terça-feira, 9 de junho de 2026

Contos futuristas de Maria Félix tensionam os limites entre a natureza e o artificial


Em “Labirintos do caos”, da escritora e jornalista Maria Félix Fontele, 14 histórias revelam os dilemas mais profundos da sociedade contemporânea
 

Quatorze histórias, movidas pelo desencanto e pela esperança em realidades que se transformam rapidamente, rompendo com tudo aquilo que antes era familiar. Se transformaram no mais novo livro da jornalista e escritora, Maria Félix Fontele: Labirintos do caos. Nesse trabalho, as personagens são pessoas comuns inseridas em contextos futuristas estranhos e caóticos, mas que se aproximam do cotidiano. Os quatorze contos retratam um futuro que até pode parecer distante da contemporaneidade, mas já faz parte do presente, muitas vezes sem que quase ninguém se dê conta.

Com uma veia distópica, a obra de ficção especulativa tenciona as relações entre a natureza e o artificial para refletir sobre os conflitos do ser humano frente a um mundo desconhecido que se anuncia como uma possibilidade. “Quando penso no caos, não imagino apenas ruína. Penso também no que ainda não ganhou forma, mas pulsa entre o desconexo, o obscuro e o imprevisível” - observa a autora ao ressaltar que essa visão está no cerne de Labirintos do caos, que começou a ser escrita durante a pandemia da Covid. “A obra serviu de válvula de escape diante da impotência de tempos sombrios, onde o espírito da criação se sobrepõe ao massacre de um cotidiano doente, e traz reflexões nem sempre positivas de nossa humanidade” - complementa.

Questões sociais

Sem a pretensão de ser pessimista, mas com uma perspectiva desencantada acerca das vilezas do mundo, a autora provoca em suas narrativas reflexões sobre questões sociais. Em “As memórias que ficaram na lata do lixo”, a protagonista lê cadernos sobre a infância da mãe, quando via os outros com medo do AI-5. Mas a personagem principal, decidida a viver somente o presente, passa por um procedimento para apagar memórias e esquece do passado familiar. Já em “A Indigenista e a Guerreira”, o ano é 2041, e um holograma de uma mulher é criado para disfarçar os impactos das grandes corporações no planeta.

Na madrugada seguinte, Belinda chegou à casa molhada de chuva e de lágrimas, levada por outra patriota. Estava desorientada. A confusão mental lhe fazia repetir o mantra: “Os generais vêm nos salvar”. A filha passou os dias enxugando o rosto da mãe louca que não sabia mais por que e por quem chorava, embora emitisse sinais de que, com o tempo, ficaria livre daquele pesadelo, após se submeter a várias desintoxicações e limpar a mente das lavagens cerebrais. (Labirintos do caos, p. 86)

Nos textos, Maria Félix Fontele também pondera sobre os relacionamentos possíveis em um mundo cada vez mais digital e transformado pelas inteligências artificiais. “O segredo” acompanha a decisão de Joaquim de revelar um segredo para a família sobre um vínculo amoroso criado a partir da tecnologia. Em “Seu nome é sensibilidade”, a trama foca em Luciana, uma mulher que, após uma separação traumática, começa a se envolver com um ciborgue.

A obra tem projeto gráfico de Jeferson Barbosa e Gabriele Oliveira, e cada conto inicia com ilustrações que buscam inserir o leitor no universo literário que será narrado. Publicado pela Mondru Editora, o livro apresenta orelha de Luigi Ricciardi, escritor, doutor em Literatura e professor da Universidade Federal do Amapá. Labirintos do caos foi publicado com recursos do Fundo de Apoio à Cultura do Distrito Federal (FAC-DF), da secretaria de Cultura e Economia Criativa do Distrito Federal.

A autora:

Maria Félix Fontele é jornalista, escritora e sócia-fundadora da Fontele Studios. Formada pela Universidade Federal de Goiás (UFG), trabalhou como secretária-adjunta e coordenadora de Comunicação Social do Governo do Distrito Federal, além de ter sido a primeira coordenadora de Comunicação da Câmara Legislativa do Distrito Federal. Atuou como repórter, chefe de reportagem, editora e colunista em diversos veículos de comunicação e em assessorias de imprensa. É autora dos livros “Versos que habitam” (2018) e “O barulho, o silêncio e a solidão de Deus” (2020), publicados pela Confraria do Vento Editora. Agora, lança Labirintos do caos pela Mondru Editora.

 

 

Serviço:
Título:
Labirintos do caos - Editora: Mondru Editora
Páginas: 114
Autora: Maria Félix Fontele
Lançamento: 10 de junho, a partir das 18h30, no Caferante, CLS 203

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