, Moses Rodrigues, Onyx Lorenzoni, Ronaldo Martins, Rubens Otoni e Silas Freire - Suplentes.

Apesar da a rejeição na Comissão de Segurança Pública e Combate ao Crime Organizado, a proposta seguirá para análise da Comissão de Constituição e Justiça e de Cidadania da Câmara, onde espera-se tenha melhor destino.

quarta-feira, 7 de janeiro de 2015

Caldas Novas - GO: Rádio e TV são empasteladas a mando de políticos locais do PSDB

Por Adriana Martins, de Caldas Novas - GO

A emissora TV Gazeta - GO e a Rádio Gospel FM foram arrombadas e saqueadas em Caldas Novas, estado de Goiás, no dia 2 de janeiro, supostamente a mando de lideranças políticas locais filiadas ao PSDB, mesmo partido do governador Maguito Vilela.
Segundo funcionários, ainda perplexos com o ocorrido, a invasão armada ao prédio das emissora teria sido, supostamente, a mando do prefeito da cidade e do grupo do recém eleito deputado estadual Marquinho do Privé -PSDB/GO.
As evidências partem de um vídeo - com mais de 22 mil acessos na internet - onde um dos líderes da invasão (funcionário do grupo hoteleiro da família do deputado), que levou todo o equipamento da TV e também o que era de uso pessoal de um funcionário, diz abertamente que o motivo foi por o dono das emissoras falar contra o prefeito Evandro Magal. 
Entretanto, como salienta o próprio proprietário das duas emissoras, Adão Gonçalves, até há pouco tempo, o relacionamento dos dois grupos era bom.


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Família do ex-vice-prefeito de Caldas Novas
e hoje deputado estadual, Marquinhos Privê, PSDB, 
é apontada como sendo a mandante
do empastelamento das duas emissoras.
No início do ano, o então vice-prefeito de Caldas Novas, me procurou para fazer uma negociação na divulgação da sua campanha, já que o mesmo seria candidato a deputado estadual.Na ocasião negociamos que o agora deputado Marquinhos do Privé, compraria alguns equipamentos que seriam usados na TV Gazeta e em troca, minhas empresas fariam anúncios e matérias pagas, o que foi feito. No final da campanha, o deputado Marquinhos do Privé ficou me devendo alguns valores, além dos equipamentos que ele já tinha me entregado - afirma Adão Gonçalves, proprietário das emissoras.

A TV e a rádio permanecem fora do ar. Outra grande emissora de TV esteve no local e fez a matéria, porém antes de veiculá-la, o deputado Marquinho do Privé esteve na emissora, em Goiânia, tirou foto com o repórter e a matéria simplesmente sumiu. 
Será que em Caldas Novas a lei que garante liberdade de imprensa não existe? Os poderosos estão desafiando a justiça brasileira certos de que o dinheiro compra tudo e todos?

As imagens da violência que reina em Caldas Novas, no estado de Goiás, e a total falta de ação das autoridades policiais são chocantes. Demonstram a existência de coronéis que estão acima da lei e da ordem.

Veja o vídeo produzido a partir de imagens de celulares e cinegrafistas amadores.




Adão Gonçalves, proprietários das emissoras,
diz que elas foram alvo de ação a mando
das lideranças políticas locais.
Segue, abaixo, o relato do proprietário das emissoras Adão Gonçalves.

"Na última sexta-feira, 02/01, fui surpreendido com a informação que pessoas ligadas ao Prefeito de Caldas Novas e ao Deputado Estadual Marquinhos do Privé, estavam na porta da minha emissora para retirar a emissora do ar.
Comuniquei aos meus advogados, os quais foram de imediato para a porta da emissora, a mesma se encontrava fechada, pois estava exibindo programação gravada, por causa do feriado. Ao constatar que realmente os representantes do prefeito de Caldas Novas e ao deputado estadual, Marquinhos do Privé, estavam dispostos a arrombar a porta da emissora, os advogados chamaram a policia, a qual compareceu e aconselhou os mesmos a não invadir a emissora. Neste momento a PM recebeu ordem para deixar a porta da emissora.
Em seguida, o gerente do Hotel Privé, Ézio Afonso, e a advogada do Grupo Privé, Drª. Norma Luiza Reategui, voltaram para a porta da emissora e chamaram o restante dos funcionário e um caminhão de mudança, chegou também o segurança do deputado Estadual Marquinhos do Privé, Omar Bernardo, conhecido como "Capacete", com arma na cintura, o qual quebrou a porta da emissora para os funcionários do Grupo Privé entrarem.
A ação durou cerca de 30 minutos, logo que a polícia saiu e começaram a arrobar a emissora, ligamos para todos os números de celulares das viaturas. Liguei para o celular do comandante de polícia, Tenente Coronel Wesley, para o Major Welington, para a CPU, para o 190 através de várias operadoras e ninguém nos atendeu.
Ligamos também para o Corpo de Bombeiros, que através dos seus oficiais fizeram contados com a PM, mas ninguém quis fazer o atendimento da ocorrência.
A Policia Civil atendeu o telefone, mas disse que não poderia atender pois é serviço da PM.
Depois de uma hora do ocorrido, a PM compareceu no local para fazer a ocorrência.
Nas gravações feitas por celulares de funcionários, clientes e por quem passava pelo local, pode ser constatado agressões a funcionários da TV Gazeta, os quais foram obrigados a desligarem equipamentos coagidos sob ameaça de arma de fogo.
Nas gravações também fica claro que o motivo da ação é pelo fato das emissoras e jornal estarem fazendo matérias “negativas” contra a administração do Prefeito Evandro Magal.
Levaram vários equipamentos da sede da empresa, tirando a TV Gazeta canal 23 do ar, retirando também a Rádio Gospel do ar, e deixando o jornal diário Gazeta impossibilitando de editar suas edições, que circula em Caldas Novas e sul do Estado de Goiás. Além de equipamentos foi levado o valor de R$ 34.683,00, do caixa da emissora, o qual seria utilizado para o pagamento de funcionários no próximo dia 5.
Apesar do gerente do deputado Marquinhos do Privé ter dito nas gravações que a ação criminosa estava sendo feita porque os veículos de comunicação estavam falando “mau” do prefeito de Caldas Novas Magal e do governador, o empresário Adão Gonçalves não acredita na participação do governador nessa ação criminosa pois seus veículos nunca falou mal do seu governo e ao contrário disso sempre divulgou o bom trabalho realizado pelo governador Marconi em todo o estado de Goiás".