Instituição focada no pequeno e médio empreendedor lança prêmio jornalístico sem categoria específica para a mídia alternativa. Rádios e TVs comunitárias, jornais de bairros, sites e blogs são obrigados a concorrer, de igual para igual, com os jornalões, as redes nacionais de TV e Rádio e poderosos sites informativos empresariais.
Por Chico Sant’Anna[i]. Publicado simultaneamente no Observatório da Imprensa
O Serviço
Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae) é uma instituição de
mais de meio século de existência. Criada em 1972, como um Centro vinculado ao
então Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico (BNDE) - ainda não tinha o S
de social – a instituição nasceu para fomentar e assessorar os pequenos e médios
empresários. Atendendo à quase um milhão de empreendedores em todo o país, o
Sebrae afirma ter por missão, segundo seu portal institucional, a promoção da
competitividade e o desenvolvimento sustentável de micro e pequenas empresas,
estimulando o empreendedorismo. Trata-se de uma instituição cuja marca é bem
captada e avaliada pela opinião pública. Ao longo da história, o Sebrae sempre
soube construir um conceito sobre a importância de se promover os pequenos
negócios, se valendo fortemente dos veículos de comunicação, em especial da
imprensa. No jargão jornalístico, sempre soube plantar a pauta.
Este ano, pela 13ª consecutiva, é promovido o Prêmio Sebrae
de Jornalismo. A iniciativa, que em 2026 chega à 13ª edição, “está posicionada
como uma vitrine fundamental para produções jornalísticas que dão visibilidade
aos pequenos negócios em todo o Brasil” – comenta release do Sebrae.
Em todo o país, alcançou 3.759 inscrições. A participação dos
profissionais abrange as categorias de Texto, Áudio, Vídeo e Fotojornalismo, não
há diferenciação por tamanho do meio informativo. Apenas para o Jornalismo
Universitário existe uma categoria diferenciada. Paradoxalmente, o certame jornalístico
do Sebrae, que tem por objetivo promover os pequenos e médios negócios, não
possui nenhuma categoria voltada à imprensa alternativa. Será que não existe
interesse em promover a “competitividade e o desenvolvimento sustentável de
micro e pequenas empresas” jornalísticas e midiáticas, de “estimulando o
empreendedorismo” delas?
Rádios e TVs
comunitárias, jornais de bairro, sites, blogs, todos estes tipos de meios de
comunicação alternativos se desejarem concorrer no prêmio Sebrae, terão que fazê-lo
de igual para igual com a chamada mainstream
media, ou seja, os grandes jornalões, as redes nacionais de rádio e
televisão, os grandes portais. Não é necessário gastar argumentos para
demonstrar que é uma concorrência desleal. Haja visto os recursos tecnológicos
e humanos que cada tipo de mídia dispõe.
O paradoxal
aqui é termos uma instituição, que tem por meta fortalecer os pequenos e médios
empreendimentos, ignorar a pequena e média imprensa existente neste país. Só o
universo de rádios comunitárias legalizadas pelo Ministério das Comunicações ultrapassa
a casa de quatro mil. O que leva o Sebrae a desconsiderar a existência desta
imprensa alternativa? O que ela noticia não teria peso ou valor cognitivo suficiente
para os anseios do Prêmio Sebrae?
Organizações
internacionais, possuem uma abordagem diferenciada e inteligente junto à mídia
alternativa. São cientes de que em determinadas localidades, em determinados
públicos, o que chega aos cidadãos são os informes do que o norte-americano Dan
Gillmor cunhou de grassroots media[ii].
Se valendo do conceito, que em português se refere às origens de algum fenômeno,
poderíamos traduzir por um jornalismo
raiz, Gillmor faz referência a um “jornalismo cidadão:” O autor inglês Cris
Atton[iii]
(2002: 143), divide os veículos alternativos em dois grupos: a advocacy media, que atua em defesa de
causas sociais, e os grassroots media,
que provocariam uma revolução maior no que tange a introdução de novos valores
de noticiabilidade, “news values”.
Instituições
internacionais, como a Unicef, a Unaids e a Organização Mundial de Saúde, atuam
permanentemente junto a essas emissoras, buscando parceria, fomentando-as, por
meio do fornecimento de conteúdo, treinamentos. Em alguns casos especiais,
estas instituições repassam apoio material para a compra de equipamentos e
manutenção de gráficas, emissoras, equipamentos de informática. Estão cientes
de que a imprensa alternativa é um importante instrumento de transmissão de uma
contrainformação ou de uma contracultura na busca de mudanças de valores
sociais.
Como já
tivemos a oportunidade de afirmar, a imprensa alternativa, sob as diversas
rotulações que comporta – o public
journalism, contra-imprensa, imprensa nanica, radical, anarquista,
associativa, comunitária, operária, etc. – bem como sob diversos propósitos
editoriais, enquanto elemento de accountability,
transparência, advocacy, lobbying,
relações públicas, assessoria de imprensa, construção da cidadania, dentre
outras (Sant’Anna, 2009: 66)[iv]
-, é um fato concreto na esfera pública midiatizada, ou seja, no espaço social
e virtual onde os debates políticos, culturais e sociais ocorrem por meio dos
meios de comunicação. Não há como negar sua existência.
Há três anos temos provocado dirigentes do Sebrae sobre a não previsão de
categoria especifica para pequenos e médios veículos em seus prêmios
jornalísticos. Nunca obtivemos uma resposta.
É notório
que a promoção de concursos jornalísticos representa a adoção de uma estratégia
para sensibilizar profissionais de imprensa, em especial os gatekepers – aqueles que definem as
pautas e-ou o aproveitamento editorial nos veículos - para que foquem em
determinado assunto -, bem como interferir nos critérios de definição da agenda
midiática. Na década de 1990, a Unicef foi bastante feliz em promover por anos
seguidos prêmios focados na proteção da infância. Coincidência ou consequência,
o tema da infância é hoje uma constante no noticiário nacional. A Aids também
foi alvo durante muito anos de concursos jornalísticos semelhantes, em
especial, voltados para fomentar o combate à discriminação.
A realização
de prêmios jornalísticos, se de um lado ajuda a promover a instituição ou determinado
tema, de outro aporta credibilidade e reconhecimento externo. Aos inscrever-se
em um concurso voltado à imprensa, o profissional ou o veículo procura obter a
chancela corporativa e dos demais atores sociais quanto à qualidade de seu
noticiário. A conquista de prêmios aporta credibilidade ao produto informativo,
credencia o veículo na esfera pública. E para o jornalista contribui para o
reconhecimento profissional. (SANT’ANNA: 269). É tudo que um veículo de pequeno
porte necessita para crescer. Este credenciamento ajuda a abrir portas junto às
fontes, junto aos gestores de verbas publicitárias, ou seja ajuda a crescer e
consolidar-se como empresa ou instituição jornalística.
Voltamos,
então à pergunta: por que o Sebrae não foca seus prêmios nesse perfil de
veículo de comunicação? Inclusive como instrumento de fomento e fortalecimento
deste segmento empresarial. Será uma preferência em conceder premiações a
profissionais que já conquistaram o estrelato da carreira? Será que a ele só
interessa o que é publicado nos jornalões e grandes redes de TV, rádio e
portais de internet? O pequeno e médio comunicador não lhe interessa?
[i]
Jornalista Profissional, pesquisador acadêmico, Mestre em Comunicação pela
Universidade de Brasília e Doutor em Ciência da Informação e Comunicação, pela
Universidade de Rennes 1 – França.
[ii]
GILLMOR, D. (2006). We the Media:
Grassroots Journalism by the People, Sebastopol, EUA, O'Reilly Media.
[iii] ATTON,
C. (2002). Alternative media, London,
Sage
[iv]
SANT’ANNA, F (2009) Mídia das Fontes: um
novo ator no cenário jornalístico brasileiro - Um Olhar Sobre A Ação Midiática
Do Senado Federal. Brasília, Edições Técnicas do Senado.

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